Expectativas para 4 de outubro de 2026: civilização ou barbárie!

0

Por Elisabeth Lopes — Brasil 247

Estamos a poucos dias das eleições e o futuro do país e dos brasileiros está impregnado de inseguranças sobre os rumos da nação, que dependerá da escolha de quem irá presidir a República a partir de 2027. As expectativas giram em torno da contradição: civilização ou barbárie. As pesquisas de intenção de voto apontam, até o momento, empate técnico no segundo turno entre os dois candidatos que lideram a disputa e representam projetos abissalmente distintos para o Brasil, cujas consequências poderão empurrar o país de volta à antiga condição colonial, agora sem caravelas, mas com a soberania submetida aos interesses econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos.

No polo da absoluta insensatez e surrealidade de parte expressiva do eleitorado está Flávio Bolsonaro (PL), homenageador mor de vários milicianos e contraventores, relações com políticos ligados ao Comando Vermelho, a exemplo de Rodrigo Bacelar e TH Joias que certamente foram seus cabos eleitorais na cidade do Rio de Janeiro. Como se não bastasse, atualmente investigado pela Polícia Federal no Caso Master/Dark Horse por graves suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Com um histórico político abjeto circunscrito em torno de práticas e controvérsias que, em qualquer democracia minimamente exigente, deveriam impor ao menos um escrutínio rigoroso antes que alguém se apresentasse como candidato à Presidência da República. 

Diante dos graves riscos que o país está correndo caso essa candidatura continue em ascensão apesar das fartas evidencias de sua aproximação ao subterrâneo do crime, já seria inacreditável que pudesse sequer chegar ao segundo turno. No entanto, a possibilidade apontada por vários institutos de pesquisa revela o quanto metade da sociedade brasileira está profundamente adoecida e o quanto a memória política e o senso crítico desses eleitores é inexistente. 

Desde o famoso escândalo das chamadas “rachadinhas”, envolvendo Flávio Bolsonaro enquanto deputado estadual na Alerj, essa situação já se apresentava como uma das muitas obscuridades que cercam sua trajetória política. A investigação conduzida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro reuniu elementos financeiros e testemunhais que apontavam para a suspeita de que assessores devolviam parte de seus salários ao então deputado. O MP também indicava que parte desse dinheiro teria sido lavada por meio de uma franquia de loja de chocolates da qual Flávio Bolsonaro era sócio. Embora houvesse um conjunto expressivo de elementos reunidos pela investigação, o caso não chegou a um julgamento de mérito que pudesse declarar Flávio Bolsonaro culpado ou inocente. Isso ocorreu porque as principais provas financeiras foram consideradas inválidas no curso do processo, após decisões do STF que restringiram o compartilhamento de dados do Coaf com o Ministério Público e determinaram a observância de requisitos específicos para esse procedimento. Com isso, o processo acabou inviabilizado antes que as acusações pudessem ser efetivamente apreciadas em um julgamento de mérito. Flávio, portanto, não foi absolvido das acusações após um julgamento que examinasse o conteúdo das provas. O que ocorreu foi outra coisa, o caso não chegou a ser julgado no mérito. 

A enxurrada de escândalos envolvendo o filho 01 de Jair despenca sobre o público em um fluxo ininterrupto, denunciando um rastro de obscuridades que o noticiário mal dá conta de divulgar. Na terça-feira dessa semana a Revista Piauí acrescentou novos elementos às relações de Flávio Bolsonaro com personagens envolvidos em diferentes investigações. Em 2023, o senador destinou quase R$ 200 mil em emenda parlamentar a um projeto esportivo na Taquara, no Rio, após o pedido de Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, apontado nas investigações do caso Marielle Franco como elo entre os executores e os mandantes e posteriormente condenado por integrar a organização criminosa ligada aos irmãos Brazão. 

A revista também revelou que Daniel Vorcaro repassou mais US$ 1,6 milhão, em setembro de 2025, para financiar o filme Dark Horse, dias depois de Flávio cobrar parcelas atrasadas, informação que contradiz a afirmação anterior do senador de que os pagamentos haviam terminado meses antes. Com esse novo repasse, o financiamento de Vorcaro ao filme chegou a US$ 12,3 milhões.

