Posts pró-Flávio no X expõem elo entre Polymarket e rede transnacional de desinformação

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Por Tai Nalon — Aos Fatos | Em busca da verdade na política – feed

Aviso: este texto é uma análise e foi publicado originalmente na newsletter O Digital Disfuncional. Assine.

Dentre as pelo menos 11 contas estrangeiras que publicaram nesta semana conteúdo pago pró-Flávio Bolsonaro (PL) com base nas cotações da Polymarket estava a UHN Plus, empresa sediada na Flórida e que tem o espanhol Javier Negre como coproprietário e vice-presidente. A informação foi publicada pela Folha e confirmada pelo Aos Fatos.

O perfil, que tem mais de 1,2 milhão de seguidores, se diz “powered by Polymarket” e aparece como um dos elos mais explícitos entre a extrema direita trumpista continental e um grupo de comunicações que atua em 11 países da América Latina e tenta alçar voo no Brasil, o La Derecha Diaria.

Negre, por sua vez, foi sócio do consultor político Fernando Cerimedo, que, até pouco antes de ser preso, mantinha laços estreitos com o bolsonarismo. Ele também controla metade do La Derecha Diario, que já recorreu à plataforma de apostas para favorecer candidatos de direita durante ciclos eleitorais no continente. As conexões com o trumpismo passam tanto por ele quanto pela própria Polymarket.

O empresário apresenta um programa na emissora trumpista Real America’s Voice, cuja programação é distribuída pelo Truth+, serviço de streaming da Trump Media. Donald Trump Jr., por sua vez, integra o conselho consultivo da Polymarket e é sócio da 1789 Capital, fundo que investiu na plataforma em agosto de 2025.

Os anúncios sobre Flávio foram publicados no X entre 18 e 21 de setembro. Os posts exibiam o rótulo de “parceria paga”, mas não identificavam o financiador.

Reprodução da predição original da Polymarket, que foi republicada por influenciadores e cujos posts saíram do ar no Brasil

Além da UHN Plus, participaram da divulgação o ex-deputado republicano Matt Gaetz, aliado de Trump, e o influenciador George Behizy, conhecido por espalhar mentiras sobre fraude eleitoral nos Estados Unidos. Behizy afirmou em seu anúncio que Lula tentava “subornar” eleitores por meio de benefícios sociais.

A atuação regional desse ecossistema foi documentada nesta semana por um conjunto de investigações da LatamChequea — rede latino-americana de checadores da qual o Aos Fatos faz parte. O trabalho demonstrou como o La Derecha Diario emprega as cotações da Polymarket para construir narrativas políticas durante ciclos eleitorais.

O veículo publicou 220 conteúdos que tratavam as apostas como fonte ou evidência política. Na Colômbia, usou as cotações para apresentar o candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella como “imparável”. No Peru, anunciou que o país seria “salvo” porque Keiko Fujimori aparecia com 96% de probabilidade de vitória. Sobre o Brasil, publicou no início desta semana que as chances de reeleição de Lula despencavam enquanto Flávio avançava.

No centro financeiro dessa engrenagem está Donald Trump Jr.. Ele integra o conselho consultivo da Polymarket e é sócio da 1789 Capital, que já investiu cerca de US$ 300 milhões na plataforma de apostas, segundo o New York Times. O fundador da Polymarket, Shayne Coplan, é próximo da ala do Partido Republicano liderada pelo vice-presidente dos EUA, J.D. Vance.

Os 220 conteúdos do La Derecha Diario promovendo mercado de previsões foram publicados a partir de agosto de 2025, mesmo mês em que a 1789 Capital anunciou seu investimento na Polymarket.

Negre descreve a expansão de seus veículos como parte de uma “guerra cultural”. Em uma conferência conservadora, chegou a agradecer à Casa Branca por favorecer a atuação da UHN Plus e do La Derecha Diario nos Estados Unidos.

Segundo reportagem do Núcleo Jornalismo em parceria com o Aos Fatos, Flávio Bolsonaro e ao menos nove candidatos aliados divulgaram os gráficos dos mercados de previsão como demonstração de sua suposta vantagem sobre Lula. Um deles pagou entre R$ 1.500 e R$ 2.000 para impulsionar uma peça com dados da Polymarket e da Kalshi.

Em agosto, os senadores democratas americanos Mark Warner e Alex Padilla cobraram explicações sobre pagamentos a influenciadores que espalham mentiras eleitorais. Dentre os citados na carta estava o ex-deputado nos EUA Matt Gaetz. Um mês depois, ele apareceu promovendo Flávio Bolsonaro no Brasil.

Não há prova de que Donald Trump Jr., a 1789 Capital ou a Casa Branca tenham ordenado essa campanha específica. Também permanece desconhecido quem pagou pelos anúncios publicados nesta semana. A ausência dessa peça, no entanto, não torna invisível a estrutura que alimenta a propaganda política em favor das pautas associadas à Casa Branca.

Ataque e defesa

Até agora, não sabemos bem se Flávio ataca ou defende casas de apostas. Em sua propaganda eleitoral, tem tentado vincular o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à liberação das bets e ao endividamento da população – embora a lei que legalizou essa modalidade no Brasil date do governo Michel Temer. No entanto, divulga em suas redes predição de casa de apostas para as eleições, mesmo que essa prática seja vedada pela Justiça Eleitoral. Anos atrás, ele atuou para liberar cassinos no Brasil, dentro de resorts. Volátil.

Fonte: Aos Fatos | Em busca da verdade na política – feed

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