O ornitorrinco encontra alimento na água de olhos fechados porque seu bico percebe sinais elétricos produzidos por outras criaturas

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Por Gabriel Correa — Catraca Livre

Debaixo d’água, o ornitorrinco fecha olhos, ouvidos e narinas e ainda assim procura pequenos animais entre pedras e sedimentos. A proeza parece mágica até se olhar para seu bico. A pele dessa estrutura detecta sinais elétricos fracos gerados pelos músculos das presas em movimento. É uma forma de localizar comida quando a visão não ajuda, combinada com percepção do toque. O mecanismo não permite “ver” todo o rio como numa tela: distância, direção e movimentos do animal influenciam cada tentativa de caça.

Seu bico detecta sinais elétricos produzidos pelas presas em movimento.

Por que ele fecha os olhos ao mergulhar?

O ornitorrinco vive em cursos de água da Austrália e busca alimento no fundo, onde a luz pode ser escassa e a água turva. Ao mergulhar, fecha olhos, ouvidos e narinas para protegê-los e utiliza o bico sensível para investigar o ambiente. Esse bico não é um apêndice duro como parece em ilustrações. É revestido por pele e reúne receptores que respondem a estímulos diferentes.

O animal costuma recolher larvas de insetos e outros pequenos invertebrados. Guarda alimento nas bolsas das bochechas e o processa depois de subir à superfície. A anatomia pouco comum do ornitorrinco tem outras surpresas, mas a caça submersa mostra uma combinação particularmente útil de sentidos em vez de um único poder extraordinário.

Na água turva, eletricidade e toque ajudam a localizar alimento.

Que eletricidade sai de uma presa?

Contrações musculares produzem pequenos campos elétricos, inclusive nos animais que se movem sob a água. O ornitorrinco tem receptores no bico capazes de perceber variações muito fracas. Outros receptores registram o toque e a pressão associados ao movimento da água e ao contato com objetos. Assim, uma larva não precisa estar exposta à vista para ser localizada perto do focinho.

Para acompanhar o mecanismo, pense nas etapas da caçada:

  • A presa se move e produz sinais elétricos fracos.
  • O bico percebe sinais e movimentos próximos.
  • O ornitorrinco ajusta posição e investiga o sedimento.
  • O animal recolhe alimento antes de voltar para respirar.

Como o bico aponta a direção da comida?

Os receptores se distribuem pela superfície do bico. Ao mover a cabeça de um lado para outro, o ornitorrinco recebe padrões diferentes e pode orientar a busca. Pesquisas sobre eletrorecepção estudam como sinais elétricos e mecânicos são integrados pelo cérebro; a percepção resulta do conjunto, não de uma antena perfeita que identifica cada espécie distante. A proximidade da presa torna o sinal mais útil.

O vídeo abaixo explica a biologia do ornitorrinco em português e ajuda a visualizar o bico e a caça. Algumas demonstrações ilustram o funcionamento de modo esquemático; elas não mostram exatamente o que o animal “enxerga” mentalmente. É melhor dizer que detecta estímulos elétricos e táteis do que imaginar uma imagem elétrica igual à visão humana.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Paulo Jubilut, que fala sobre a biologia do ornitorrinco e o papel de seu bico na busca por alimento:

Essa habilidade existe em outros animais?

Eletrorecepção aparece também em grupos como tubarões e raias, embora a anatomia e o uso variem. Entre mamíferos, os monotremados, grupo do ornitorrinco, são especialmente interessantes por apresentarem essa capacidade. Isso não quer dizer que todos encontrem as mesmas presas do mesmo jeito. O ambiente aquático permite que sinais de organismos próximos façam parte da informação sensorial disponível.

O ornitorrinco continua dependendo de respiração na superfície, de alimento suficiente e de rios em boas condições. Poluição, mudanças nas margens e obstáculos podem afetar seu habitat. A adaptação impressionante do bico não resolve problemas ambientais por si só. Uma espécie pode ser bem equipada para procurar larvas e ainda perder os lugares onde elas vivem.

O que a cena submersa revela?

O animal fecha os olhos e encontra alimento porque usa uma combinação de receptores na pele do bico para perceber presas próximas. A explicação é mais concreta do que chamá-lo de “criatura que enxerga eletricidade”. O que ele capta são sinais fracos, interpretados junto de movimentos e contatos no fundo do rio. Nem toda busca termina em captura, e cada mergulho dura apenas o tempo que o mamífero consegue ficar sem respirar.

Na próxima imagem de um ornitorrinco vasculhando a água, repare nos movimentos de varredura da cabeça. O bico parece uma peça improvável num mamífero; ali funciona como uma ferramenta sensorial afinada com um problema muito real: encontrar um animal pequeno sem poder usar os olhos. O estranho formato deixa de ser decoração e passa a contar como ele se alimenta.

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Fonte: Catraca Livre

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