Em sabatina, Lula defende fim das bets, reforma política e novo critério para escolher ministros do STF
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou neste domingo (27) de uma ampla sabatina no programa Canal Livre, da Band, na qual abordou alguns dos principais temas da agenda nacional e da campanha presidencial de 2026. Candidato à reeleição, Lula falou sobre a proibição das bets, mudanças no processo de indicação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), reforma política, segurança pública, situação fiscal, Previdência, violência contra a mulher, Banco Master, política externa e a reta final da eleição.
Bets e endividamento das famílias
Um dos principais temas da entrevista foi a decisão do governo de proibir as apostas de quota fixa. Lula relacionou a medida ao endividamento de famílias e aos efeitos da ludopatia, além de rejeitar o argumento de que a retirada dos patrocínios das casas de apostas inviabilizaria financeiramente o futebol brasileiro.
“Foi regulamentado, mas não deu certo”, afirmou Lula ao ser questionado sobre a legislação aprovada durante seu governo. Ao relatar casos de apostadores endividados, acrescentou: “Eu resolvi acabar, porque senão a bet acaba com o Brasil”.
A proibição foi formalizada na sexta-feira (25) pela Medida Provisória 1.394. O texto veda a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa em território nacional, tanto em eventos esportivos quanto em jogos on-line. A norma estabelece um período de transição e determina que sites e aplicativos sejam indisponibilizados dez dias após sua publicação. As autorizações existentes deverão ser extintas em 30 dias.
Lula também rebateu previsões de que os clubes seriam profundamente afetados pela perda dos patrocínios. Ele recordou títulos conquistados antes da expansão das plataformas de apostas e afirmou que o futebol brasileiro não depende historicamente desse tipo de financiamento.
“O futebol foi pentacampeão mundial sem bet. O Flamengo foi campeão mundial sem bet. O Corinthians foi campeão mundial sem bet”, afirmou.
A MP também proíbe ações de publicidade, marketing e patrocínio ligadas às apostas de quota fixa. Como medida provisória, a norma produz efeitos desde sua publicação e está em tramitação no Congresso.
Lula propõe mudar escolha de ministros do STF
O presidente defendeu uma revisão do sistema de escolha dos ministros do Supremo. Lula disse considerar insuficiente que a seleção fique concentrada na indicação do chefe do Executivo e propôs discutir um mecanismo que envolva um colegiado e representantes da sociedade civil.
“Eu acho que não pode ser só o presidente que indique”, declarou. Segundo Lula, o objetivo seria estabelecer um “crivo” anterior ao envio do nome para análise do Senado.
Pela Constituição, os ministros do STF são nomeados pelo presidente da República depois que a indicação é aprovada pela maioria absoluta do Senado. A Corte é composta por 11 ministros.
Ao explicar sua preocupação com o modelo atual, Lula afirmou que não há garantia de como um indicado atuará depois da posse. “Uma coisa é quando você indica. Outra coisa é quando bota a toga. É quando o cara coloca a toga, ele vira Deus”, disse.
Lula também voltou a defender a discussão de mandatos para integrantes da Corte e disse que eventuais mudanças precisariam ser debatidas com juristas, advogados, universidades e a sociedade civil. Ele acrescentou que denúncias contra integrantes do Judiciário devem ser investigadas, sem antecipar conclusões sobre culpa ou inocência.
Reforma política e crítica aos fundos eleitorais
A reforma política ocupou outro trecho extenso da entrevista. Lula associou a atual polarização à fragilidade programática dos partidos e disse que uma mudança nas regras deveria estimular legendas com programas, bandeiras e vínculos mais definidos com setores da sociedade.
Segundo o presidente, uma reforma dessa natureza enfrentaria dificuldades porque atingiria diretamente interesses de deputados e partidos.
“Quando se trata da reforma política, você está mexendo com o interesse pessoal de cada deputado, de cada partido político. Não é possível a gente continuar com a promiscuidade política do jeito que está”, afirmou.
Lula também anunciou uma mudança de posição em relação ao financiamento público das legendas e das campanhas.
“Eu, que fui defensor do fundo partidário, eu, que fui defensor do fundo eleitoral, hoje eu sou contra. Eu sou contra porque isso apodreceu a política”, declarou.
O presidente também criticou o chamado orçamento secreto e afirmou que pretende abrir uma nova discussão sobre a organização partidária caso seja reeleito. Para Lula, a diminuição da polarização dependeria de partidos capazes de representar de maneira mais clara diferentes segmentos da sociedade.
Segurança e o “andar de cima” do crime organizado
Na área de segurança pública, Lula defendeu uma participação mais ampla da União no combate ao crime organizado e disse que o governo deve priorizar inteligência e investigação financeira para atingir dirigentes e financiadores das organizações criminosas.
“Nós queremos asfixiar economicamente o crime organizado, porque ele virou uma indústria multinacional”, afirmou. O presidente disse que o objetivo é “atacar o andar de cima”, em vez de concentrar a ação do Estado apenas nos integrantes das organizações que atuam diretamente nas ruas.
Lula voltou a defender a PEC da Segurança Pública e afirmou que, se a proposta for aprovada, pretende criar um Ministério da Segurança Pública e reforçar uma estrutura nacional capaz de atuar de forma integrada com estados e municípios.
