Monitoramento identifica 697 sites suspeitos de bets após proibição da atividade no Brasil
Por Luis Mauro Filho — Brasil 247
247 – Um monitoramento da Iron Security identificou 697 sites de apostas que estariam funcionando sem autorização neste domingo (27), ante 103 endereços catalogados quando a coleta começou, na segunda-feira (21). A contagem avançou durante a semana em que entrou em vigor a medida provisória que proibiu as bets no Brasil, mas o levantamento não permite concluir que todos os domínios tenham sido criados depois da decisão do governo.
O levantamento é produzido pela Iron Security, empresa de cibersegurança e inteligência artificial parceira da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), e está disponível no painel público Bet Legal. Os números foram detalhados neste domingo pelo jornal O Globo. Na sexta-feira (25), data da publicação da MP, o sistema contabilizava 340 sites suspeitos; no sábado (26), eram 633. A relação de marcas que tinham autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, permaneceu em aproximadamente 250 sites no período.
A própria Iron Security ressalta que a inclusão de um endereço no levantamento representa um indício de possível irregularidade e não uma confirmação de que o site seja ilegal ou fraudulento. Cada domínio passa a integrar a contagem no dia em que é localizado pelo sistema, e parte das páginas encontradas já havia sido criada antes da proibição.
“Eu não posso dizer que é uma casa fraudulenta ou que as intenções daquele site são maliciosas. Eu só comparo o que a SPA autorizava até sexta-feira com os sites de apostas que surgiram nesse intervalo”, afirmou o CEO e fundador da Iron Security, Diego Terrani.
Segundo Terrani, cada operador que havia obtido licença federal podia explorar até três marcas. Os responsáveis pelos sites classificados pelo painel podem contestar a inclusão na lista. O executivo disse que, até o momento da reportagem, nenhuma contestação havia sido apresentada.
O painel também acompanha os endereços bloqueados pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que executa restrições solicitadas pela SPA contra páginas sem autorização. O sistema registrava 1.999 bloqueios, número que permaneceu inalterado durante o período acompanhado. Terrani afirmou não ter confirmação oficial da Anatel de que os bloqueios tenham sido interrompidos.
Como o monitoramento identifica os sites
A Iron Security afirma utilizar robôs de automação e agentes de inteligência artificial para localizar páginas relacionadas a apostas. Aplicativos não entram diretamente na análise porque, segundo Terrani, praticamente todas as casas de apostas também mantêm um endereço na internet.
Um dos primeiros critérios é o domínio. As empresas autorizadas pelo governo federal precisavam operar em endereços terminados em “.bet.br”, liberados mediante aval da SPA. De acordo com Terrani, nenhum domínio com essa terminação apareceu entre os sites classificados pelo sistema como não autorizados.
“Se ele não é ‘.bet.br’, já levanta suspeita. Aí eu preciso da inteligência artificial para ler o site e dizer se ele tem informações que remetem a jogos, se pede Pix ou cadastro de cartão de crédito”, explicou.
Depois dessa etapa, o sistema cruza os resultados com a relação oficial de empresas que tinham autorização da SPA. O painel também registra a data em que cada endereço é detectado, razão pela qual o aumento na contagem não significa, necessariamente, que todos os sites tenham surgido no mesmo intervalo.
A ANJL informou ainda que foi suspenso o acordo de cooperação técnica mantido pela entidade com a Superintendência de Fiscalização da Anatel e com a SPA. A parceria previa laboratórios físico e virtual destinados a estudos, monitoramento e análises de operações clandestinas.
Risco de migração para sites não autorizados
Terrani sustenta que a saída das empresas autorizadas pode reduzir mecanismos privados usados para localizar e derrubar páginas que imitam marcas de casas de apostas. A Iron Security, que é parceira da ANJL no levantamento, também presta serviços a empresas que operavam legalmente no mercado brasileiro antes da MP.
“As casas legalizadas usavam os seus recursos para combater as ilegais, porque estavam defendendo as próprias marcas. Quando elas desligam esses sistemas de proteção, abre espaço para qualquer um, de qualquer país, de qualquer origem, criar seus sites e anunciar aqui no Brasil”, afirmou.
Segundo o executivo, páginas sem autorização também podem chegar aos usuários por anúncios pagos em ferramentas de busca e redes sociais, incluindo ofertas promocionais de jogos de cassino on-line.
“O apostador vai receber uma promoção, vai clicar e vai jogar sem saber se aquela casa é legal ou não”, disse Terrani.
O presidente da ANJL, Plínio Lemos Jorge, também relaciona a proibição ao risco de expansão do mercado clandestino. A avaliação é da entidade que representa empresas do setor e integra o posicionamento das operadoras contra a medida.
“Não surpreende, mas impacta. Se o objetivo da medida era impedir a atuação das bets, o efeito concreto foi atingir as empresas legalizadas, que recolhiam impostos, estavam submetidas à fiscalização e eram obrigadas a adotar mecanismos de controle e proteção de públicos vulneráveis, como crianças e adolescentes”, declarou.
Segundo O Globo, advogados de associações e empresas do setor estudam uma iniciativa coletiva no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar suspender os efeitos da MP. Entre os argumentos avaliados estão alegações de insegurança jurídica e questionamentos sobre a interrupção de uma atividade até então regulamentada por lei. O grupo pretende priorizar a retomada das operações antes de discutir eventuais pedidos de indenização.
Jorge estima que uma plataforma possa perder cerca de 15% de sua carteira de clientes a cada dia sem operar. O percentual é uma estimativa apresentada pelo representante da associação, e não um dado oficial do governo.
O que determina a MP
A Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026, editada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), proibiu em território nacional a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos on-line. A norma também alcança operadores sediados no exterior que ofereçam o serviço a pessoas localizadas no Brasil.
Novos depósitos nas plataformas ficaram proibidos desde sexta-feira (25). Os apostadores podem retirar voluntariamente os saldos até as 23h59 de 5 de outubro, e os sites e aplicativos devem sair do ar a partir de 6 de outubro. O cronograma oficial prevê a devolução dos valores remanescentes pelas instituições financeiras entre 9 e 14 de outubro.
A MP entrou em vigor com a publicação e está em tramitação no Congresso Nacional. O texto também instituiu um comitê interinstitucional destinado à fiscalização da exploração e da publicidade ilegal de apostas de quota fixa.
Fonte: Brasil 247