Antes de restaurar a Amazônia, será melhor parar de destruí-la

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Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski

Estudo publicado na Science mostra que impedir desmatamento e degradação é mais eficiente e barato do que reconstruir florestas — e lança uma luz incômoda sobre a financeirização da conservação e as promessas da bioeconomia

Um artigo publicado na revista Science em 17 de setembro traz uma conclusão aparentemente óbvia, mas que deveria provocar alguma inquietação entre os formuladores das atuais políticas de conservação: é muito mais eficiente impedir que uma floresta seja destruída ou degradada do que permitir sua destruição para depois gastar grandes quantidades de dinheiro tentando restaurá-la.

O estudo, liderado por Leonardo S. Miranda e realizado por uma ampla equipe de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, comparou três estratégias de conservação na Amazônia: evitar o desmatamento, impedir perturbações florestais — especialmente incêndios e exploração madeireira — e restaurar áreas já desmatadas. A análise foi realizada nas regiões de Santarém e Paragominas, abrangendo mais de 3 milhões de hectares e utilizando dados de campo e sensoriamento remoto de alta resolução. 

Primeiro não destruir, depois restaurar

Os resultados são contundentes. Impedir perturbações florestais poderia evitar 68,5% das perdas de biodiversidade, enquanto impedir o desmatamento evitaria 60,8% das perdas de carbono. A restauração utilizada isoladamente compensaria apenas 6,5% das perdas de biodiversidade e 14,7% das perdas de carbono. Mais significativo ainda, somente quando a proteção contra desmatamento e contra degradação foi combinada apareceram ganhos líquidos de biodiversidade e carbono em relação à situação inicial. 

Quando os pesquisadores incorporaram os custos econômicos, a diferença aumentou. Para conservar a biodiversidade, evitar perturbações apresentou relação custo-benefício muito superior à restauração; para preservar carbono, evitar o desmatamento foi a alternativa mais eficiente. Há ainda um resultado particularmente revelador: mesmo simulando uma redução de 95% nos custos da restauração, ela continuou menos eficiente economicamente do que evitar previamente a destruição ou degradação da floresta. 

Isso não significa que restaurar seja desnecessário, pois os autores mostram justamente que os maiores benefícios aparecem quando proteção contra desmatamento, prevenção da degradação e restauração são combinadas. O problema é transformar a restauração numa espécie de substituto tecnológico e financeiro para a conservação, quando o próprio artigo conclui que, isoladamente, ela é incapaz de compensar adequadamente as perdas provocadas pela continuidade da destruição florestal.

Quando a Science encontra Monica Piccinini

É nesse ponto que os resultados do estudo dialogam de maneira interessante com textos recentes da jornalista Monica Piccinini publicados neste Blog. Em suas análises sobre os investimentos destinados à conservação e sobre a chamada bioeconomia, Piccinini vem chamando atenção para uma questão que normalmente desaparece por trás do discurso aparentemente consensual sobre a necessidade de financiar a floresta: quem define as prioridades, quem controla os recursos e, finalmente, quem se apropria economicamente da transformação da natureza em ativo?

A crítica de Piccinini não é à conservação em si, mas à formação de uma arquitetura na qual governos, grandes corporações, bancos, fundos, fundações filantrópicas e organizações ambientais passam a convergir em torno de mecanismos de financiamento capazes de transformar carbono, biodiversidade, restauração e bioeconomia em novas oportunidades de investimento. Nesse processo, existe o risco de a floresta deixar de ser considerada primordialmente como território, ecossistema e espaço de reprodução social das populações amazônicas para adquirir valor sobretudo na medida em que possa ser convertida em fluxos financeiros.

Em um texto publicado neste Blog, “A Amazônia não precisa de novos donos”, Piccinini aprofunda justamente esse problema ao discutir quem controla a nova economia da floresta em pé. O risco é que a bioeconomia gere renda sem necessariamente redistribuir poder, mantendo processamento, propriedade intelectual, financiamento e comercialização concentrados longe das comunidades que fornecem território, biodiversidade e conhecimentos tradicionais.

