Flávio Bolsonaro, a padroeira e o lobo: credibilidade não se recupera por decreto
Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski
A reportagem de Marina Verenicz, publicada pelo InfoMoney em 24 de agosto, registra uma declaração que ajuda a compreender o embaraço de Flávio Bolsonaro na polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Ao anunciar que um de seus primeiros atos como presidente seria “ decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo ”, o candidato fez um aceno explícito ao eleitorado evangélico e colocou a autoridade presidencial a serviço de uma afirmação religiosa. Agora, essa mesma declaração dificulta sua tentativa de convencer o público de que não pretende transportar para o governo a instrumentalização da fé que pratica na campanha.
É preciso distinguir, contudo, a declaração documentada da intenção que lhe foi atribuída. A promessa de Flávio Bolsonaro não comprova que ele pretenda retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Como explicou Filipe Pereira, da CNN Brasil, conteúdos nas redes associaram sua fala a um projeto antigo, arquivado em 2008. A notícia do InfoMoney, portanto, não desmente seu desmentido, mas ajuda a compreender por que ele encontra dificuldades para encerrar a controvérsia: foi o próprio candidato quem prometeu usar a Presidência para decretar o pertencimento religioso do país.
Também seria equivocado tratar uma referência a Jesus Cristo como necessariamente hostil aos católicos, cuja fé é cristã. O problema está no uso eleitoral dessa linguagem e na expectativa que ela produz sobre o exercício do poder. Ao apresentar uma declaração religiosa como providência inaugural de governo, Flávio Bolsonaro oferece motivos para questionar como lidaria com a diversidade de crenças da sociedade brasileira. Depois disso, torna-se politicamente mais difícil assegurar que suas promessas confessionais não terão consequências para quem está fora do segmento que busca mobilizar.
Essa dificuldade se agrava pelo histórico de suas próprias negativas. Em reportagem publicada na Folha de S.Paulo em 13 de maio, Raphael Di Cunto mostrou que Flávio Bolsonaro havia negado qualquer contato com Daniel Vorcaro dois meses antes de admitir que conhecia o banqueiro e que lhe pedira financiamento para o filme sobre Jair Bolsonaro. Nesse episódio, a contradição não depende de interpretação adversária: a versão inicial foi desmentida pelo reconhecimento posterior do próprio senador. É um antecedente que compromete a força de sua palavra quando surge uma nova controvérsia.
Cabe aqui a comparação com a fábula de “Pedro e o Lobo”: depois de anunciar repetidamente um perigo inexistente, Pedro perde a confiança dos moradores e acaba sozinho quando o lobo finalmente aparece. A analogia com Flávio Bolsonaro está no mecanismo de desgaste da credibilidade. Quem já apresentou uma negativa incompatível com os fatos pode encontrar resistência quando precisa ser acreditado, inclusive numa ocasião em que esteja dizendo a verdade. Isso não torna verdadeiro o boato sobre Nossa Senhora Aparecida, mas explica por que seu enfrentamento exige mais do que uma declaração indignada.
Flávio Bolsonaro se vê, assim, diante de uma dificuldade produzida pela combinação entre sua retórica religiosa e a confiança que ele próprio ajudou a corroer. A promessa registrada pelo InfoMoney oferece combustível à controvérsia, enquanto a contradição no caso Vorcaro enfraquece sua capacidade de apagá-la. O candidato pode negar uma intenção que não foi demonstrada, mas não pode exigir que o eleitorado esqueça suas palavras anteriores. Para quem prometeu decretar a quem pertence o Brasil, fica uma lição inconveniente: credibilidade não se recupera por decreto.
Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).
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Fonte: Blog do Pedlowski
