A realidade paralela do eleitor de Flávio Bolsonaro
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
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Repórter especial na ‘Repórter Brasil’, venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário ‘Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia’ e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Sete em cada dez dos que pretendem votar no candidato do PL sabem das conversas do 01 com Vorcaro
O eleitor de Flávio Bolsonaro (PL) detesta ser chamado de gado. Tem razão: a boiada segue sem saber para onde vai, e a maioria dos partidários do 01 tem consciência da escolha. Sabe que o candidato pediu dinheiro a um banqueiro que acabaria preso tentando deixar o País e declara voto mesmo assim. Escrever sobre Flávio é fácil, porque ele deixa rastros. Difícil é entender quem sabe de tudo isso e vai apertar o número dele no domingo .
Quando Jair Bolsonaro (PL) saiu do baixo clero e chegou ao Planalto, parte da sociedade encontrou no presidente um espelho e gostou do reflexo: leite condensado escorrendo de um canto da boca e cloroquina babujada no outro. Era a licença que faltava para ser, em público e sem culpa, o escroto cotidiano que sempre quis.
O Datafolha divulgado em 24 de setembro mostra o presidente Lula (PT) com 40% e Flávio com 36% no primeiro turno, e os dois tecnicamente empatados no segundo, 47% a 45%. Seria confortável atribuir esse desempenho do bolsonarista à ignorância do eleitor.
A pesquisa que próprio instituto fez em maio põe a hipótese à prova. Ela perguntou sobre as conversas entre Flávio e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, a respeito do filme sobre o pai. Entre os que declaram voto no senador, 72% conhecem as conversas, mais do que no eleitorado em geral, e 53% dizem que ele agiu bem ao pedir dinheiro ao banqueiro.
O caso Vorcaro, portanto, não era segredo para a maioria dos que declaram voto em Flávio. Quem ainda precisa de desculpa encontra uma pronta, porque o candidato tem método.
O método tem três tempos: nega primeiro, depois reduz e, por fim, terceiriza a culpa. Em 22 de março, em João Pessoa, Flávio chamou de “narrativa falsa” de Lula qualquer ligação da direita com o Master e disse esperar que Vorcaro fizesse delação e entregasse tudo o que sabe.
Em maio, abordado pelo Intercept sobre o dinheiro do banqueiro para Dark Horse, filme sobre o pai, respondeu que era mentira. As mensagens publicadas naquele dia mostravam o senador negociando um aporte de cerca de 134 milhões de reais e escrevendo a Vorcaro, na véspera da prisão do banqueiro em Guarulhos: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
Aí veio a segunda parte do método. Flávio admitiu seis repasses e garantiu à GloboNews que o último fora em maio de 2025. Um relatório do Coaf obtido pela piauí registrou uma sétima parcela em setembro de 2025, oito dias depois de um áudio em que o senador cobrava o atraso e lembrava o vexame que seria dar calote no ator Jim Caviezel, que interpreta o pai no filme. O total passou de 65 milhões de reais. Em outubro, depois de nova cobrança de Flávio e do publicitário Thiago Miranda, Vorcaro avisou a Miranda: “Liberei mais uma hoje”.
Na terceira etapa do método, a assessoria mandou dirigir as perguntas à produtora. Até o dinheiro viajou terceirizado: passava por um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado do irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e a PF investiga se todo dinheiro chegou mesmo ao filme.
Terceirizar exige um terceiro, e Flávio tem um amigo à disposição. O advogado Willer Tomaz, alvo de uma investigação sobre as fraudes do INSS que não inclui o senador, foi seu companheiro em ao menos cinco viagens internacionais no primeiro semestre de 2025. Uma delas foi um safári na África do Sul com o senador Weverton Rocha (PDT-MA), também investigado.
Em agosto, a campanha em São Paulo teve como base um apartamento da empresa de Tomaz na Vila Nova Conceição. O imóvel pertencera a Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro segundo a PF e autor da maior doação individual à campanha de Jair Bolsonaro em 2022. Zettel o vendeu a Tomaz menos de dez meses depois de comprá-lo, por 2 milhões de reais abaixo do que pagara.
A assessoria diz que Flávio só se hospedou em hotéis. Os moradores, que confirmaram à piauí a presença do senador e da escolta da Polícia Legislativa, devem ter convivido com um sósia. Tomaz primeiro negou que o amigo tivesse usado o imóvel; no dia seguinte, mandou nota dizendo não conhecer Zettel nem Vorcaro, sem uma palavra sobre Flávio.
O jato é o caso mais didático. Em 1º de julho, num café da manhã com mulheres conservadoras, Flávio garantiu: “Vocês não vão me ver viajando para Londres, Estados Unidos, para Paris”. E completou: “Nunca entrei em avião do Vorcaro”. Em janeiro de 2025, ele, a mulher, as duas filhas e Tomaz tinham voado de Fort Lauderdale, na Flórida, para Brasília num jato dividido em cotas. Uma era de Tomaz. Outra pertencia à Prime You, da qual Vorcaro era sócio.