O artigo publicado na Science não analisa essa arquitetura financeira e seria incorreto atribuir essa crítica aos seus autores. Seus resultados, entretanto, acrescentam uma peça importante ao quebra-cabeça ao demonstrar que as intervenções mais eficientes podem ser justamente aquelas menos dependentes da criação de novos mercados ambientais.

E se a solução mais eficiente for justamente a menos financeirizável?

Existe aqui uma contradição que merece ser examinada. Restaurar milhares de hectares pode movimentar fundos de investimento, empresas especializadas, consultorias, créditos de carbono, viveiros, sistemas de certificação, monitoramento por satélite e toda uma nova cadeia de serviços ambientais. A bioeconomia, por sua vez, pode transformar biodiversidade, carbono, recursos genéticos e conhecimentos tradicionais em ativos economicamente mensuráveis. Não derrubar uma floresta que já existe, entretanto, é muito mais difícil de converter em um grande produto financeiro, apesar de os dados apresentados por Miranda e seus colegas mostrarem justamente que proteger a floresta existente oferece resultados extraordinariamente melhores por unidade de dinheiro investido.

Surge daí uma ironia considerável: podemos estar construindo mecanismos financeiros cada vez mais sofisticados para recuperar aquilo que simultaneamente continuamos permitindo que seja destruído. Os próprios pesquisadores lembram que aproximadamente 60 milhões de hectares de terras públicas não destinadas na Amazônia permanecem vulneráveis à grilagem e outras atividades ilegais e alertam que mudanças capazes de enfraquecer o licenciamento ambiental podem criar novas possibilidades legais para o avanço do desmatamento. 

Talvez isso ajude a explicar por que algumas das medidas ambientalmente mais eficientes são também politicamente tão difíceis. Proteger terras públicas, combater a grilagem, fiscalizar a exploração madeireira, impedir incêndios, fazer cumprir a legislação ambiental e conter atividades econômicas responsáveis pela degradação significa confrontar interesses estabelecidos, enquanto criar fundos, mercados e novos instrumentos financeiros pode ser muito mais facilmente apresentado como uma solução capaz de acomodar interesses aparentemente contraditórios.

A floresta não precisa morrer para adquirir valor

O estudo publicado na Science oferece, portanto, uma contribuição que ultrapassa a simples comparação técnica entre diferentes políticas ambientais, pois seus resultados nos obrigam a perguntar onde estamos colocando dinheiro e, principalmente, por quê. Restaurar áreas destruídas continuará sendo indispensável, assim como desenvolver atividades econômicas capazes de gerar renda mantendo a floresta em pé pode ser importante, especialmente quando essas atividades fortalecem a autonomia das populações amazônicas. Mas nenhuma dessas estratégias deveria funcionar como justificativa para tolerar a continuidade do desmatamento e da degradação.

É precisamente nesse ponto que o estudo de Miranda e colaboradores e as análises de Monica Piccinini parecem se encontrar. O primeiro demonstra empiricamente que proteger aquilo que ainda existe pode produzir benefícios ambientais maiores e a custos menores; Piccinini, por sua vez, chama atenção para os limites de uma arquitetura de conservação que tende a privilegiar soluções capazes de gerar ativos, contratos e oportunidades de investimento. A aproximação entre os dois argumentos sugere uma pergunta incômoda: não estaremos desenvolvendo instrumentos cada vez mais sofisticados para financiar as consequências da destruição enquanto deixamos relativamente intocados os mecanismos econômicos que continuam produzindo essa mesma destruição?

A ciência apresentada no artigo da Science nos lembra, afinal, de algo muito mais simples: sai mais barato, conserva mais biodiversidade e mantém mais carbono impedir a destruição e a degradação da floresta que ainda está de pé do que tentar reconstruí-la depois. E talvez seja justamente por essa solução exigir menos engenharia financeira e mais enfrentamento das causas concretas do desmatamento que ela encontre tantas dificuldades para ocupar o centro da chamada economia verde.

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


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Fonte: Blog do Pedlowski

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