Lula está com a mão na taça e não deve ir ao debate da Globo
Por Leonardo Attuch — Brasil 247
A reta final da sucessão presidencial de 2026 entrou na fase em que a lucidez tática e a contenção de erros valem ouro. Os números divulgados nas últimas horas não deixam margem para dúvidas razoáveis: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu uma vantagem consistente, consolidou a dianteira e caminha a passos firmes para liquidar a fatura. Está, como se diz no jargão esportivo, com a mão na taça. Por essa razão exata, não faz qualquer sentido político, institucional ou estratégico comparecer ao debate da TV Globo nesta quinta-feira.
A virada de chave começou na madrugada desta segunda-feira, quando o levantamento BTG/Nexus apontou um cenário que até então parecia distante: a possibilidade real de vitória já no primeiro turno. Na pesquisa espontânea, onde a convicção do eleitor é cristalina, Lula chegou a 47,7% dos votos válidos, contra 40,7% de Flávio Bolsonaro. Uma dianteira expressiva de sete pontos, a poucos pontos percentuais da marca matemática de 50% mais um voto necessária para encerrar o pleito de imediato.
Poucas horas depois, a rodada da Quaest, encomendada pelo Grupo Globo, referendou a mesma trajetória. A margem de erro foi superada: Lula avançou para 39% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro ficou estacionado em 34%. O dado mais revelador do instituto dirigido por Felipe Nunes é a aceleração do voto útil e a redução drástica dos indecisos. A base eleitoral do presidente Lula responde positivamente a entregas econômicas e sociais concretas: o reforço contínuo do Bolsa Família, as medidas contra a as apostas online e as políticas de saúde pública como a distribuição das canetas emagrecedoras pelo SUS. Tudo isso parece estar garantindo uma tração decisiva, sobretudo entre as mulheres.
Do lado adversário, o desespero cobra seu preço. Isolado e vendo o teto eleitoral bater à porta, Flávio Bolsonaro cometeu o erro crasso de comprar uma briga frontal e desnecessária com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ao acusar os bispos de espalharem desinformação, recebeu como troco uma nota de repúdio contundente e histórica, lembrando que não se combate mentira com mentira. Para quem pretendia unificar os setores conservadores e cristãos do país, a ruptura com a Igreja Católica é uma ferida aberta que sangra votos todos os dias.
Nesse tabuleiro, qual seria o ganho de Lula em se enfurnar nos estúdios do Projac para servir de vidraça? Nenhum.
Com a presença de Flávio confirmada no estúdio, a ausência de Lula transforma o palco do debate em uma praça de guerra exclusiva do campo conservador. Sem o líder das pesquisas para monopolizar o ringue, o filho do ex-presidente se tornará o alvo preferencial de todos os seus concorrentes diretos: Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury. Todos disputam o mesmo espólio da direita, todos precisam demonstrar viabilidade eleitoral e todos sabem que Flávio é o obstáculo a ser demolido. Deixar a extrema-direita digladiar-se entre si é a escolha tática mais inteligente que a campanha de Lula pode fazer.
A ausência no debate não custará um único voto a Lula. A história recente mostra que esse tipo de boicote estratégico é plenamente assimilado pelo eleitorado quando o quadro de liderança já está cristalizado. Mais ainda: qualquer ruído pode ser neutralizado com facilidade no mesmo horário por meio de uma transmissão ao vivo nas redes sociais ou uma grande entrevista coletiva, pautando o debate público em ambiente menos hostil e propositivo.
Acima de tudo, há a dimensão da própria liturgia do cargo: mais do que candidato à reeleição, Lula é o Presidente da República Federativa do Brasil. Não tem a obrigação — e nem deve — rebaixar a dignidade da Presidência para se expor a baixarias, provocações rasteiras e agressões premeditadas de figuras marginais que nada têm a perder.
O jogo está nos acréscimos e o apito final se aproxima. Quando se está ganhando por placar seguro e o título está ao alcance das mãos, cabe cautela, prudência e conservadorismo. É hora de tocar a bola de lado, manter a posse, gastar o relógio e, eventualmente, encaixar mais um contra-ataque para empurrar a bola para o fundo da rede e carimbar a vitória já no primeiro domingo de outubro.
Fonte: Brasil 247