Serrinha do Paranoá e a promessa de um parque que precisa sair do papel

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Por Jacy Afonso — Brasil 247

Por Jacy Afonso e Lúcia Mendes* – Em tempos de emergência climática e insegurança hídrica, governar é fazer escolhas. E poucas escolhas serão tão reveladoras para o futuro do Distrito Federal quanto o destino da Serrinha do Paranoá.

A governadora do Distrito Federal assumiu publicamente o compromisso de criar um parque na região da Gleba A. Agora, é preciso cobrar: quando essa promessa será transformada em realidade?

A pergunta não é retórica. A Serrinha do Paranoá está diante de uma encruzilhada: pode se tornar um dos mais importantes territórios de proteção ambiental, hídrica e climática de Brasília ou ser convertida em mais uma frente de expansão imobiliária sobre áreas ambientalmente frágeis.

A ciência e o próprio planejamento territorial do DF já apontaram o caminho.

A Serrinha é uma área estratégica de recarga de aquíferos. Seu solo e sua vegetação funcionam como um verdadeiro “território esponja”, permitindo que a água da chuva infiltre no solo, abasteça os aquíferos e mantenha nascentes, córregos e cursos d’água durante os períodos de estiagem. A impermeabilização desse território reduz a infiltração, aumenta o escoamento superficial, intensifica processos erosivos e compromete justamente o mecanismo natural que ajuda a garantir água no período seco.

O Zoneamento Ecológico-Econômico do DF já identifica na região riscos ecológicos elevados relacionados à perda do Cerrado, à erosão, à contaminação das águas subterrâneas e à perda da capacidade de recarga dos aquíferos.

O novo PDOT, por sua vez, reconhece a Serrinha como Área Prioritária para Promoção da Resiliência Hídrica e como território com potencial de recuperação ecológica.

Não se trata, portanto, de uma interpretação ideológica de ambientalistas. É o Estado reconhecendo que aquele território presta serviços ambientais essenciais para toda a população.

E há uma razão ainda mais grave para a preocupação: a Serrinha está localizada na área de influência do Lago Paranoá, manancial que se tornou estratégico para o abastecimento do Distrito Federal depois da crise hídrica que levou Brasília ao racionamento entre 2016 e 2018.

Será que já esquecemos daquela crise?

Precisamos repetir o erro de ocupar áreas de recarga para depois gastar bilhões tentando remediar os efeitos da escassez?

O custo da destruição ambiental raramente aparece na planilha de um empreendimento imobiliário. Mas aparece na conta de toda a sociedade: mais enchentes, menos água infiltrada, nascentes desaparecendo, temperaturas mais elevadas, perda de biodiversidade, necessidade de novas obras de infraestrutura e maior vulnerabilidade diante das mudanças climáticas.

Estudo técnico do IPAM estima que uma eventual urbanização da área poderia provocar emissões de aproximadamente 104,5 mil toneladas de CO₂, diante de um estoque atual estimado em cerca de 28,5 mil toneladas, com um passivo climático calculado em aproximadamente R$ 2,5 bilhões.

É uma conta que precisa ser colocada sobre a mesa quando se discute o futuro do Cerrado na Serrinha.

Também existe uma questão de justiça socioambiental.

Por que parques e natureza de qualidade precisam estar concentrados nas regiões mais valorizadas da cidade?

Um parque na Serrinha pode ser também uma política de justiça social: garantir lazer, esporte, educação ambiental, turismo de natureza e contato com o Cerrado para milhares de pessoas que vivem no entorno.

E existe uma oportunidade histórica diante do Governo do Distrito Federal.

A criação de uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, abrangendo a Gleba A e conectando os remanescentes de Cerrado da Serrinha, permitiria formar um importante corredor ecológico, protegendo a biodiversidade, as nascentes e as áreas de recarga, além de fortalecer a adaptação de Brasília às mudanças climáticas.

A proposta está em sintonia com a construção do Mosaico Candango, concebido para conectar unidades de conservação, áreas de proteção de mananciais e territórios estratégicos do Cerrado.

Diversos espaços institucionais e entidades ambientais já se posicionaram pela preservação da Serrinha.

Um Manifesto pela criação de um Parque Nacional da Serrinha já reúne centenas de assinaturas de personalidades, ambientalistas, jornalistas, parlamentares e entidades de pesquisa e proteção do Cerrado.

O debate deixou de ser uma questão restrita às comunidades locais.

Agora é uma questão de Estado.

Governadora, a senhora prometeu o parque da Serrinha.

A sociedade quer saber quando essa promessa será cumprida.

O pequeno parque criado na região do Urubu e Jerivá, fazendo limite com a DF-005, rebatizou o Parque Pedra dos Amigos e finalmente saiu do papel. Mas não é suficiente e não é a unidade de conservação de que precisamos para proteger as áreas de recarga que resistem no Cerrado englobando a Gleba A.

É preciso interromper qualquer iniciativa que possa comprometer irreversivelmente a área e avançar, com transparência e participação social, na definição da poligonal, nos estudos técnicos, na consulta pública e na criação efetiva da Unidade de Conservação.

O Distrito Federal não pode continuar tratando seus territórios de recarga hídrica como se fossem terrenos vazios à espera de valorização imobiliária e alvo fácil da ação da grilagem.

Território de recarga não é terreno vazio. Cerrado preservado não é área ociosa. Áreas de recarga são fundamentais para a preservação das nascentes de córregos.

São infraestrutura natural.

E infraestrutura natural também é patrimônio público.

A escolha da Serrinha será um teste sobre que modelo de cidade queremos construir: uma Brasília cada vez mais impermeabilizada, quente, fragmentada e vulnerável à escassez de água ou uma capital capaz de proteger suas áreas naturais e planejar o futuro a partir de estudos científicos?

A governadora tem a oportunidade de transformar uma promessa em legado. Criar o Parque da Serrinha do Paranoá é proteger a água, o Cerrado, o clima e o futuro de Brasília.

Mas o tempo das promessas precisa dar lugar ao tempo das decisões.

Governadora, cumpra a promessa. Crie o parque. A Serrinha é patrimônio ambiental do Distrito Federal — e a água que ela protege pertence a todos nós.

*Lúcia Mendes é coordenadora do Fórum de Defesa das Águas, Clima e Meio Ambiente do DF e diretora da Associação Preserva Serrinha

Fonte: Brasil 247

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