ES tem cinco famílias para cada criança na fila de adoção

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Publicado em 26 de Setembro de 2026 às 07:45

Maurílio Mendonça

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Para cada criança e adolescente disponível   no Espírito Santo  para adoção, há cinco famílias habilitadas a adotá-las. Atualmente, são 657 pretendentes para mais de 130 crianças e adolescentes aguardando por uma família. O desafio é que a grande maioria dessas crianças tem mais de 8 anos de idade ou tem irmãos, fugindo do padrão mais desejado por quem busca a adoção.

Idade e quantidade nunca foram empecilhos para Adriano Paiva Souza, 40 anos, e José Eugênio Castro Fernandes, 55. O casal adotou três irmãos, atualmente com idades entre 9 e 12 anos. Desde janeiro deste ano, eles são, legalmente, uma família. Mas essa história começou dois anos atrás, em agosto de 2024.

“A nossa família é como qualquer outra”, adianta o gaúcho Adriano, que é eletrotécnico. Ele e Eugênio, que é psicopedagogo e diretor de uma organização não governamental (ONG), vão completar quatro anos de casados em janeiro de 2027. Eugênio veio de São Paulo há anos, e conheceu Adriano no Espírito Santo. Atualmente, eles moram em Nova Almeida, na Serra.

70

Crianças adotadas no ES

Entre janeiro e agosto de 2026

Foi no aniversário de Adriano, em 2024, que o casal procurou a Justiça para começar na jornada até a adoção. Poucos meses depois, fez um curso na Vara da Infância e Juventude, tornando-se apto ao processo, em dezembro do mesmo ano. Passados cinco meses, Adriano e Eugênio já estavam conhecendo os filhos pessoalmente e oficializando a moradia com eles  —  a primeira etapa da adoção.

O processo foi rápido. E isso se deu em razão da opção do casal em adotar mais de uma criança, irmãos e com mais idade. “Não queríamos recém-nascidos. No começo, buscamos por uma criança de 4 a 7 anos. Depois do curso da adoção e de conhecermos melhor o Sistema Nacional de Acolhimento (SNA) e o serviço de busca ativa, optamos por irmãos”, lembra Eugênio.

Ao escolher não seguir com o padrão da adoção, o casal saiu na frente na fila de espera. Esse, por sinal, é um desafio nacional, afirma a juíza Richarda Littig, coordenadora das Varas da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES).

O que torna tudo mais desafiador é conversar com essas famílias e
sensibilizá-las por uma adoção fora do padrão, do habitual

Richarda Littig,  coordenadora das Varas da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES).

De janeiro a agosto deste ano, 70 crianças foram adotadas no Espírito Santo; mais de 130 aguardam por uma família. O curioso é que não faltam famílias querendo adotar: atualmente são mais de 650, todas esperando por uma criança. Isso significa que há cinco famílias habilitadas para cada criança disponível para adoção. Mas é necessário fugir do padrão e aceitar crianças que tenham 8 anos ou mais de idade, irmãos ou alguma deficiência. 

Isso nunca afastou Adriano e Eugênio de conseguir realizar o sonho do casal. “Conversando entre a gente, eu sempre dizia que seriam três irmãos”, confessa Eugênio. E realmente foi isso que aconteceu. Eles encontraram os três durante a busca ativa, no Sistema Nacional de Acolhimento. E foi numa casa institucional do Rio Grande do Sul. Na ocasião, uma frase dita por Eugênio marcou o fim da busca.

Acabei de achar nossos filhos, eles torcem pro Internacional

José Eugênio Castro Fernandes  psicopedagogo e diretor de ONG

Ao ver um dos irmãos vestindo a camisa do mesmo time de futebol que Adriano torce, Eugênio sabia que o sonho estava prestes a acontecer. “Depois de a gente mostrar interesse, recebemos contato da Justiça em menos de dez dias. Conversamos algumas vezes com a psicóloga e, depois, com a equipe do acolhimento, até ter a oportunidade de começar a aproximação on-line”, recorda-se Adriano.

Antes desse contato, foi perguntado às crianças se queriam conhecer o casal. Na época, elas tinham de 7 a 10 anos de idade. “Ficamos apreensivos. Mas elas aceitaram, o que foi um alívio. Afinal, não só a gente tem que ter interesse na adoção, elas também”, diz Eugênio.

Em maio de 2025, o casal viajou para o Rio Grande do Sul, alugou uma casa por duas semanas, para ficar com as crianças, e ainda recebeu da juíza a permissão de trazê-las para o Espírito Santo, por um período inicial, sendo acompanhado de perto pela Vara da Infância e Juventude da Serra. 