Ainda neste mês, vieram à tona informações pela imprensa da participação de Flávio, em março de 2025, em um safári na África do Sul ao lado do advogado Willer Tomaz (apontado pela imprensa como possível sócio de negócios de Flávio) e do senador Weverton Rocha, ambos investigados no caso das fraudes contra aposentados do INSS. A Polícia Federal considera Tomaz peça central do esquema e possível operador financeiro, com movimentações atípicas de cerca de R$ 45,5 milhões em 2021. A ligação entre ele e Flávio se evidencia também pelo fato de o senador ter utilizado, na campanha presidencial de 2026, um imóvel de empresa ligada ao advogado, apartamento de alto padrão em São Paulo que, antes de pertencer a Tomaz, havia sido de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Daniel Vorcaro, pelas ao menos cinco viagens internacionais que os dois realizaram juntos em 2025 (incluindo a Flórida de jatinho) e pela declaração pública de Flávio, em 2021, chamando-o de “meu amigo”. Tomaz e os envolvidos negam irregularidades e afirmam que as relações são apenas pessoais. 

Na quinta-feira desta semana, o jornal Estadão revelou que dados extraídos pela PF do celular de Daniel Vorcaro mostram que Flávio Bolsonaro manteve contatos diários e frequentes insistências de ligação com o empresário nos quatro dias que antecederam a prisão do ex banqueiro do Master. PF investiga se a estrutura do filme Dark Horse foi utilizada para lavagem de dinheiro ou triangulação de capitais. Será que essa sucessão de impropérios envolvendo Flávio Bolsonaro, ainda tecnicamente empatado com o presidente Lula, será suficiente para despertar quase metade do eleitorado?

Com esse passado e presente intensamente turvos, o filho 01 de Jair chama a atenção pela distância entre o personagem que procura vender e sua real trajetória política. Apresenta-se como um candidato probo, religioso e virtuoso, apropriando-se da fé e da boa-fé de seus seguidores evangélicos para construir uma imagem que seus próprios antecedentes colocam em xeque. Ao mesmo tempo em que se reveste falsamente de boas qualidades que não correspondem a sua verdadeira trajetória, inverte essa realidade para acusar adversários justamente dos seus desvios que aponta nos outros. 

É a velha fórmula do enganador e mentiroso contumaz de transformar a própria incongruência em virtude e a acusação em arma política. Uma fórmula que lembra o método de Donald Trump, que, na abertura da Assembleia Geral da ONU, voltou a apresentar seu governo como um extraordinário caso de sucesso, enquanto a realidade insiste em desmentir sua propaganda. O discurso acumulou afirmações grandiosas sobre a economia, a segurança e os resultados de seu governo, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos enfrentam o peso do custo de vida, a alta dos combustíveis e os efeitos econômicos da guerra com o Irã. Enquanto Trump vende a imagem de um país próspero sob seu comando, sua aprovação caiu a 32%, o menor índice de seu mandato. É a propaganda enganosa tentando ocupar o lugar dos fatos e a realidade. Quanto mais os fatos desmentem o discurso, mais exuberante se torna a propaganda. Exalta resultados que não se sustentam, fabrica virtudes onde não há evidências que as respaldem e atribui ao adversário sua própria má conduta. Trata-se de um velho mantra ao estilo nazista de Joseph Goebbels de fazer política na qual a repetição da mentira passa a ocupar o lugar da verdade.

Com um currículo político estarrecedor, o candidato Flávio pretende chegar à Presidência oferecendo ao país um engodo econômico por meio de uma proposta ultraliberal grotescamente empacotada para acenar ao mercado financeiro, copiada do modelo trágico do desiquilibrado Javier Milei. Na política externa, a vassalagem canina de Flávio ao governo Trump envergonha a nação. O que se reveste de projeto de governo nada mais é do que a liquidação aberta da nossa soberania em troca do alinhamento cego a interesses geopolíticos e econômicos de um império que esperneia diante da perda inevitável de sua hegemonia global. 

Conforme revelou uma carta do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, Flávio Bolsonaro chegou a oferecer aos Estados Unidos uma equipe de transição para um eventual governo seu. Isto é de uma gravidade política assustadora. É uma aberração democrática que alguém com um histórico tão nocivo dispute o comando do país em pé de igualdade com o atual presidente. Entregar o destino da nação a esse tipo de aventura não seria apenas uma escolha equivocada seria a assinatura formal do nosso próprio colapso.

