André Lara Resende vota em Lula
Por Paulo Henrique Arantes — Brasil 247
André Lara Resende, um dos “pais do Plano Real”, deixou de ser procurado pela imprensa mainstream para dar pitacos na economia. Os jornalões e os canais de TV preferem ouvir Armínio Fraga sobre quase tudo. E sempre. Como se sabe, André abandonou o barco neoliberal. Sofreu um surto de lucidez que escandalizou os ortodoxos, escreveu livros demonstrando cabalmente a burrice da austeridade fiscal como mantra sagrado, entendeu e passou a explicar, com clareza e propriedade, que a máxima de que juros altos controlam a inflação está ultrapassada e que reduzir a taxa Selic baixaria o custo da dívida de forma imediata.
André revisitou Keynes. Trouxe-o de volta à modernidade (Delfim Netto já havia dito a este jornalista que “Keynes nunca morreu”). André votou em Lula em 2022, assim declarou. Deverá fazê-lo de novo agora, apostamos. Se não por ligação partidária, certamente por simpatia pelo norte desenvolvimentista em que se inspira, ainda que amarrado pelo Banco Central.
O jornalismo econômico brasileiro mantém seu alinhamento histórico com absurdos como o teto de gastos de Michel Temer, as metas de superávit e o controle estrito da relação dívida/PIB. Quando um formulador do Plano Real passa a afirmar que “um Estado que emite a própria moeda não quebra”, a reação contrária é de boicote. Mas André, que vez ou outra publica ensaios no caderno Eu& do Valor Econômico, mantém uma imperdível newsletter no Substack denominada “Um Cético Esperançoso”.
Seu artigo no Substack da última sexta-feira (25) é um primor, por provocador e irrefutável. O trecho a seguir é um soco no estômago dos editorialistas da mídia neoliberal, que um dia adorou André: “A grande despesa do Estado é com os juros sobre a dívida. Uma dívida expressiva, sim, em torno de 80% do PIB, mas quase que integralmente em moeda nacional e nas mãos de residentes no país. Não vou retomar aqui os argumentos sobre a falácia de equiparar a dívida interna em moeda nacional à dívida externa em moeda estrangeira. Já tratei do tema em inúmeras oportunidades”.
André “desenha” para os teimosos. Quem diz que o BC, se reduzir a taxa básica, inviabilizará o cumprimento da meta e perderá o controle da inflação, diz bobagem. A Curva de Phillips, explica, retratava uma “relação empírica inversa” entre a inflação e o desemprego — mais desemprego, menos inflação. Só que, adverte André, “desde os anos 1990, a Curva de Phillips tornou-se praticamente horizontal: o trade-off entre inflação e desemprego desapareceu em quase toda parte, provavelmente por causa da perda de importância do emprego formal e da redução do poder dos sindicatos”. Eis uma bela cutucada na turma que anda na mídia, com aquele insuportável ar tecnocrático, criticando o fato de o Brasil possuir hoje a menor taxa de desemprego da História.
O beliscão no Banco Central era inevitável, e André o faz com saborosa ironia ao explicar que “a fragilidade conceitual e empírica deste modelo macro convencional que pauta a política dos BCs é tão flagrante que, apesar de ainda dominante e repetido na mídia como verdade incontestável, passou a ser criticado até mesmo pelos economistas mais conservadores”, como John H. Cochrane, da Hoover Institution, da Universidade de Stanford.
Ilustra André: “Em seu livro The Fiscal Theory of the Price Level, de 2023, Cochrane expõe, de forma rigorosa e acessível, a inseparável ação das políticas monetária e fiscal. Nos seus dois últimos posts no Substack, Cochrane vai além e defende a redução da taxa de juros com a concomitante redução do prazo de maturidade da dívida. Quanto mais curto o prazo médio da dívida, a duration, mais a redução do juro irá reduzir a inflação no curto prazo. Esta é justamente a situação do Brasil hoje, em que mais da metade da dívida está em LFTs, títulos de remuneração atrelada à Selic, a taxa básica diária, portanto, de curtíssima duration”.
No seminal artigo de sexta-feira 25, intitulado “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, André Lara Resende apresenta uma proposta concreta para os juros brasileiros. Ele lembra que o serviço da dívida equivale a mais de 10% do PIB ao ano, sendo o responsável pela trajetória ascendente e insustentável da relação dívida/PIB. “Sem uma redução do juro para algo em torno da taxa de crescimento nominal da economia, não há ajuste fiscal possível que interrompa o crescimento da dívida em relação ao PIB”, alerta.
André defende um novo Conselho Fiscal e Monetário Nacional, encarregado de definir metas fiscais e monetárias para um período de quatro a cinco anos, as quais se pautariam pela racionalização e simplificação da arrecadação e dos gastos de custeio e de investimentos. “As metas de inflação seriam anunciadas em conjunto com metas para a taxa básica de juros. O BC se comprometeria a manter a taxa básica num intervalo entre a meta de inflação, 3%, e taxa de crescimento nominal potencial, ou seja, a meta da inflação somada ao crescimento real potencial, o que hoje seria em torno de 5,5% ao ano (3% de inflação mais 2,5% de crescimento). Só em casos excepcionais, autorizados pelo CFMN, a taxa básica poderia ser inferior ao piso — a meta de inflação — ou superior ao teto — o crescimento nominal do PIB potencial — do intervalo”.
Para dar início ao novo regime fiscal e monetário, propõe André, o Banco Central anunciaria a redução gradual da Selic por 12 meses, “para a taxa de crescimento nominal potencial mais um spread transitório de segurança de 2%, isto é, perto de 7,5% ao ano” — um spread de segurança, a ser periodicamente reavaliado e gradualmente reduzido até ser eliminado. Anunciaria ainda que, se necessário, atuará no câmbio para suavizar toda depreciação mais acentuada devida à possível redução do volume de carry-trade de capitais especulativos. Com reservas internacionais de mais de US$ 350 bilhões, o BC tem munição de sobra para isso. Os dois canais pelos quais a redução do juro poderia pressionar a inflação no curto prazo estão, assim, neutralizados no Brasil: o fiscal, pela dívida curta; o cambial, pelas reservas.
Temos uma proposta sólida e viável para escaparmos dos juros estratosféricos. Mas a mídia prefere bater repetida e incansavelmente nos gastos do governo.
Fonte: Brasil 247