Por Flavia Coimbra — SUMAÚMA

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Nesta terceira reportagem da série, SUMAÚMA mostra a guerra entre sindicato e governo nos tribunais. Apesar de não faltar nem agentes nem investimento, muitas aldeias ficam sem assistência e crianças sem vacinas por alegação de suposta insegurança

Nos próximos meses, o risco de incêndios e secas vai aumentar a passos largos, agravado pela crise climática e pelo desmatamento. Estão sob ameaça comunidades tradicionais e produtores rurais, mas o governo também precisa levar em conta pequenos povoados remotos

Voto consciente: nossa única oportunidade de tirar os predadores do Congresso e eleger deputadas e deputados e senadoras e senadores comprometidos com a vida. Foto: EVARISTO SA/AFP

Há ao menos três cenários nas eleições de outubro e temos que lutar pelo menos ruim: lutar como se disso dependesse a nossa vida, porque depende

Quero ser muito direta. Se nós não votarmos bem em 4 de outubro, pode não haver outra chance. Isso não é força de expressão, é real. Vamos entender bem onde estamos no Brasil, porque o futuro bem próximo vai depender da nossa capacidade de virar voto e esclarecer indecisos no tempo que ainda resta antes do primeiro turno. Estamos vivendo um momento assustador, sim, mas não temos o luxo de ficarmos assustadas.

Temos hoje pelo menos três cenários:

Cenário 1, o sonho possível: Luiz Inácio Lula da Silva se reelege, o Congresso é renovado

Isso é o que de melhor podemos desejar no contexto atual. Um presidente que, apesar de todas as críticas que podem e devem ser feitas, tem compromisso com o Brasil, com a democracia e com os direitos da população; um Congresso em que uma parte significativa de deputadas e deputados e senadoras e senadores é comprometida com a proteção da Natureza e de seus povos, com o enfrentamento do colapso do clima, com os direitos humanos e das outras espécies, com a igualdade de acesso à saúde e à educação e às demais políticas públicas, com uma concepção de segurança que aposta na prevenção e não na violência de Estado – deputadas e deputados e senadoras e senadores comprometidos com o cuidado com as novas gerações.

Neste cenário, a gravíssima crise do Supremo teria muito mais chance de ter como desfecho a necessária reforma da instituição e um urgente código de ética de seus ministros. É o cenário pelo qual todas as pessoas que têm algum instinto de autopreservação e algum compromisso com suas crianças precisam lutar. Não basta votar bem, tem que lutar para persuadir outras pessoas a votarem bem. Daqui até 4 de outubro não há prioridade maior.

Cenário 2, o horror: Lula se reelege, mas o Congresso segue dominado pelas forças da destruição

Neste cenário, a dinâmica segue a mesma: Lula tem minoria no Congresso e sofre uma derrota após a outra, mas o que depende principalmente do Executivo ainda se salva. O Congresso é dominado pelas forças favoráveis ao desmatamento da Amazônia e de outros biomas, à exploração predatória da Natureza, ao enfraquecimento dos direitos, ao sucateamento da saúde e da educação, a uma concepção de segurança pautada pela violência contra os negros e os mais pobres, às ações que produzem o aquecimento global – deputados e senadores mais preocupados em defender seus próprios interesses de lucro pessoal e os interesses de corporações e grupos econômicos que financiam suas campanhas em vez do bem comum.

O Brasil ficaria com o mesmo equilíbrio de forças dos últimos quatro anos? Provavelmente não. Fragilizado, dividido e desmoralizado como está hoje, o Supremo seria incapaz de barrar parte dos excessos e das inconstitucionalidades produzidas pelo Congresso predatório, como fez na maior parte do atual mandato. Mas, com Lula no poder, haveria uma chance maior de o Supremo se recuperar. O futuro próximo do Supremo, claramente, é uma variável que atravessa todos os cenários.

Lula reeleito: manter o atual presidente no poder é nossa melhor chance contra as forças de destruição. Foto: Evaristo Sa/AFP

Cenário 3, a catástrofe: Flávio Bolsonaro vence e encontra maioria no Congresso

Se isso acontecer, viveremos algo parecido com o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), mas num contexto muito pior diante da fragilidade do Supremo, internamente, e da conjuntura global, fortemente impactada pelo governo de Donald Trump, que busca fazer da América Latina o seu quintal. Flávio Bolsonaro já demonstrou que, se eleito, aceitará a tutela de Trump. Assim, Bolsonaro filho estará num momento muito mais propício para terminar de destruir a democracia do que estava o pai.

Mais uma vez, o destino do Supremo é determinante. Vale lembrar que o próximo presidente vai indicar três ministros – caso Lula ainda consiga emplacar um este ano – ou mesmo quatro – caso não consiga. Hoje, dois que já estão lá (André Mendonça e Kassio Nunes Marques) foram indicados por Bolsonaro pai. Assim, cinco ou seis das 11 cadeiras do Supremo estariam ocupadas por pessoas escolhidas pela família Bolsonaro – fora os simpatizantes.

Com um Senado com maioria aliada ao bolsonarismo ou de direita, o impeachment de ministros não alinhados aos seus interesses teria uma probabilidade maior. Portanto, se o Supremo estiver aparelhado politicamente por ministros comprometidos com a extrema direita, a instituição estará a serviço não da Constituição e da democracia, mas dos ocupantes do poder.

No cenário 1, a democracia se fortalece; no cenário 2, ela talvez sobreviva; no 3, provavelmente só será de fachada. Como se sabe, apesar de Bolsonaro e alguns generais terem tentado dar um golpe de Estado para se perpetuar no poder, é possível manter as instituições democráticas sem que elas funcionem de fato como instituições democráticas, uma vez que passam a servir a uma oligarquia ou a um grupo ideológico e/ou político-econômico. É um outro tipo de golpe.

Muita gente parece desconhecer o valor da democracia na vida cotidiana. Em parte se compreende, na medida em que uma parcela da população até hoje não foi alcançada por ela. Mas viver sem democracia, nas mãos de um grupo político-econômico, entre as garras da família Bolsonaro, com grandes chances de no caminho ser destruída a garantia de uma nova eleição, isso será da ordem do terror. Na última vez em que estivemos apenas perto disso, mais de 700 mil brasileiros morreram de covid-19, parte significativa deles porque Bolsonaro executou uma política de imunidade de rebanho, boicotando medidas de prevenção e atrasando vacinas.

Não paguem pra ver.

Há uma única saída para o Brasil se manter como democracia, ainda que imperfeita: reeleger Lula e promover pelo voto uma renovação de viés progressista no Congresso. Tudo vai depender do que conseguirmos fazer nos dias, nas horas que ainda restam antes do primeiro turno das eleições. Angústia agora é o nome dos dias de qualquer brasileira, qualquer brasileiro capaz de enxergar o que este momento representa. Mas angústia requer ação.

Lutem por cada voto, porque literalmente dele depende a vida de muita gente. Talvez a sua.

Subordinação: Flávio Bolsonaro já demonstrou que, se eleito, o Brasil será tutelado por Donald Trump. Fotos: Bruno Santos/Folhapress e Raimundo Paccó/SUMAÚMA

Reportagem e texto: Eliane Brum
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: Diane Whitty
Edição em inglês: Jonathan Watts
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum

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Fonte: SUMAÚMA

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