Qual é o custo ambiental de uma eleição?
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Publicado em 28 de Setembro de 2026 às 04:50
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As eleições se aproximam e, com elas, nossas cidades ganham uma paisagem bastante conhecida: santinhos, panfletos, adesivos, cartazes, faixas e diferentes materiais de divulgação eleitoral espalhados pelas ruas. É o momento em que candidatos apresentam propostas, defendem projetos e procuram convencer o eleitor de que estão preparados para administrar cidades, estados e o país.
Mas existe uma pergunta que quase nunca fazemos durante uma campanha eleitoral: qual é o custo ambiental de uma eleição?
É curioso perceber que, enquanto sustentabilidade, mudanças climáticas, preservação das florestas, saneamento, água e transição energética aparecem nos discursos e nos programas de governo, milhares de materiais são produzidos para uma utilização extremamente curta. Alguns papéis entregues ao eleitor permanecem em suas mãos por poucos segundos antes de serem descartados.
É uma discussão que não pretende condenar a propaganda eleitoral. Ela tem sua importância no processo democrático, inclusive como instrumento para levar informações a parcelas da população que não estão permanentemente conectadas às redes sociais.
A própria legislação permite a distribuição de folhetos, adesivos, volantes e outros materiais impressos dentro das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral. Para as eleições de 2026, a distribuição de material gráfico pode ocorrer até as 22 horas do dia anterior à votação. O que não se admite é o conhecido “derrame de santinhos” nos locais de votação e nas vias próximas, prática expressamente proibida pela legislação eleitoral.
A questão, portanto, não é simplesmente usar ou não usar papel .
A pergunta correta talvez seja: precisamos usar tanto?
Todo material possui uma história antes de chegar às nossas mãos. Houve utilização de matéria-prima, energia, água, transporte, impressão e recursos financeiros para produzi-lo. Quando seu destino, poucos minutos depois, é uma calçada, um bueiro ou uma lixeira comum, desperdiçamos muito mais do que um pedaço de papel.
E há ainda os materiais de comunicação visual produzidos com diferentes tipos de plástico, adesivos e lonas. Dependendo de sua composição, separação e da estrutura disponível no município, sua reciclagem pode ser mais complexa. Por isso, o planejamento do destino desses materiais deveria começar antes mesmo de sua produção.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos nos oferece um princípio que poderia perfeitamente ser aplicado às campanhas eleitorais. A prioridade deve ser, nesta ordem: não gerar, reduzir, reutilizar, reciclar, tratar e, somente por último, realizar a disposição ambientalmente adequada daquilo que realmente se tornou rejeito .
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Traduzindo isso para uma eleição: imprimir menos, distribuir melhor, reutilizar estruturas e encaminhar corretamente para reciclagem aquilo que não puder mais ser utilizado.
Parece simples. E pode ser.
O Ministério do Meio Ambiente destaca que a reciclagem reduz o consumo de recursos naturais, economiza água e energia e diminui o volume de resíduos encaminhados para disposição final. Além disso, fortalece uma cadeia econômica da qual fazem parte milhares de trabalhadores e organizações de catadores de materiais recicláveis.
Por que, então, não aproximar ainda mais eleições e cooperativas de reciclagem?
Partidos e campanhas poderiam assumir antecipadamente compromissos para recolher os materiais após a votação. Municípios poderiam organizar pontos de recebimento. Materiais poderiam ser separados corretamente e encaminhados às associações e cooperativas de catadores.
Faixas e outros materiais resistentes poderiam, quando tecnicamente possível, ganhar uma segunda utilização. Papéis poderiam retornar à cadeia produtiva. Estruturas poderiam ser desmontadas e reaproveitadas.
No Espírito Santo, uma iniciativa deste ano caminha justamente nessa direção. O Ministério Público Estadual lançou o Selo Cidade Limpa – Eleições 2026 , destinado a incentivar municípios, candidaturas, partidos, federações e coligações a adotarem práticas sustentáveis e reduzirem os impactos ambientais das campanhas. A iniciativa também chama atenção para a prevenção do despejo irregular de materiais de propaganda nas ruas.
Talvez este seja o momento para avançarmos ainda mais.
Por que não pensar, no futuro, em uma espécie de responsabilidade ambiental da campanha eleitoral ?
Não apenas prestar contas sobre quanto foi gasto na produção do material, mas também assumir responsabilidade sobre seu destino.
Quanto foi impresso? Quanto sobrou? Quanto foi recolhido? Quanto conseguiu ser encaminhado para reciclagem?
Seria uma interessante demonstração prática de compromisso ambiental.
O outro lado dessa discussão está nos próprios programas apresentados nestas eleições.
Sem entrar em nomes, partidos ou preferências eleitorais, uma análise das propostas mostra algumas tendências ambientais bastante claras entre as candidaturas à Presidência da República.
Desmatamento e proteção das florestas aparecem com frequência. Há propostas relacionadas à ampliação da fiscalização, utilização de satélites e tecnologia, recuperação de áreas degradadas e combate a atividades ambientais ilegais.
Outra pauta recorrente é o mercado de carbono , acompanhado de propostas relacionadas ao pagamento por serviços ambientais, bioeconomia e geração de renda associada à conservação das florestas.
A transição energética também aparece com destaque, embora sob diferentes perspectivas. Energia renovável, biocombustíveis, hidrogênio verde, exploração mineral associada às novas tecnologias e o futuro dos combustíveis fósseis estão entre os assuntos discutidos.
O licenciamento ambiental é outro ponto em que aparecem visões bastante distintas. Algumas propostas enfatizam fortalecimento da proteção e da fiscalização ambiental, enquanto outras dão maior peso à simplificação de procedimentos e à redução de prazos para empreendimentos.
Há ainda planos que procuram conciliar as duas questões. Comparações recentes dos programas presidenciais registrados mostram exatamente essa variedade de abordagens para desmatamento, clima, fiscalização, licenciamento, energia, mineração, agropecuária e conservação.
Também cresce uma pauta que durante muitos anos recebeu atenção insuficiente: a adaptação às mudanças climáticas .
Não basta mais discutir somente como reduzir as emissões responsáveis pelo aquecimento global. Precisamos preparar nossas cidades para aquilo que já está acontecendo.
Calor extremo, secas prolongadas, chuvas concentradas, enchentes, deslizamentos e incêndios estão mudando a maneira como precisamos pensar infraestrutura e planejamento urbano.
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No Espírito Santo, essa discussão aparece com força especial.
As propostas apresentadas para o governo estadual revelam tendências relacionadas à segurança hídrica, proteção de nascentes e bacias hidrográficas, reflorestamento, saneamento, monitoramento climático e hidrológico, prevenção de desastres, agricultura sustentável, licenciamento ambiental e recuperação de áreas degradadas.
Levantamentos feitos a partir dos planos registrados no TSE mostram que meio ambiente, agricultura, infraestrutura e desenvolvimento aparecem cada vez mais interligados no debate estadual.
E isso faz todo sentido.
No Espírito Santo, discutir meio ambiente significa discutir disponibilidade de água para as cidades e para o campo. Significa falar da recuperação do Rio Doce, da conservação das nascentes, da Mata Atlântica, da ocupação urbana, das áreas sujeitas a enchentes e deslizamentos e da capacidade dos municípios de responder aos eventos climáticos extremos.
Significa falar também de saneamento.
Água tratada, coleta e tratamento de esgoto e manejo correto dos resíduos não são assuntos separados da agenda ambiental. São parte dela.
Por isso, talvez o grande desafio destas eleições seja fazer com que o meio ambiente deixe definitivamente de ocupar apenas algumas páginas dos programas de governo e passe a fazer parte das decisões econômicas, sociais e administrativas.
E o eleitor também tem um papel nisso.
Precisamos perguntar como determinada proposta será executada. Qual será a meta? Qual será o prazo? De onde virão os recursos? Quem será responsável? Como os resultados serão medidos?
Mais importante do que encontrar a palavra “sustentabilidade” em um programa de governo é entender o que ela significa na prática.
E existe uma oportunidade de demonstrar essa prática antes mesmo da abertura das urnas.
Ela começa na própria campanha.
Na quantidade de material que se decide imprimir.
No santinho que não é jogado no chão.
Na faixa que pode ser reutilizada.
No papel que chega à cooperativa.
No resíduo que deixa de entrar em um bueiro ou chegar a um curso d’água.
Uma eleição dura alguns meses. Os efeitos das escolhas feitas durante ela podem permanecer por anos. Os resíduos produzidos também.
Que a festa da democracia termine com votos contabilizados, propostas debatidas e cidadãos participando. Mas que não termine com nossas ruas cobertas de lixo.
Porque quem pretende cuidar do futuro de uma cidade, de um estado ou de um país pode começar demonstrando, ainda durante a campanha, que sabe também cuidar do lugar onde todos nós vivemos.
Marco Bravo
Biólogo, mestre em Gestão Ambiental, comentarista de Meio Ambiente e Sustentabilidade da rádio CBN Vitória
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