Foram dois dias viajando de carro: dois adultos, três crianças, um violão e vários brinquedos. Durante os 2 mil quilômetros percorridos, tiveram a chance de se aproximar ainda mais, conhecendo cidades, falando sobre sonhos e expectativas, aproveitando o momento em família.

Até porque a chegada a Nova Almeida, na Serra, era em casa nova, escola nova, rotina nova. “Foi desafiador”, recorda Eugênio. “Mudanças que nos ensinaram a ser pais e que nos formaram uma família, graças à nossa rede de apoio, com irmãos, tios e primos que nos ajudaram muito”, destaca Adriano.

Desde janeiro de 2026, eles são legalmente uma família. Desde março deste ano, as crianças têm novas certidões de nascimento e CPFs. Adriano Gabriel, 9 anos; João Pedro, 10; e Hugo Eugênio, 12, escolheram seus novos nomes ao lado de seus pais. Cada um com quatro sobrenomes: os dois de Adriano e os dois de Eugênio. “São nomes de príncipes”, brinca o casal.

Histórias como a de Adriano e Eugênio, segundo a juíza Richarda Littig, vêm sendo cada vez mais comuns. Ela afirma que há um crescimento de casais em busca de outros tipos de adoção. “Temos recebido cada vez mais famílias com esse perfil, buscando por crianças com mais idade e por adolescentes, assim como por irmãos que aguardam pela adoção juntos”, afirma Littig.

A empresária Bárbara Offenbacher Moreira Borges Carvalho da Silva, de 39 anos, é uma dessas pessoas. Ela e o marido, o bancário Marcos Vinicios Borges Carvalho da Silva, 45, adotaram três irmãos, atualmente com idades entre 4 e 7 anos. Mas, diferentemente de Eugênio e Adriano, a escolha por irmãos não era uma opção para Bárbara. Ela não pensava nem em adoção.

O casal tentou engravidar por cinco anos e fez duas tentativas de fertilização in vitro. Sem resultados. O marido, então, propôs a adoção como um caminho. “Eu pensei em adoção quando era solteira e jovem. Naquele momento, foi bem difícil aceitar essa opção para ser mãe”, confessa Bárbara.

Depois de dois anos de conversa e muito preparo emocional, incluindo terapias, Bárbara aceitou a ideia de Marcos e reuniu toda a documentação que precisava para ingressar com o pedido. A solicitação inicial foi em maio de 2023 e, em abril de 2024, a empresária cogitava com o marido mudar o perfil no Sistema Nacional de Acolhimento (SNA). “Eu já estava agoniada”, conta. Até que, dois meses, depois tudo mudou!

A psicóloga me ligou e falou de três irmãos, o mais velho com quase 5 anos. Liguei para o Marcos, que na hora saiu do trabalho e me levou ao Fórum

Bárbara Offenbacher Moreira Borges Carvalho da Silva,  empresária

Os dois se apaixonaram ao olhar as fotos das crianças. “Foi na hora. Não tinha dúvida”, confessa a empresária. No dia 5 de junho, eles conheceram os três e, no dia 8, celebraram o aniversário de 5 anos do mais velho. “A partir daí, fui visitá-los todos os dias. Em menos de um mês, conseguimos a guarda provisória”, lembra Bárbara. A definitiva veio em setembro de 2024, há exatos dois anos.

Como explica a juíza Richarda Littig, é comum que as famílias habilitadas tenham mais interesse por crianças de até 3, 4 anos de idade. Mas muitas delas têm irmãos mais velhos, entre 5 e 7 anos. E é aí que começa a estratégia de convencimento e sensibilização das equipes das Varas de Infância e Juventude para adoção conjunta. 

Essas crianças precisam continuar juntas, uma é base e apoio da outra. Por isso, defendemos uma adoção de família, mantendo os laços entre irmãos

Richarda Littig,  coordenadora das Varas da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES)

Para Bárbara, a quantidade deixou de ser importante. “Nossa família está completa. Essa foi a melhor decisão da nossa vida.”

A rotina familiar é marcada por escola, futebol, passeios nos finais de semana e viagens em família nas férias: tudo o que sempre sonharam. E sempre sem abaixar a cabeça para o racismo: “Somos uma família interracial, e isso traz algumas dificuldades, ainda mais por conta do olhar de quem está de fora. Mas estamos bem preparados para isso”, afirma a empresária.

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