Em contrapartida à entrega de bandeja das riquezas do país aos EUA pelo candidato Flávio Bolsonaro, vilipendiando o que há de mais valioso para uma nação, que é a sua soberania, o presidente Lula (PT) reitera a autonomia e a soberania do país em seu discurso de abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, afirmando-o em alto e bom som: “Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo, num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento”. Como a maior potência da América Latina, o Brasil é referência em economia verde, é autossuficiente em petróleo, e em riquezas naturais. 

Para além dos indicadores concretos de um governo bem-sucedido, Lula evidencia uma dimensão estrutural que ultrapassa os números, com a afirmação intransigente da soberania nacional. O presidente tem mantido a altivez da diplomacia brasileira diante de pressões do governo Trump, recusando-se a submeter as riquezas naturais, a política industrial e as decisões estratégicas do país à tutela de qualquer potência ou aos humores de governos estrangeiros. O contraste não poderia ser mais revelador. Enquanto setores alinhados a Flávio Bolsonaro flertam com o servilismo geopolítico e carregam um passivo de ilicitudes que mancha a vida pública, o reconhecimento da liderança de Lula atravessa fronteiras e consolida sua posição como referência do Sul Global.

Nesse mesmo discurso na ONU, o presidente deu um recado claro e estratégico à prepotência unilateralista de Trump: “Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou subordinação. Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um estadista”. Ao defender uma atuação equilibrada, rejeitar decisões unilaterais frequentemente associadas a políticas tarifárias e ao isolacionismo e afirmar que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, Lula reafirmou a autonomia diplomática brasileira. Essa postura fortalece a posição do país no Sul Global, ao priorizar a cooperação entre as nações, a reforma da governança internacional e a construção da paz, em contraponto a tentativas de divisão do mundo em zonas de influência.

Tanto a atuação de Lula na Assembleia Geral da ONU quanto a condução de sua política externa reafirmam a abissal distância que o separa de Flávio e dos demais candidatos. Não podemos esquecer que Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury prometeram anistiar Jair Bolsonaro. Desprovido de densidade ética, moral e política, Flávio Bolsonaro, a exemplo do pai, não possui mínimas condições para o exercício da Presidência da República, assombrado por um histórico obscuro que o revela, por seu caráter mentiroso e pelas investigações por suspeitas de crimes graves. Enquanto Lula se consolida como estadista, reconhecido internacionalmente pela defesa intransigente da soberania nacional, do multilateralismo e da autonomia brasileira, Flávio expõe, em mais de duas décadas de vida pública, uma irrelevância legislativa gritante. Em sete anos de Senado, aprovação quase nula de projetos (nenhum transformado em lei de sua autoria principal e nenhum voltado à segurança pública, sua grande bandeira), aliada a um histórico de baixa produtividade e frequentes ausências em votações cruciais.

O descompasso entre o discurso e a prática é evidente, embora se promova como combatente implacável do crime organizado, a ponto de apelar externamente para que facções como PCC e Comando Vermelho fossem classificadas como organizações terroristas, Flávio omitiu-se quando a pauta tramitou no próprio Senado em 2025, não defendendo, nem votando favoravelmente à medida. Em contrapartida, sua trajetória é marcada pela proximidade com milicianos de alta periculosidade, inclusive com os assassinos de Marielle Franco, por relações com investigados pela Polícia Federal e por um círculo de conexões íntimas e suspeitas, como no caso Vorcaro. Mais que inépcia legislativa, a conduta de Flávio demonstra a desfaçatez perfeita do oportunista capaz de inventar mentiras esfarrapadas que não resistem a uma perícia de celular, rasteiro no uso político da violência e incapaz de sustentar a própria palavra.

Confrontar a projeção global de Lula com o vácuo de liderança de Flávio é expor a indigência intelectual de uma figura sem peso, sem projeto e rigorosamente sem substância. Diante destas constatações, podemos afirmar que entre civilização ou barbárie, não há meio-termo. O Brasil que queremos e o Brasil que sobreviverá dependerá exclusivamente da lucidez com que o eleitorado enfrentar essa encruzilhada.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *