Bets são como um tumor: ou a gente tira, ou nos mata’, diz Lula ao proibir apostas online no Brasil

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Por Luis Mauro Filho — Brasil 247

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu nesta sexta-feira (25) a proibição das apostas on-line no Brasil como uma medida necessária para enfrentar o endividamento e os danos à saúde mental associados ao jogo. Durante o anúncio do pacote, em São Paulo, comparou o problema a um câncer, criticou a dependência de clubes de futebol dos patrocínios de bets e afirmou que o governo comprará dívidas bancárias para renegociá-las com as famílias.

“Então, eu tomei a decisão de tomar uma medida dura e drástica necessária. Isso é como um câncer. Ou a gente tira o tumor, ou esse tumor vai matar a gente”, declarou.

Lula afirmou que decidiu agir depois de conversar com pessoas endividadas e ouvir relatos de perdas patrimoniais, sofrimento psicológico e comprometimento de recursos destinados a despesas básicas. Segundo ele, a facilidade de acesso às plataformas pelo celular ampliou a exposição das famílias aos jogos.

“Esse país trouxe o cassino para dentro de casa. O cassino está na cozinha, está na sala. O cassino está com o aposentado, está com a criança de 13, 14 anos”, disse.

O presidente relatou que abordou dois jovens durante uma conversa com ministros no Palácio da Alvorada e perguntou se eles apostavam. Segundo Lula, um deles ganhava R$ 4 mil e acumulava uma dívida de R$ 10 mil. O outro também estava endividado, mas havia parado de jogar. Após esse encontro, pediu uma reunião com oito pessoas que enfrentavam dívidas relacionadas às apostas.

Entre os casos mencionados, estava o de uma mulher de 27 anos que tinha uma loja no interior de Minas Gerais e acumulava R$ 630 mil em dívidas. Lula também relatou a situação de um pequeno empresário que vendeu o comércio e bens da família e passou a buscar tratamento.

O presidente disse ainda ter ouvido relatos de tentativas de suicídio e de uma morte por suicídio de familiares de pessoas endividadas. Ao justificar a decisão, destacou a necessidade de proteger a saúde mental e preservar o dinheiro usado na alimentação e em outras despesas essenciais.

A publicidade das plataformas também foi alvo de críticas. Lula afirmou que anúncios apresentam o jogo como uma possibilidade de enriquecimento ou de solução imediata para dificuldades financeiras, sem condições de garantir os resultados prometidos.

Na avaliação do presidente, a oferta de crédito agrava esse quadro. Ele disse ter conversado com uma pessoa que acumulava dívidas em quatro cartões do mesmo banco, utilizados para pagamentos à mesma plataforma, e cobrou maior controle sobre a concessão de cartões.

Lula reconheceu que o endividamento tem diferentes causas, entre elas a insuficiência de renda e o uso desordenado do crédito. Defendeu, porém, que o governo enfrente a combinação entre facilidade de financiamento e estímulo às apostas.

O presidente também rejeitou o argumento de que os clubes de futebol não conseguiriam manter suas atividades sem o dinheiro das bets. Para contestar essa posição, lembrou conquistas internacionais de equipes brasileiras anteriores à presença dessas empresas no patrocínio esportivo.

“O Santos era o melhor time do mundo e não tinha Betis. E foi duas vezes campeão do mundo. O Flamengo foi campeão do mundo. O Internacional foi campeão do mundo. O Grêmio foi campeão do mundo. O São Paulo foi três vezes campeão do mundo”, afirmou.

Torcedor do Corinthians, Lula contou que doou R$ 1.013 à campanha de arrecadação para ajudar o clube a pagar a dívida com a Caixa Econômica Federal. Disse que deseja ver seu time campeão, mas questionou um modelo de financiamento que, em sua avaliação, impõe novas perdas aos torcedores.

O presidente argumentou que essas pessoas já contribuem com os clubes por meio de ingressos e da compra de camisas para si e para familiares. Citou uma estimativa segundo a qual a perda dos patrocínios representaria de 6% a 7% do orçamento de um time, sem detalhar, na fala, a origem do cálculo ou quais equipes estavam incluídas.

A renegociação das dívidas familiares foi apresentada por Lula como outra frente do pacote. O presidente chamou a nova modalidade do programa de Desenrola 3 e destacou a mudança no papel do governo, que passará a comprar carteiras de dívidas das instituições financeiras.

“Agora é o governo que vai comprar dívida E vai acertar a vida das pessoas. É isso que eu entendi. É isso que eu assinei. É isso que vai ser publicado”, declarou.

Conforme a apresentação do ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, o mecanismo pretende alcançar R$ 150 bilhões em dívidas bancárias, com custo estimado de R$ 15 bilhões para a aquisição das carteiras. Os descontos obtidos nos leilões serão repassados às famílias, com expectativa de abatimento de pelo menos 90%.

A proposta contempla débitos de até R$ 10 mil e prevê que as instituições financeiras disputem a venda das carteiras oferecendo descontos. O objetivo anunciado é combinar a reestruturação financeira das famílias com o enfrentamento dos problemas associados às apostas.

O pacote prevê a interrupção de novos depósitos nas bets e a manutenção temporária do acesso às plataformas para resgate dos saldos até as 23h59 de 5 de outubro. A retirada dos sites e aplicativos do ar está prevista para 6 de outubro, quando também deixarão de ser permitidos os patrocínios legais das empresas de apostas.

Novos contratos de publicidade ficam proibidos a partir da publicação da medida provisória. Os anúncios contratados anteriormente poderão ser veiculados até 5 de outubro.

Fonte: Brasil 247

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