César Callegari: “Brasil precisa formar uma nova geração de professores”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), César Callegari, defendeu a criação de uma política nacional capaz de formar uma nova geração de professores, com cursos presenciais, formação em tempo integral, bolsas de permanência, integração entre teoria e prática e uma carreira profissional que valorize competências para além do tempo de serviço e da titulação acadêmica.
As declarações foram dadas em entrevista ao programa Nocaute com Fernando Morais, na TV 247. Ao discutir os desafios da educação brasileira, Callegari colocou a formação e a valorização dos professores no centro das mudanças que considera necessárias para elevar a aprendizagem e preparar o sistema educacional para transformações como a expansão da inteligência artificial.
“Nós temos duas tarefas fundamentais. Primeiro, valorizar os 2,3 milhões de professoras e professores que trabalham hoje. Esse é o nosso maior patrimônio”, afirmou. “Eles precisam ser valorizados com salário, remuneração, vinculação concreta na carreira e condições de trabalho. É com elas e com eles que nós vamos fazer as mudanças que o Brasil precisa fazer.”
Para Callegari, essa valorização precisa caminhar ao lado de uma reformulação da formação inicial. Segundo ele, o país deve abandonar modelos baseados em preparação predominantemente remota e construir cursos nos quais futuros docentes tenham contato permanente com escolas, estudantes e situações concretas de ensino.
“Nós temos que aprender conosco, com as experiências, para criar uma nova geração de professores no Brasil. É isso que nós precisamos fazer: uma nova geração de professores”, declarou.
Formação para um mundo em transformação
Callegari argumentou que a formação docente não pode se limitar à transmissão dos conteúdos que o professor deverá ensinar em sala. Na avaliação dele, o profissional que ingressará nas redes de ensino nas próximas décadas terá de compreender mudanças tecnológicas, sociais, econômicas e geopolíticas que afetam diretamente a educação.
Isso exige, segundo o presidente do CNE, um currículo voltado simultaneamente para os problemas educacionais acumulados pelo país e para os desafios futuros.
“Não é um currículo apenas que permita que esse profissional dê conta do estoque de dívidas sociais e educacionais que o Brasil acumulou há séculos. Esse estoque tem que ser resolvido, mas tem que olhar para o futuro”, afirmou.
Na proposta apresentada por Callegari durante a entrevista, a formação deveria ocorrer presencialmente e em tempo integral, acompanhada por mecanismos que garantam a permanência dos estudantes nas licenciaturas.
“Formação em tempo integral é fundamental, presencial. Nada mais de fazer formação de professores à distância”, defendeu.
Ele também propôs que futuros docentes recebam bolsas durante o período de formação e façam estágios com presença efetiva nas escolas.
“O sujeito sai da escola de formação de professor e sabe trabalhar, sabe ensinar no momento em que chegar numa escola de educação básica. Isso é fundamental”, disse.
Crítica ao modelo de carreira
Outro ponto levantado por Callegari foi a estrutura das carreiras do magistério. Para ele, os mecanismos utilizados atualmente para determinar a progressão profissional não acompanham as transformações da atividade docente.
“Como é a carreira de um professor hoje? Tempo e título. Duas variáveis do século XIX”, afirmou.
Segundo Callegari, atividades como produção intelectual, desenvolvimento de metodologias de ensino, criação artística, experimentação pedagógica e capacidade de inovar raramente são incorporadas como critérios relevantes de progressão.
Ele citou como exemplos um professor que escreve um livro, desenvolve uma sequência didática ou participa de projetos culturais. Na visão de Callegari, essas experiências deveriam integrar a avaliação da trajetória profissional porque estão relacionadas à capacidade de produzir conhecimento e criar novas formas de aprendizagem.
A mudança, afirmou, deveria buscar um profissional com domínio de conteúdos, mas também com capacidade de experimentar, interpretar contextos e incentivar a curiosidade dos estudantes.
“A carreira do professor tem que estar associada a essa competência fundamental que é a criatividade, a experimentação dentro de um processo de contextualização e de conhecimentos mais amplos”, declarou.
“Ser professor não é para qualquer um”
A valorização financeira também foi apresentada por Callegari como condição para tornar o magistério uma carreira capaz de atrair profissionais qualificados.
“Nós precisamos trazer para o magistério no Brasil as melhores e os melhores. Ser professor não é para qualquer um”, disse.
Segundo ele, isso não significa restringir o acesso à profissão, mas criar condições para que jovens com diferentes origens sociais possam escolher o magistério sem enfrentar perda salarial em comparação com outras carreiras que exigem ensino superior.
Callegari chegou a defender um patamar salarial maior para quem ingressa na educação básica.
“Um professor de educação básica hoje não pode ir para o mercado de trabalho ganhando menos que R$ 10 mil de piso”, afirmou.
A proposta apresentada por ele na entrevista não corresponde, por si só, a uma política salarial atualmente instituída no país. Trata-se da remuneração que Callegari considera necessária para aumentar a atratividade da carreira e modificar o perfil do recrutamento de professores.
Inteligência artificial muda papel do professor
A discussão sobre formação docente ganhou outro componente quando Callegari abordou a inteligência artificial. Para ele, a disseminação desses sistemas torna ainda mais importante o papel do professor, em vez de eliminar sua necessidade.
O presidente do CNE argumentou que ferramentas de IA já conseguem produzir textos, responder perguntas e gerar materiais acadêmicos, o que reduz a importância de modelos educacionais baseados apenas na transmissão e reprodução de informações.
“O que nós precisamos fazer hoje é formar perguntadores, produtores de prompts inteligentes, capazes de comandar a inteligência artificial e não serem comandados por ela”, afirmou.
Segundo Callegari, habilidades como pensamento crítico, criatividade, compreensão de contexto e capacidade de formular perguntas passarão a ter peso crescente na educação.
Nesse cenário, a função docente deixa de ser entendida como simples apresentação de conteúdos e passa a envolver mediação, interpretação e desenvolvimento da autonomia intelectual dos estudantes.
“A educação é experimentação. Você tem que experimentar, tem que ousar, tem que errar”, disse. “Nós temos que formar rebeldes, rebeldes com causa, não conformistas, aqueles que questionam, sabem perguntar.”
Plataformas não substituem professores
Callegari também criticou o processo que chamou de “plataformização” da educação — o uso de pacotes digitais, aulas previamente gravadas e sistemas automatizados como eixo principal da atividade escolar.
Para ele, a tecnologia pode apoiar professores e estudantes, mas se transforma em problema quando é utilizada como substituta da relação pedagógica.
“São pacotes prontos, aulas prontas, plataformas inclusive de avaliação. Essa plataformização pretende substituir o professor”, afirmou.
Callegari citou o estado de São Paulo como exemplo de uma política na qual, segundo sua avaliação, houve expansão desse modelo. A crítica dele se dirige especialmente a sistemas padronizados que reduzem a autonomia docente e tratam o acesso ao conteúdo como equivalente ao processo educacional.
“Como se apenas proporcionar acesso a conteúdos pudesse significar educação”, criticou.
Na interpretação de Callegari, essa discussão se relaciona diretamente à formação profissional. Quanto maior a presença de tecnologias capazes de armazenar, organizar e produzir informações, maior será a necessidade de professores preparados para ensinar estudantes a avaliar essas informações e produzir conhecimento a partir delas.
Formação a distância sob questionamento
O presidente do CNE também manifestou preocupação com a expansão das licenciaturas oferecidas pelo setor privado, especialmente as realizadas predominantemente a distância.
Durante a entrevista, ele afirmou que grande parcela dos novos docentes brasileiros passou nos últimos anos por cursos desse tipo e relacionou o fenômeno à baixa qualidade observada em parte das formações.
“Educação não é mercadoria. Educação não é mercadoria”, enfatizou.
Callegari disse não se opor à existência de instituições privadas de ensino superior, mas defendeu maior controle sobre a qualidade oferecida.
“Pode ter privada, não tem problema nenhum, mas tem que ter qualidade. Não pode fazer da educação um processo apenas de produção de diplomas completamente vazios e que tenha uma perspectiva apenas financeira”, afirmou.
A crítica se estende ao processo de concentração empresarial no setor educacional. Para ele, quando a lógica financeira determina a organização dos cursos, existe o risco de redução de custos ocorrer à custa da formação presencial, da prática pedagógica e do acompanhamento dos estudantes.
Professor como centro da política educacional
Ao longo da entrevista, Callegari citou experiências de estados como Ceará e Piauí para sustentar que resultados educacionais não dependem exclusivamente do nível de riqueza de uma região. Segundo ele, políticas continuadas, cooperação entre estados e municípios e valorização do magistério podem produzir mudanças mesmo em contextos de restrição econômica.
O Ceará foi lembrado pelo investimento na alfabetização das crianças e pela articulação entre governo estadual e municípios. Já o Piauí foi destacado pela expansão do ensino médio em tempo integral e pela educação profissional.
Para Callegari, essas experiências reforçam uma conclusão: nenhuma reforma educacional pode produzir resultados permanentes sem os profissionais que atuam diariamente nas escolas.
“Sem professor não se faz educação”, resumiu.
Essa premissa atravessa também sua análise sobre inteligência artificial, plataformas digitais, ensino médio e educação profissional. Na visão apresentada durante a entrevista, novas tecnologias podem transformar métodos e ferramentas, mas não eliminam a necessidade de profissionais capazes de compreender cada estudante, organizar experiências de aprendizagem e desenvolver pensamento crítico.
É por isso que, para Callegari, a formação de professores não deve ser tratada como uma política restrita às universidades ou às licenciaturas. Ela está ligada ao próprio projeto de desenvolvimento do país.
“Educação de qualidade em todos os níveis e para todos é absolutamente fundamental para qualquer projeto de soberania”, afirmou.
Na reta final de sua análise, o presidente do CNE voltou ao ponto que considera decisivo para os próximos anos: o Brasil dispõe de instituições, financiamento público e conhecimento acumulado para reorganizar a formação docente. O desafio, em sua avaliação, é transformar esses elementos em uma política de longo prazo.
“Nós temos recursos para fazer isso, temos sistemas para fazer isso”, disse. Para Callegari, reunir financiamento, universidades, redes de ensino e políticas de carreira permitiria tornar a formação de professores um dos eixos da transformação da educação brasileira.
Fonte: Brasil 247