Flávio Bolsonaro contou pelo menos 43 mentiras sobre o caso Master, mostra levantamento

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Por Leonardo Lucena — Brasil 247

247 – O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) sobre sua relação com o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Foi o que apontou a agência de checagem Aos Fatos. 

O senador da extrema direita passou por diferentes linhas de defesa: inicialmente afastou o caso de seu campo político, depois negou conversas com Vorcaro, reconheceu posteriormente o contato e passou a sustentar que não praticou irregularidades. 

O parlamentar direcionou parte de suas críticas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes após reportagens divulgarem contatos do magistrado com o ex-banqueiro.

A relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro entrou no centro das investigações em torno do financiamento do filme “Dark Horse”, retrato biográfico de Jair Bolsonaro (PL), preso atualmente após ser condenado no inquérito da trama golpista, em setembro do ano passado. Ministros do Supremo Tribunal Federal condenaram o político da extrema direita a 27 anos de cadeia. 

Primeira versão afastava o caso da direita

O levantamento localiza uma das primeiras declarações analisadas em fevereiro, antes da segunda prisão de Vorcaro, ocorrida em março. Em entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, Flávio relacionou as investigações ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e afirmou que o caso estaria “acontecendo durante o governo Lula”.

O Aos Fatos ressaltou que as autoridades investigam fatos que antecedem o atual governo. A publicação também registra apurações envolvendo servidores do Banco Central indicados durante a gestão de Jair Bolsonaro e integrantes da diretoria do Banco de Brasília (BRB) nomeados na administração do governador Ibaneis Rocha (MDB).

Flávio transformou essa linha de discurso em uma frase usada durante a campanha: “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”. Em outra manifestação, em 24 de março, declarou que “a conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita”.

O senador também mencionou uma reunião de Lula com Vorcaro fora da agenda oficial e relações do Banco Master com o PT da Bahia. A reunião com o banqueiro, isoladamente, não comprova irregularidade. A reportagem acrescenta que o próprio Flávio participou de pelo menos dois encontros presenciais com Vorcaro.

A checagem também registra investimentos de fundos previdenciários de diferentes administrações estaduais e municipais no Master. Entre os exemplos citados aparecem o Rio de Janeiro, governado por Cláudio Castro (PL), o Amazonas, sob Wilson Lima (União Brasil), e o Amapá, de Clécio Luís (Solidariedade).

Flávio Bolsonaro negou mensagens antes de reconhecer conversas

A versão pública do senador mudou em maio. No dia 13 daquele mês, o Intercept Brasil publicou conversas entre Flávio e Vorcaro relacionadas à negociação de R$ 134 milhões para financiar “Dark Horse”. Segundo a reportagem, as mensagens mostravam o candidato cobrando parcelas do investimento.

Antes da publicação, um repórter questionou o senador sobre o material durante uma entrevista coletiva. O senador riu, chamou o jornalista de “militante” e negou a existência das mensagens.

“É mentira, pelo amor de Deus, de onde você tirou isso?”, afirmou.

Naquela mesma noite, Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo e confirmou a autenticidade das conversas. O candidato sustentou que os diálogos não demonstravam crime e definiu sua atuação como “apenas um filho buscando investimento privado para o filme do pai”.

A Polícia Federal mantém investigação sobre a origem e o destino dos recursos ligados à produção. Em procedimento no STF, o ministro André Mendonça determinou a apuração de possíveis delitos relacionados ao financiamento do projeto, entre eles lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Os investigadores também analisam a hipótese de que parte dos valores tenha custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Outra frente investiga a eventual utilização de emendas parlamentares no financiamento do filme. Segundo o levantamento, uma entidade presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora, recebeu R$ 2 milhões provenientes de duas emendas parlamentares.

Mensagens mostram conhecimento sobre dificuldades de Vorcaro

Ao justificar os contatos com o banqueiro, Flávio afirmou que, no período das conversas, Vorcaro “não tinha absolutamente nenhuma acusação contra ele”. O Aos Fatos confrontou a declaração com a cronologia disponível.

As conversas publicadas pelo Intercept Brasil abrangem o período entre setembro e novembro de 2025. Meses antes, em abril daquele ano, a revista Piauí já havia publicado informações sobre dificuldades financeiras do Banco Master para honrar CDBs e sobre articulações relacionadas à situação da instituição.

As próprias mensagens também registram referências de Flávio aos problemas enfrentados por Vorcaro. Em um áudio de setembro de 2025, o senador disse que sabia que o banqueiro estava “passando por um momento dificílimo”. Dias antes, o Banco Central havia rejeitado a operação de venda do Master ao BRB.

Em 16 de novembro de 2025, um dia antes da primeira prisão de Vorcaro, Flávio enviou outra mensagem ao banqueiro:

“Estou e estarei contigo sempre”.

Segundo reportagem do Estadão citada pelo Aos Fatos, Flávio Bolsonaro também tentou telefonar para Vorcaro em cada um dos quatro dias anteriores à prisão. A PF suspeita ainda que a troca de mensagens entre os dois tenha começado em dezembro de 2024.

Prestação de contas também entrou nas contradições apontadas

Após a divulgação das mensagens, Flávio afirmou em 19 de maio que pediria à produtora do filme e ao fundo norte-americano uma prestação de contas das despesas.

Em junho, a produtora apresentou uma perícia contratada de forma privada. O documento afirmou que o profissional não identificou dinheiro público na produção. Flávio Bolsonaro passou a apresentar o laudo como a prestação de contas prometida.

Durante sabatina no Jornal Nacional, em 28 de agosto, o candidato voltou ao assunto:

“Tudo já veio à tona pela imprensa. Há dois ou três dias, mais uma vez, uma reportagem da revista Veja, tratando não apenas da prestação de contas, mas também da perícia. O que a perícia conclui, Tralli? Conclui que não tem um centavo de dinheiro público nesse filme”.

Segundo a checagem, o perito não detalhou as notas fiscais relacionadas às despesas e declarou que não teve acesso aos gastos realizados nos Estados Unidos. Esses valores representavam quase 70% das despesas da produção analisadas no caso.

Ataques a Moraes entram na estratégia de campanha

O levantamento também analisa a mudança de foco do discurso de Flávio após a divulgação de mensagens atribuídas a Vorcaro e dirigidas ao ministro Alexandre de Moraes.

A partir de setembro, o candidato passou a vincular Moraes ao presidente Lula. Durante uma manifestação no 7 de Setembro, repetiu a associação entre os dois como parte de seu discurso eleitoral.

O Aos Fatos observa que outras autoridades e pessoas próximas a ministros do Supremo também aparecem em reportagens sobre contatos com Vorcaro. O material cita referências ao filho do ministro Luiz Fux e aos ministros Dias Toffoli, André Mendonça e Kassio Nunes Marques.

Mensagens analisadas pela Polícia Federal e citadas na reportagem também mencionam Nunes Marques e o advogado Newton Ramos. Questionado em 21 de setembro sobre essas informações, Flávio afirmou que não conhecia as acusações.

Viagem em avião reacendeu questionamentos

Outro episódio entrou no levantamento depois que surgiram informações sobre viagens feitas em uma aeronave ligada a Vorcaro.

O senador havia criticado Alexandre de Moraes por viajar, em agosto de 2025, em um avião relacionado a uma empresa do banqueiro. Na quinta-feira (24), documentos apontaram que o próprio senador também utilizou a aeronave em outro trajeto, dos Estados Unidos para o Brasil.

O parlamentar argumentou que, no período de seu voo, o avião pertencia ao advogado Willer Tomaz, e não a Vorcaro. O empresário detinha naquele momento um terço das cotas da aeronave por meio da Prime You, empresa da qual participava como sócio.

Fonte: Brasil 247

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