O eleitor brasileiro está a uma semana da escolha mais fácil de sua vida
Por Leonardo Attuch — Brasil 247
O eleitor brasileiro está a uma semana de uma escolha que, talvez como poucas vezes em nossa história recente, permite comparar não apenas dois candidatos, mas duas biografias, duas experiências políticas e duas concepções de Brasil. De um lado está Luiz Inácio Lula da Silva, um personagem que atravessou praticamente meio século da história brasileira. Líder sindical, fundador do maior partido de esquerda da América Latina, deputado constituinte e presidente da República por três mandatos, Lula chega a esta eleição depois de ter comandado novamente o país durante quatro anos e, portanto, com uma obra concreta que pode ser julgada pelos brasileiros.
Do outro está Flávio Bolsonaro, cuja principal credencial política deriva de seu sobrenome e de sua ligação com o movimento político criado pelo pai, Jair Bolsonaro. Sua trajetória parlamentar e política está disponível para o escrutínio público, assim como suas posições, seus votos, suas controvérsias e o legado do campo político que representa. É legítimo que cada brasileiro faça sua própria comparação, mas essa comparação não pode prescindir dos resultados concretos produzidos pelos diferentes projetos que disputam o comando do país.
No terceiro mandato de Lula, o Brasil alcançou os menores índices de desemprego de sua série histórica, enquanto a economia cresceu acima de diversas previsões pessimistas feitas no início do governo. O combate à pobreza e à insegurança alimentar voltou ao centro das políticas públicas, o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome, o BNDES recuperou protagonismo no financiamento do desenvolvimento e a Petrobras voltou a ocupar posição central na estratégia brasileira de energia, investimentos e industrialização. São resultados que podem e devem ser confrontados com as dificuldades ainda existentes, mas que formam um balanço concreto do período.
Na política externa, o Brasil voltou a participar ativamente das grandes discussões internacionais. Reconstruiu relações com seus vizinhos, aprofundou sua participação no BRICS, retomou protagonismo nas discussões ambientais e procurou manter relações simultaneamente construtivas com Estados Unidos, China, União Europeia, Rússia e o conjunto do Sul Global. Mais importante ainda, Lula recolocou a soberania nacional no centro do debate político brasileiro, justamente num momento em que o mundo se torna mais instável e a competição entre as grandes potências se intensifica.
Em um cenário marcado pela volta das guerras comerciais, pela disputa tecnológica e pela crescente utilização de tarifas, sanções e instrumentos financeiros como mecanismos de pressão política, o presidente brasileiro passou a defender uma ideia elementar: o Brasil deve cooperar com todos, mas subordinar-se a ninguém. É provavelmente nesse terreno que aparece uma das características mais marcantes do Lula que chega a esta eleição. Aos 80 anos, ele demonstra uma compreensão do sistema internacional que resulta não apenas da experiência política, mas de décadas de convivência com chefes de Estado, empresários, sindicalistas, intelectuais e movimentos sociais de praticamente todas as regiões do planeta.
Pode-se concordar ou discordar de Lula, de suas escolhas econômicas ou de suas posições internacionais, mas é difícil ignorar a dimensão histórica de sua trajetória e a experiência acumulada ao longo dela. Lula chega ao fim do terceiro mandato no auge de sua maturidade política e intelectual, depois de ter participado diretamente das grandes transformações brasileiras das últimas cinco décadas e de ter construído relações pessoais com algumas das principais lideranças mundiais de diferentes gerações.
Naturalmente, o terceiro mandato também deixa problemas importantes, e talvez o principal deles seja a trajetória da dívida pública. O crescimento do endividamento brasileiro exige responsabilidade fiscal, crescimento econômico e uma estratégia capaz de reduzir progressivamente a relação entre dívida e PIB sem sacrificar investimentos públicos nem destruir políticas sociais. Não é um problema pequeno, mas tampouco é um desafio desconhecido por Lula e por uma equipe econômica que terá de enfrentá-lo nos próximos anos.
Em seu segundo mandato, o Brasil combinou crescimento, redução da relação entre dívida líquida e PIB, acumulação de reservas internacionais e conquista do grau de investimento pelas principais agências internacionais de classificação de risco. Isso evidentemente não significa que a história vá se repetir automaticamente, porque as circunstâncias nacionais e internacionais são diferentes, mas demonstra que equilíbrio fiscal, crescimento econômico e inclusão social não precisam ser objetivos incompatíveis.
É exatamente por isso que esta eleição deveria ser discutida menos como uma guerra de identidades políticas e mais como uma comparação de trajetórias. De um lado, está um presidente cuja biografia inclui a reconstrução democrática do movimento sindical, a Constituinte, três mandatos presidenciais, políticas sociais que transformaram o país e uma projeção internacional que poucos líderes brasileiros alcançaram. Do outro, Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e herdeiro político do movimento de extrema-direita criado por seu pai, marcado por violência, negacionismo e isolamento internacional do Brasil.
Há ainda outras candidaturas, que cumprem um papel legítimo numa democracia e representam segmentos reais da sociedade brasileira. Entretanto, as pesquisas disponíveis nesta reta final mostram uma disputa fortemente concentrada nos dois principais candidatos, ainda que haja diferenças entre institutos e cenários e que somente as urnas possam determinar o resultado. A chamada terceira via, pelo menos até aqui, não conseguiu romper essa polarização nem construir uma alternativa com dimensão eleitoral semelhante à dos dois campos predominantes.
A eleição coloca, portanto, diante dos brasileiros uma comparação excepcionalmente concreta. Não se trata de escolher entre duas promessas abstratas de futuro: um dos candidatos governou o Brasil por doze anos e pode ser avaliado por aquilo que efetivamente realizou, enquanto o outro representa a continuidade de uma experiência política igualmente conhecida pelos brasileiros. O eleitor dispõe de informações abundantes sobre ambos, conhece suas histórias, seus aliados, seus adversários, suas realizações e suas controvérsias e conhece também o Brasil produzido por cada projeto político.
Daqui a uma semana, cada cidadão entrará sozinho na cabine de votação para tomar sua decisão. Depois de uma campanha marcada por enorme polarização e por uma quantidade quase sufocante de informações, talvez a melhor maneira de encarar esse momento seja justamente voltar ao essencial: comparar biografias, resultados, projetos de país e a capacidade demonstrada por cada candidato para exercer a Presidência da República. Poucas vezes o eleitor brasileiro encontrou diante de si uma escolha tão simples, que consiste em conferir ao presidente Lula a oportunidade de seguir trabalhando pelo povo brasileiro e por uma ordem internacional mais justa.
Fonte: Brasil 247