Três dias antes de a viagem vir a público, Flávio atacara o ministro Alexandre de Moraes, do STF, por ter usado o mesmo avião. Pego, fez piada: ainda bem que, na época, o avião era do Willer. O avião era do amigo, Flávio diz que não sabia da cota da Prime You, e Tomaz diz ter descoberto a sócia incômoda só em abril deste ano. A cota já existia no dia do voo.
As tretas da campanha se somam a outras do passado. Em 2018, o Coaf apontou 1,2 milhão de reais em movimentações atípicas na conta de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. A denúncia do Ministério Público caiu depois que STJ e STF anularam provas por vícios processuais. O mérito não foi julgado.
Daí nasce a legenda que organiza todas as outras: Flávio não tem condenação criminal. É verdade e é o melhor ativo da campanha dele.
Em 2005, Flávio propôs, e a Alerj concedeu, a Medalha Tiradentes, maior honraria da Casa, a Adriano da Nóbrega. O policial estava preso desde janeiro de 2004, acusado de participar do assassinato de Leandro dos Santos Silva, flanelinha morto a tiros depois de denunciar extorsões atribuídas a PMs. Adriano foi condenado, teve a sentença anulada e acabou absolvido em 2007. Oito meses depois, a mulher dele virou assessora no gabinete de Flávio, onde ficou até 2018. Mais tarde, o Ministério Público apontou Adriano como chefe de milícia e do Escritório do Crime.
A milícia voltou à campanha em setembro, com outro nome. Em 24 de outubro de 2023, Robson Calixto Fonseca, o Peixe, escreveu a uma assessora que ele salvara no celular como “Fafa Flávio Bolsonaro”: “Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar”. Pedia verba para um projeto de futebol infantil na Taquara, zona oeste do Rio. Dois dias depois, ela sugeriu que ele levasse o então deputado federal Chiquinho Brazão (União-RJ) a uma cerimônia do gabinete para reforçar o pedido. Em novembro, o instituto indicado por Peixe recebeu quase 200 mil de reais de uma emenda de Flávio.
As conversas, recuperadas pela PF, duraram cinco meses e terminaram dois dias antes de a polícia prender Peixe e os irmãos Brazão. Em fevereiro deste ano, o STF condenou os Brazão como mandantes dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, e Peixe a nove anos de prisão por integrar a organização criminosa armada dos irmãos. A versão do senador já nasceu terceirizada: a destinação foi legal, e a execução cabia à entidade. A PF investiga se houve desvio.
Para quem quer acreditar, há uma explicação para cada caso: o filme foi investimento privado; no apartamento, ele não se hospedou; o jato era do amigo; a emenda seguiu os trâmites; a medalha, justificou Flávio em 2005, premiava a prisão de doze “marginais” no Morro da Coroa. Cada resposta dura até o assunto seguinte.
Em Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico (Autêntica, 2023), João Cezar de Castro Rocha chama de “dissonância cognitiva coletiva” a criação, nas redes e na arena pública, de uma realidade paralela cujos delírios ganham estatuto de verdade.
Os números, porém, apontam outros caminhos além da crença. Mais da metade do eleitor de Flávio dispensa o bom senso, porque acha certo pedir dinheiro ao banqueiro. Mais de um terço considera errado e declara voto nele assim mesmo. Para esses, a versão não precisa convencer, precisa servir.
O sobrenome Bolsonaro sustenta boa parte desse voto. Para quem rezou diante de um pneu, ele vale mais que qualquer currículo. Além dessas questões internas e paranormais, o fanbase dark side de Dark Horse aplaude o entreguismo old school do herdeiro. Em março, na CPAC, vitrine da direita trumpista em Dallas, ele pediu aos Estados Unidos e ao “mundo livre” que observassem a eleição brasileira e exercessem “pressão diplomática”.
Rubio agradeceu pela “generosa oferta” de uma equipe de transição à disposição de Washington. Flávio nega ter pedido ajuda externa e fala em cooperação entre democracias. É o nacionalismo de joelhos: a bandeira no pescoço e o mastro no… deixa para lá.
O número de Flávio na urna é o mesmo do pai, condenado a 27 anos e três meses pela trama golpista e em prisão domiciliar humanitária. Por ter divulgado nas redes uma carta do ex-presidente, o filho está proibido por Moraes de visitá-lo até depois do primeiro turno.
Para Flávio, basta servir uma versão curta, repetível e confortável para cada fato. Quem precisa de desculpa faz o resto. Em 4 de outubro, a urna vai medir quantos álibis cabem num país.
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
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Fonte: Carta Capital