A potência emergente e o declínio imperial: a diplomacia necessária na era da multipolaridade

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Por José Reinaldo Carvalho — Brasil 247

Por José Reinaldo Carvalho – A visita do presidente chinês Xi Jinping aos Estados Unidos e sua recepção na Casa Branca — acompanhada por salva de 21 tiros, guarda de honra, sobrevoo militar, a deferência direta do presidente Donald Trump na porta do avião e o oferecimento de um banquete de Estado, não deve ser interpretada como mero protocolo. Trata-se do reconhecimento incontornável de uma transformação profunda na geopolítica global: a consolidação irreversível do gigante asiático como eixo estruturante da economia e da política internacional, em contraposição a um império estadunidense acossado por seu próprio declínio histórico.

Quando a diplomacia estadunidense dispensa tamanha pompa a um líder estrangeiro, a forma traduz o conteúdo político. Washington não age por simpatia ideológica nem por generosidade internacionalista. Move-se por realpolitik. O império reconhece, contra a sua própria vontade expansionista, que não é mais capaz de ditar unilateralmente as regras do jogo global. A China ocupa hoje a posição central na produção industrial mundial, no desenvolvimento de tecnologias de ponta, no comércio internacional e na construção de alternativas financeiras e políticas para as nações do Sul Global. Pretender ignorar a estatura de Pequim não é apenas um erro tático; é uma impossibilidade prática.

China exerce a diplomacia como ferramenta para a paz

Para a China e para os povos que lutam contra a hegemonia imperialista, o fomento de uma relação bilateral estável, construtiva, colaborativa e pacífica com os EUA não representa uma capitulação ou uma ilusão quanto ao caráter do imperialismo. Pelo contrário: a diplomacia firme, sóbria e pragmática é uma necessidade estratégica indispensável. Em um mundo marcado por crises sistêmicas, a manutenção de canais abertos entre as duas maiores potências econômicas do planeta é uma salvaguarda em face dos impulsos belicistas do imperialismo estadunidense. 

Como expressou o presidente Xi Jinping, a coexistência e o estabelecimento de uma “estabilidade estratégica construtiva” são imperativos para conter a escalada de confrontos. O empenho chinês em manter diálogos fluídos em áreas sensíveis, como a economia, a segurança, os intercâmbios parlamentares e, fundamentalmente, os canais de comunicação direta entre as Forças Armadas, evidencia a maturidade de um país emergente que assume a responsabilidade de preservar a paz mundial. Evitar o conflito direto e desarmar a célebre “Armadilha de Tucídides” é o caminho racional para impedir que o desespero de uma hegemonia em decadência envolva a humanidade em uma conflagração catastrófica.

O direito inalienável do emergente e a decadência do império

Washington tenta frequentemente disfarçar uma política ostensiva de contenção e cerco à República Popular da China. A competição estadunidense materializa-se em sanções unilaterais, bloqueios tecnológicos, guerras fiscais, protecionismo e manobras de provocação militar em zonas de soberania chinesa, como o Estreito de Taiwan.

Trata-se do comportamento típico de uma potência decadente que percebe a erosão de seu monopólio histórico. 

No entanto, a emergência da China, sustentada pelo seu socialismo com peculiaridades nacionais, planejamento de longo prazo e uma diplomacia pautada pelo benefício mútuo, demonstrou que existem outros caminhos para o desenvolvimento.

A China tem o direito inalienável de crescer, de industrializar-se e de alcançar a vanguarda científica e tecnológica. Esse direito estende-se a todos os povos dos países anti-hegemônicos da Ásia, África e América Latina. A ascensão chinesa é a alavanca que impulsiona a construção de uma nova ordem econômica e política internacional, libertando os países em desenvolvimento da dependência exclusiva das instituições financeiras de Washington e Bruxelas.

A interdependência e os limites da chantagem ocidental

A cúpula entre Xi e Trump traz à tona outra verdade inegável: a profunda interdependência econômica entre as duas potências torna o custo de uma retaliação permanente proibitivo para os próprios Estados Unidos. As cadeias globais de suprimento, os fluxos de investimento e a estabilidade dos mercados financeiros dependem diretamente da previsibilidade nas relações entre Pequim e Washington.

Quando o imperialismo tenta impor barreiras arbitrárias à China, acaba por desestabilizar a sua própria economia interna, alimentando a inflação e prejudicando os seus próprios trabalhadores e empresas. A posição chinesa em defender a previsibilidade econômica e a manutenção das regras do comércio multilateral é um ato de defesa do equilíbrio global. A cooperação proposta pela China requer que o governo estadunidense abandone a mentalidade de “jogo de soma zero”, em que o ganho de uma nação é visto obrigatoriamente como a perda de outra.

A multipolaridade é irrefreável

A cúpula de Washington marca um momento divisor de águas. Os Estados Unidos enfrentam o dilema histórico de aceitar uma convivência em um mundo multipolar ou isolar-se em sua própria retórica de dominação ultrapassada. A ascensão da China e a consolidação dos países emergentes não são fenômenos passageiros, mas a marcha inequívoca da história. O futuro não pertence à hegemonia unilateral de um império em declínio, mas a um novo equilíbrio de forças, uma etapa em que as forças progressistas acumulam forças para a conquista de transformações mais profundas no mundo. 

Fonte: Brasil 247

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