O presidente também diferenciou a atuação de organizações como PCC e Comando Vermelho do conceito político de terrorismo que, segundo ele, tem sido utilizado pelo governo dos Estados Unidos. Para Lula, essas facções submetem comunidades a práticas que podem ser descritas como terror, mas o enquadramento jurídico e político não deve ser equiparado automaticamente ao de organizações terroristas internacionais.
Ao falar da retomada de territórios dominados pelo crime, Lula defendeu presença policial permanente acompanhada de serviços públicos. Citou escolas em tempo integral, formação profissional, cultura e lazer como instrumentos que deveriam acompanhar as operações de segurança.
Dívida, juros e crescimento econômico
Na economia, Lula afirmou que pretende reduzir a relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto por meio do crescimento econômico, ao mesmo tempo em que mantém programas sociais e investimentos em infraestrutura.
“A dívida pública não me causa pânico”, declarou. O presidente citou as reservas internacionais como um elemento de proteção da economia e voltou a defender a redução dos juros como condição importante para ampliar o crescimento.
Lula afirmou ainda que sua prioridade é combinar equilíbrio das contas com preservação de políticas destinadas à população de menor renda. Segundo ele, o aumento da atividade econômica deve resultar em mais empregos, salários maiores e fortalecimento do mercado interno.
O presidente também citou o PAC, a política industrial, investimentos em formação profissional e a intenção de ampliar a capacidade brasileira em inteligência artificial, minerais críticos e terras raras. Na área tecnológica, disse não querer que o país dependa exclusivamente de soluções desenvolvidas na China ou nos Estados Unidos.
Previdência pode ter nova reforma, diz Lula
Questionado sobre a sustentabilidade da Previdência diante do envelhecimento da população, Lula não descartou mudanças futuras, mas condicionou uma eventual reforma à avaliação das necessidades do sistema.
“Se precisar fazer reforma, a gente vai fazer reforma. Se não precisar, a gente não vai fazer”, afirmou.
O presidente argumentou que geração de empregos e aumento da massa salarial são fundamentais para fortalecer a arrecadação previdenciária e disse que não pretende apoiar medidas que, em sua avaliação, retirem direitos da população de menor renda.
Lula também mencionou a situação das mães e demais familiares que dedicam grande parte da vida ao cuidado de pessoas com deficiência ou dependentes. Para ele, o debate previdenciário e assistencial deverá considerar formas de proteção para essas pessoas.
Violência contra a mulher
Lula também foi questionado sobre o enfrentamento ao feminicídio e sobre a baixa participação feminina em posições de poder. O presidente afirmou ter colocado o tema da violência contra as mulheres na agenda direta da Presidência e defendeu a ampliação das políticas de prevenção e proteção.
Sobre a composição do STF e de um eventual novo governo, Lula evitou estabelecer cotas prévias para cargos e disse que pretende considerar a qualificação dos nomes. Ao mesmo tempo, afirmou que a maior participação das mulheres na política depende também do aumento de candidaturas e da ocupação de vagas no Congresso, Assembleias Legislativas e prefeituras.
Investigações envolvendo Lulinha e ex-assessor
A entrevista também tratou das investigações que alcançam Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente.
Lula afirmou acreditar na inocência dos dois, mas disse que nenhum deles deve ser poupado de investigação. “Eu acho que o Marcola é 100% inocente. Acho que meu filho é inocente. Agora, eles não estão livres da investigação”, declarou.
O presidente disse que não tomou medidas para impedir apurações envolvendo o filho e afirmou que, se houver comprovação de irregularidades, os responsáveis devem responder pelos próprios atos.
Lula também foi questionado sobre o Banco Master e sobre sua reunião com Daniel Vorcaro. O presidente confirmou o encontro e afirmou que disse ao então banqueiro que não haveria perseguição política, mas que eventuais irregularidades seriam investigadas. O caso Master tem sido um dos temas de maior tensão entre política, sistema financeiro e Judiciário na reta final da campanha.
Relação com Trump e política externa
Na política externa, Lula afirmou manter uma relação pessoal de diálogo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apesar das divergências entre os dois governos.
“Eu me dou bem com o Trump. Toda vez que eu converso com o Trump, nós nos damos muito bem”, disse. Lula acrescentou que o Brasil continuará negociando com Washington, mas voltou a defender a possibilidade de aplicação da lei de reciprocidade caso não haja entendimento em disputas comerciais.
O presidente também defendeu a diversificação do comércio exterior, citando a ampliação das relações com China, países asiáticos e outras economias. No plano diplomático, voltou a criticar o enfraquecimento do multilateralismo e a capacidade limitada do Conselho de Segurança das Nações Unidas de interromper conflitos.
Nossa Senhora Aparecida e reta final da eleição
Lula também comentou a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida e afirmou que considera “inaceitável” qualquer tentativa de retirar o título de padroeira do Brasil. O presidente defendeu respeito recíproco entre católicos, evangélicos e seguidores de religiões de matriz africana.
No encerramento do programa, ao ser convidado para um eventual debate de segundo turno na Band, Lula apresentou sua própria expectativa sobre a eleição. “Eu estou com a leve impressão de que não haverá segundo turno”, disse.
O presidente pediu aos eleitores que comparem as trajetórias políticas dos candidatos e afirmou acreditar que a decisão será tomada já no primeiro turno. A declaração representa a avaliação eleitoral feita pelo próprio candidato durante a entrevista, a uma semana da votação.
Fonte: Brasil 247