Negacionismo eleitoral se espalha como pandemia global e Trump é o ‘paciente zero’, afirma diretor do Idea

0

Por Guilherme Levorato — Brasil 247

247 – O avanço do negacionismo eleitoral pelo mundo adquiriu contornos de uma verdadeira crise sanitária global, tendo como principal catalisador o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A avaliação é do secretário-geral do Instituto Internacional pela Democracia e Auxílio Eleitoral (Idea), o costarriquenho Kevin Casas-Zamora. Em relatório publicado pela organização intergovernamental sediada na Suécia, o órgão estabelece uma ligação direta entre a deterioração democrática promovida pelo líder norte-americano e o surgimento ou fortalecimento de movimentos autoritários em diversas partes do globo, inclusive no Brasil, informa a Folha de São Paulo.

De acordo com o levantamento do Idea — instituição que monitora o estado da democracia mundial —, o ataque antidemocrático de 8 de janeiro de 2023 em Brasília só ocorreu porque, dois anos antes, militantes incentivados por Trump invadiram o Capitólio, em Washington, na tentativa de reverter a vitória eleitoral de Joe Biden. Para Casas-Zamora, Trump atua como o “paciente zero” dessa onda de contestação sem provas da integridade dos processos de votação, fenômeno que assombra as democracias ocidentais há pelo menos cinco anos.

Apesar dos alertas, o relatório deste ano do Idea aponta uma recuperação nos índices democráticos do Brasil. O país subiu 12 posições na categoria “direitos” de 2025 para 2026. Segundo o diretor da instituição, a explicação para essa melhora expressiva reside no chamado “efeito rebote”, visto que o país havia sofrido uma queda abrupta nesses mesmos indicadores durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), marcada por constantes ataques à liberdade de imprensa, à credibilidade do sistema eleitoral e à independência do Poder Judiciário.

O levantamento também aponta avanços no Estado de Direito no Brasil, colocando o país à frente de nações como Argentina, Colômbia, Índia e Hungria. Questionado sobre as críticas da extrema direita ao Judiciário brasileiro, Casas-Zamora evitou se imiscuir na política interna, mas reconheceu que o Supremo Tribunal Federal (STF) desempenhou um papel crucial no salvaguardo da democracia ao garantir a integridade das urnas. Ele pontuou que o Brasil se tornou um exemplo ao demonstrar que acusações infundadas que causam danos gratuitos às instituições devem gerar custos políticos reais para quem as profere.

Sobre a interferência dos Estados Unidos na América Latina e nas eleições brasileiras, Casas-Zamora destacou que a ingerência Washington ganhou contornos muito mais explícitos. Como exemplos, citou os apoios escancarados a candidaturas de extrema direita na região, como a de Flávio Bolsonaro no Brasil, a promessa de suporte financeiro ao governo de Javier Milei na Argentina em contexto eleitoral e as incursões na Colômbia e em Honduras. Além das declarações políticas, a pressão se estendeu aos processos judiciais brasileiros, como no caso das tentativas de aliados do bolsonarismo de obter sanções americanas contra magistrados do STF após a condenação de Jair Bolsonaro.

Apesar do impacto nocivo das intervenções externas e do uso desproporcional de recursos financeiros no equilíbrio dos pleitos, o secretário-geral ressalta que, na ausência de provas de alteração direta no comportamento do eleitor, deve-se presumir a transparência e a legitimidade das eleições no Brasil.

Ao analisar um eventual cenário de vitória da extrema direita com Flávio Bolsonaro, Casas-Zamora ponderou que a escolha do eleitorado por partidos dessa vertente é fruto legítimo da vontade popular e sintoma do descontentamento com a representatividade tradicional. Contudo, alertou que a ameaça real surge quando tais grupos chegam ao poder, momento em que historicamente promovem um ataque sistemático aos mecanismos institucionais de controle do exercício do poder. Ele ressaltou que, se um eventual governo de Flávio repetir a conduta do pai, há motivos concretos para temer retrocessos democráticos.

Por fim, ao avaliar a fragilidade das instituições norte-americanas diante das investidas de Donald Trump, Casas-Zamora citou a tese dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de “Como as Democracias Morrem”, para explicar que a estabilidade democrática depende essencialmente da autocontenção e do respeito às regras não escritas por parte dos atores políticos. Quando um líder recusa essas normas, a estrutura institucional se enfraquece. Ainda assim, ressaltou que a independência judicial nos EUA, sustentada principalmente por juízes de primeira instância, tem sido o principal pilar de resistência contra os arroubos autoritários da Casa Branca.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *