NIMBY digital e a conta de energia da inteligência artificial e data centers
Por Jean Paul Prates — Brasil 247
A inteligência artificial não mora na nuvem. Ela ocupa terrenos, usa equipamentos, consome eletricidade, rejeita calor e exige redes de transmissão e fibra ótica. É legítimo perguntar quem pagará por essa infraestrutura e o que receberão as comunidades que a abrigarem.
Uma pesquisa divulgada em 22 de setembro pelo Fórum Econômico Mundial registra a expectativa de seus economistas-chefes de que os data centers contribuam para o crescimento, mas também tragam pressão sobre serviços públicos, poucos empregos diretos e resistência local. É um alerta importante. Não é, porém, uma lei da física nem uma sentença para todos os países e projetos.
A demanda por energia já cresce por razões muito mais amplas. Queremos casas mais confortáveis, ar-condicionado, mobilidade elétrica, serviços digitais, equipamentos de saúde e processos produtivos mais sofisticados. A Agência Internacional de Energia estima que os data centers responderão por cerca de um décimo do crescimento mundial do consumo elétrico até 2030: uma parcela relevante, mas inferior à de motores industriais, climatização de edifícios e veículos elétricos.
Culpar exclusivamente a IA por toda alta da conta de luz seria tão impreciso quanto afirmar que ela não terá impacto algum.
Também precisamos distinguir duas coisas que frequentemente aparecem misturadas. Uma família pode pagar mais porque passou a consumir mais eletricidade e, portanto, a usufruir mais serviços e conforto. Pode pagar mais, também, porque subiu o preço de cada quilowatt-hora. Nesse segundo caso, importam os custos da geração, das redes, dos encargos e dos tributos, assim como as decisões sobre quem financia novos investimentos. Chamar tudo isso de “efeito dos data centers” encobre escolhas de política energética e distribuição de custos que devem ser transparentes.
Uma grande instalação mal localizada pode, sim, disputar capacidade elétrica e água com a população. Se a rede precisar ser ampliada para atendê-la, não é aceitável simplesmente espalhar a conta entre consumidores residenciais sem demonstrar os benefícios correspondentes. Mas o resultado pode ser diferente quando o empreendedor paga pelas instalações que provoca, contrata geração renovável adicional, ajuda a viabilizar armazenamento e flexibilidade e se instala onde há capacidade ou geração hoje restringida. No Nordeste, essa possibilidade merece estudo projeto a projeto: energia renovável sujeita a curtailment não equivale automaticamente a suprimento firme, disponível 24 horas por dia.
O mesmo rigor vale para a água. Um circuito fechado dentro do data center não assegura consumo hídrico próximo de zero: é preciso saber como o calor será finalmente rejeitado. Em regiões de escassez, a localização e a tecnologia de refrigeração devem ser escolhidas antes da licença, com divulgação de captação, consumo efetivo, origem da água e desempenho verificado. Reúso, refrigeração seca e sistemas híbridos são alternativas a comparar, não promessas genéricas.
Quanto aos empregos, não devemos vender um data center como uma fábrica que manterá milhares de trabalhadores em seu interior. Seu valor potencial está também na construção, nos serviços especializados e, sobretudo, no que uma região consegue desenvolver ao redor da infraestrutura: pesquisa, formação, computação, aplicações de IA e empresas locais. Esse efeito não nasce sozinho. Requer contratos, investimento em pessoas e instituições capazes de ligar a capacidade computacional à economia regional.
A resistência das comunidades tampouco pode ser descartada como medo do futuro. Uma pesquisa da Universidade da Pensilvânia encontrou oposição à instalação de data centers próximos entre 61% dos adultos consultados nos Estados Unidos. Esse dado não descreve automaticamente o Brasil, mas ensina algo: as pessoas percebem quando os custos são locais e os benefícios, distantes.
Reprimir ou execrar data centers não resolve a demanda por processamento. Afastá-los sem critério pode apenas transferir consumo de energia, impactos e oportunidades para outros lugares.
A resposta é estabelecer condições para recebê-los: conexão planejada; custos de expansão atribuídos com justiça; energia progressivamente menos emissora; metas auditáveis de eficiência elétrica e hídrica; participação das comunidades desde o início; e contrapartidas proporcionais, verificáveis e duradouras.
Feito assim, um data center pode deixar de parecer um grande consumidor que chegou para disputar recursos e tornar-se parceiro na expansão da infraestrutura local. As comunidades não têm obrigação de acolher qualquer projeto. Têm o direito de exigir que ele melhore, em vez de encarecer, suas condições de vida. Portanto, a questão é menos sobre quem pagará essa conta, e mais sobre quem colherá os benefícios e quem fará regras impedirão que o futuro dos data centers seja construído às custas dos seus vizinhos.
Fonte: Brasil 247