Sob suspeita no caso Banco Master, Kassio Nunes usa a caneta no TSE para blindar a extrema direita
Por Isabella Mota — Intercept Brasil
A ascensão do bolsonarismo fez o país se acostumar com as aberrações na política. Não que antes fossem inexistentes, mas é que esse extremismo fuleiro que sequestrou a direita brasileira levou a coisa para um outro patamar.
Os absurdos são tão grandes e numerosos, que o país vai se anestesiando e muita coisa importante vai passando batido.
Faltando uma semana para o primeiro turno, parece que ainda não nos demos conta de que o Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, está sendo presidido por um juiz cercado de suspeitas gravíssimas de corrupção e comprometido com o grupo político que tentou dar um golpe de estado em 2023.
De tudo o que se sabe da promiscuidade entre juízes do Supremo Tribunal Federal e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Kassio Nunes é o que tem o caso mais grave. Nem Alexandre de Moraes, nem Dias Toffoli, nem André Mendonça apareceram tão enrolados no celular do Vorcaro quanto Kassio Nunes, que era chamado pelo criminoso de “KN”.

Turma do KN
Nesta semana, ficamos sabendo da existência de um contrato de advocacia de R$ 427 milhões entre o Banco Master e a “Turma do KN” — o termo era usado para se referir à patota do Kassio, mais especificamente o desembargador Newton Ramos, do TRF-1, e sua esposa, a advogada Camilla Ramos.
A Polícia Federal suspeita que o objetivo do contrato era o de promover ações de interesse de Daniel Vorcaro nos tribunais superiores. Caso a “Turma do KN” conseguisse destravar R$ 8,5 bi em precatórios, ganharia a bolada de quase meio bilhão prevista em contrato. A suspeita é de um caso de venda de sentenças.
O desembargador repassava a uma funcionária do banco Master alguns pedidos para Daniel Vorcaro, como esse: “Ministro Kassio me pediu para ver se vocês conseguem para ele uma tarifa promocional para o Fasano. Só uma diária. Entrando sexta e saindo sábado”.

Vorcaro respondeu prontamente: “pode colocar na minha conta”. As suspeitas que rondam KN têm requintes de pornochanchada. Além de diárias em hotel de luxo, as mensagens revelam que o banqueiro contratou uma prostituta para KN.
Os pombinhos teriam se encontrado no apartamento de Fabiano Zettel, que é pastor da Igreja Lagoinha e operador financeiro da quadrilha criminosa de Vorcaro.
Também não nos esqueçamos do filho do ministro, que, em apenas dois anos de carreira como advogado, acumulou R$ 27,7 milhões de patrimônio. Só de Daniel Vorcaro ele recebia R$ 500 mil por mês, como apontam as mensagens trocadas entre o banqueiro e o diretor jurídico do Banco Master.
Tudo ainda está sendo investigado, mas os indícios são fortes o suficiente para que houvesse um clamor popular pelo afastamento de KN do TSE. Enquanto não surge, o ministro vem demonstrando empenho em defender no tribunal o grupo político que lhe deu a toga.
Comitê eleitoral do candidato bolsonarista
KN tem emplacado uma série de decisões absurdas em favor de Flávio Bolsonaro. No início de junho, o seu ato de estreia na presidência do TSE foi o de proibir uma pesquisa eleitoral da Atlas/Intel a pedido de Flávio Bolsonaro, que aparecia despencando nas intenções de voto.
Ainda antes do início da campanha eleitoral, o senador publicou um vídeo nas redes dizendo que Lula viajou aos EUA como “defensor do PCC e do Comando Vermelho” e que fez “mais pelo crime do que pelo povo brasileiro”. Disse ainda ter “Deus” ao seu lado, enquanto Lula teria “o diabo”. A candidatura de Lula entrou com pedido de remoção do vídeo pela grave acusação sem provas, mas KN negou.
‘O TSE parece ter virado um comitê eleitoral do candidato bolsonarista’.
Segundo ele, não houve imputação de crime ao presidente da República na fala de Flávio, apenas o uso de linguagem “contundente, hiperbólica e retórica”. O caso acabou indo para plenário e, por 5 a 2, os juízes derrubaram a decisão vergonhosa do presidente do tribunal.
Nesta semana, KN atendeu a mais um pedido da candidatura de Flávio e determinou que o presidente Lula tirasse do ar um vídeo em que fala sobre o caso Master. É realmente impressionante ver KN julgando conteúdos eleitorais envolvendo o escândalo protagonizado por Daniel Vorcaro. O juiz suspeito de ter transado com uma prostituta de luxo contratada pelo banqueiro não viu problema em proibir a veiculação de conteúdos negativos para ele.
Uma apuração da Folha revelou que pelo menos cinco ministros e técnicos do TSE dizem ter identificado um alinhamento de KN com as posições da equipe jurídica de Flávio Bolsonaro. O TSE parece ter virado um comitê eleitoral do candidato bolsonarista. Enquanto a “Turma do KN” é suspeita de blindar Vorcaro nos tribunais, o próprio KN é suspeito de blindar o candidato do banqueiro no TSE.
O candidato do banqueiro
Quando foi julgar Alexandre de Moraes no caso Master, KN se declarou impedido. A justificativa é curiosa. O ministro alegou que não se sente confortável em participar da sessão na posição de presidente do TSE. “Eu entendo que tenho uma missão, e que para mim eu entendo que essa missão é mais importante, que é assegurar o equilíbrio nas eleições de 2026. O TSE tem se mantido equidistante de todos que rondam o processo eleitoral. Eu não tenho dúvida, e os debates vão influir, que esse julgamento pode impactar o processo eleitoral. Então não me sinto confortável de participar desse julgamento. Eu me declaro impedido”, disse o ministro.
Ora, ora. KN não se sente confortável em julgar o caso Master no STF, mas não vê problema em julgar o candidato favorito de Daniel Vorcaro no TSE. O descaramento é grande, mas coerente com alguém que foi indicado pelo bolsonarismo.
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O escândalo do Master é a principal pauta desta eleição e tem potencial para decidi-la. E o juiz, responsável por determinar como o jogo será jogado, está soterrado sob suspeitas por sua relação pornográfica com Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro.
Às vésperas de uma nova eleição, o Brasil tem à frente do seu tribunal eleitoral um nome indicado pelo mesmo grupo político que, na eleição anterior, não aceitou o resultado das urnas e tentou um golpe de Estado. É esse o nível de bizarrice em que se encontra a democracia brasileira. O golpismo segue à espreita e com ainda mais força que na última eleição. Além de Donald Trump, eles contam com as canetadas de KN.
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Fonte: Intercept Brasil