O veneno e a gaveta: o que os documentos da Syngenta revelam sobre o paraquate
Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski
A investigação publicada nesta sexta-feira (25) pelo The Guardian, assinada pela jornalista Carey Gillam e realizada em colaboração com o The New Lede , acrescenta novos elementos a uma história que deveria servir de advertência para qualquer país que entregue às próprias fabricantes de agrotóxicos parcela importante da produção das evidências utilizadas para decidir se seus produtos podem permanecer no mercado. O caso envolve o paraquate, herbicida extremamente tóxico produzido durante décadas pela Syngenta e associado por diversos estudos ao desenvolvimento da doença de Parkinson.
A novidade da reportagem está em aproximadamente 3.700 páginas de documentos internos, depoimentos e registros corporativos que vieram à tona em processos judiciais nos Estados Unidos. Segundo o material analisado pelos jornalistas, a Syngenta possuía informações sobre riscos relacionados ao paraquate que não teriam sido fornecidas à Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). Entre elas aparecem estudos sobre a velocidade com que o produto atravessava roupas, sua absorção pela pele e pela corrente sanguínea e os efeitos da mistura do paraquate com surfactantes, substâncias justamente utilizadas para aumentar a eficiência dos herbicidas. A Syngenta contesta essa interpretação e afirma nunca ter deliberadamente omitido das autoridades informações pertinentes ou exigidas pela legislação.
Esse ponto é particularmente importante porque desloca a discussão para além da velha pergunta sobre se existe ou não uma relação causal definitivamente estabelecida entre paraquate e Parkinson. A própria EPA afirma atualmente que examinou centenas de estudos e que não encontrou uma relação clara entre o uso do produto conforme registrado e Parkinson ou câncer. Ao mesmo tempo, a agência reconhece que o paraquate é altamente tóxico, que uma pequena ingestão pode ser fatal e que existem riscos ocupacionais e de exposição de pessoas próximas às áreas pulverizadas.
O problema revelado pelos documentos é anterior à conclusão científica: quem controla as informações que chegam aos órgãos reguladores? A legislação norte-americana determina que fabricantes comuniquem informações que possam indicar efeitos adversos não razoáveis. Entretanto, os documentos apresentados nos processos mostram situações em que dados potencialmente desfavoráveis permaneceram dentro da empresa enquanto outros estudos, considerados mais favoráveis à manutenção do produto no mercado, recebiam atenção e divulgação. Um e-mail interno revelado na investigação chega a registrar a intenção de substituir uma década de pesquisas realizadas por outros cientistas por pesquisas produzidas no âmbito da própria estratégia científica da companhia.
É precisamente aqui que aparece uma das questões mais graves do caso. Quando uma empresa controla simultaneamente o produto, parte dos dados toxicológicos e os recursos financeiros necessários para produzir pesquisas, contratar especialistas e sustentar longas disputas regulatórias e judiciais, surge uma profunda assimetria na produção do conhecimento científico. Não é necessário imaginar uma conspiração para reconhecer o problema. Basta perguntar quem possui dinheiro, laboratórios, advogados e décadas para produzir evidências destinadas a manter um produto lucrativo no mercado.
O contraste internacional torna a situação ainda mais reveladora. Mais de 70 países proibiram o paraquate, a União Europeia não permite seu uso desde 2007 e o Brasil também o baniu. Até mesmo a China — país que controla a Syngenta desde a aquisição pela ChemChina — retirou o produto do mercado doméstico depois de realizar seus próprios estudos sobre exposição dérmica e por inalação. Segundo os documentos citados pelo Guardian, a decisão chinesa de realizar testes independentes chegou a causar preocupação dentro da companhia.
Enquanto isso, o produto permaneceu amplamente utilizado nos Estados Unidos. A EPA ainda permite seu emprego sob fortes restrições, embora esteja reavaliando aspectos importantes da exposição. Em 2025, por exemplo, a agência reconheceu maior incerteza do que anteriormente considerada sobre a possibilidade de volatilização do paraquate e decidiu exigir novos dados dos fabricantes.
Há ainda uma ironia difícil de ignorar: em 2026, a própria Syngenta anunciou que encerraria mundialmente a produção de paraquate, atribuindo a decisão a razões comerciais e negando que ela represente reconhecimento de que o produto cause Parkinson. Paralelamente, milhares de processos continuam tramitando nos Estados Unidos, movidos por pessoas que afirmam ter desenvolvido a doença depois da exposição ao herbicida. A empresa nega responsabilidade, e acordos judiciais realizados até agora não representam admissão de culpa.
Para o Brasil, a reportagem deveria provocar uma reflexão que vai muito além do paraquate, justamente porque aqui ele já está proibido. O verdadeiro problema é saber quantos outros agrotóxicos atualmente autorizados dependem de um sistema no qual parte substancial das evidências utilizadas pelos órgãos reguladores é produzida ou financiada pelas próprias empresas interessadas em comercializá-los.
Esse problema torna-se ainda mais relevante quando observamos a velocidade com que novos produtos comerciais e produtos pós-patente chegam ao mercado brasileiro. A experiência do paraquate mostra que registro regulatório não pode ser confundido com certificado permanente de inocuidade. A ciência muda, novos efeitos aparecem, formas de exposição antes subestimadas são descobertas e, principalmente, documentos empresariais podem revelar que aquilo que o regulador conhecia não correspondia necessariamente a tudo aquilo que a empresa conhecia.
Por isso, talvez a principal lição da investigação de Carey Gillam seja relativamente simples: quando a sociedade depende das empresas para saber quão perigosos são os produtos que essas mesmas empresas lucram vendendo, o princípio da precaução deixa de ser radicalismo ambiental e passa a ser uma exigência elementar de saúde pública.
O caso do paraquate mostra também que a pergunta correta não é apenas se determinado agrotóxico passou pelos procedimentos exigidos para obter registro. É preciso perguntar quem produziu os dados, quem financiou os estudos, quais resultados foram entregues aos reguladores, quais permaneceram nas gavetas das empresas e quanto tempo pode transcorrer até que a sociedade descubra a diferença entre essas duas coisas.
No final das contas, o problema talvez seja exatamente esse: o veneno pode desaparecer do mercado. Seus efeitos, porém, podem permanecer durante décadas nos corpos daqueles que foram expostos a ele.
Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).
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Fonte: Blog do Pedlowski
