Esquema de Mario Frias pode ter envolvido ‘Dark Horse’, advogados e secretários, diz PF

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Por Gabriel Anjos — ICL Notícias

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Por Ana Gabriela Oliveira Lima

(Folhapress) – Emendas do deputado federal Mario Frias (PL-SP) podem ter alimentado um esquema criminoso que, segundo aponta a PF (Polícia Federal), contou com diferentes estratégias para garantir o desvio de dinheiro, em operação na qual teriam ocorrido crimes de peculato, fraude e lavagem de dinheiro, entre outros.

Documento da corporação sinaliza que R$ 2 milhões de emendas entregues aos projetos esportivo “Lutando pela Vida” e de letramento digital “Jovem Empreendedor” podem ter sido desviados por meio de repasses do ICB (Instituto Conhecer Brasil), que recebeu os recursos, a empresas ligadas a ex-secretários ou advogados do parlamentar.

O esquema também envolveria gastos de cotas parlamentares, doação de campanha e desvio que chegou até a Go Up, produtora que recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro a pedido do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) para o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Tanto a Go Up quanto o ICB, destinatário das emendas, são ligados a Karina Gama, empresária investigada pelos possíveis desvios e cujas empresas também receberam verba vinda de outros parlamentares e órgãos públicos, como a Prefeitura de São Paulo. Karina nega ilícitos e diz que “investigação não é acusação, muito menos condenação”.

Frias, que tenta a reeleição, nega qualquer irregularidade no exercício do cargo e afirma que a operação de busca e apreensão contra ele, feita no dia 10 de setembro, é “cortina de fumaça” em meio às eleições de 2026.

Mario Frias (Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados)

Entenda caminhos pelos quais o dinheiro de emendas de Frias pode ter sido desviado, segundo a Polícia Federal.

Advogados

Fábio Lago Meirelles, um dos advogados de Frias, é titular da empresa LF&P Consulting, que recebeu do ICB R$ 80 mil no “Jovem Empreendedor”, vinda de dois contratos de serviços contábeis e jurídicos.

A assinatura de Meirelles também consta no Estatuto Social do ICB, e a LF&P tinha endereço no mesmo edifício do instituto. Segundo a PF, o advogado também recebeu R$ 69 mil de outubro de 2024 a abril de 2026 da Complexsys, empresa que já recebeu valores milionários do ICB.

A Aguilera Martinez Sociedade de Advocacia, de outro advogado de Frias, Diego Aguilera Martinez, recebeu R$ 151.427,13 do ICB em um pagamento.

À Folha Martinez afirma que os serviços do escritório com o ICB foram efetivamente realizados e lícitos. “Me sinto indignado por estar nessa situação, pois os trabalhos foram efetivamente prestados e não há nada além disso”, disse. “Não se pode confundir a pessoa do investigado com os seus advogados, porque isso é criminalizar a advocacia. Temos certeza que tudo será esclarecido e no final a verdade prevalecerá”.

Ex-secretários parlamentares e familiares

Raphael Augusto Azevedo, ex-secretário parlamentar de Frias, foi um dos alvos de busca e apreensão da polícia. O irmão dele, Kayo Henrique Azevedo, constou como responsável técnico no “Jovem Empreendedor”, depois de pedido do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) de mais documentos para atestar a viabilidade operacional da proposta.

Ex-companheira de Kayo, Gardenia Morais, é ex-secretária parlamentar de Frias. Em maio, ela confirmou ao G1 repasse de parte do salário, ato conhecido como rachadinha, a Raphael Azevedo. O jornal também identificou o pagamento de despesas de familiares de Frias no esquema.

Outra ex-secretária citada é Paula de Oliveira Lima, que trabalhou no gabinete do parlamentar de fevereiro a abril de 2024. Ela abriu, dois dias depois de sua exoneração, uma empresa, chamada Agência Loop, que apresentou proposta comercial ao ICB, no projeto “Jovem Empreendedor”, no valor de R$ 311 mil.

A Folha tentou o contato com todos os nomes citados na reportagem. Kayo Azevedo afirmou não ter “ciência do projeto que está no inquérito”, no qual é apontado como responsável técnico. “A gente não tem acesso ao documento que mostra que sou eu que estou nesse projeto e nem o porquê da busca [e apreensão] na minha casa”. Ele afirma não ter acesso aos documentos do processo.

Doação de campanha

Frias recebeu doação de campanha em 2022 de R$ 70 mil, a terceira maior naquela eleição para ele, vindo de Luiza Tessari Rocha Dias, casada com Heric Dias, sócio-administrador da NTT.

Já Rudyge Boldrini doou R$ 4 mil para a campanha de Frias em 2022, além de atuar como prestador de serviços nela, recebendo R$ 7.500 de agosto a outubro de 2022.

Boldrini foi eleito conselheiro fiscal do ICB para mandato de janeiro de 2024 a janeiro de 2032, mas renunciou em novembro de 2024. Ele foi contratado pelo instituto em razão do projeto “Lutando pela Vida”, cuja execução não foi integralmente comprovada, segundo a CGU (Controladoria-Geral da União).

De acordo com as autoridades, Boldrini constituiu MEI (Microempreendedor Individual) poucos dias antes da contratação pelo ICB, “com possível assinatura retroativa do respectivo contrato”. O contrato previa prestação de serviços de coordenação técnica e organizacional de atividades de jiu-jitsu no valor total de R$ 105 mil.

Cota parlamentar e Complexsys

A GTrend, cujo sócio-administrador era Wemerson Marinho, ex-marido de Karina Gama, recebeu R$ 115,6 mil de abril de 2023 a agosto de 2024 com serviço prestado ao gabinete de Frias.

À Folha Marinho afirmou que seus advogados providenciam o acesso integral aos autos e que não faria comentário de mérito sobre alegações ainda em apuração. “Prestarei todos os esclarecimentos pertinentes pelos canais adequados, no momento oportuno”, afirmou.

Já a Complexsys, do empresário Andre Feldman, recebeu ao menos R$ 154 mil de Frias, de setembro de 2024 a abril de 2026, de recursos de cota parlamentar. Em diferentes momentos, a Complexsys é citada como destinatária ou remetente de pessoas ou empresas ligadas à suposta organização criminosa.

No período de outubro de 2024 a outubro de 2025, a empresa de pequeno porte teve movimentação total de mais de R$ 18 milhões. No período, ela recebeu dinheiro do ICB (R$ 5 milhões) e de Frias (R$ 92.400,00). Enviou para ANC (R$ 2.626.949,69), Feldman (R$ 1.269.452,04), Fabio Meirelles, advogado de Frias (R$ 27 mil), ICB (R$ 5.980,00) e Karina (R$ 2.336,00).

De 10 de outubro de 2025 a 28 de dezembro de 2025, a empresa, cuja principal atividade econômica é descrita como serviço de escritório e apoio administrativo, movimentou mais de R$ 10 milhões, sendo mais de R$ 3 milhões recebidos do ICB e R$ 23 mil de Frias. A ANC foi destinatária de mais de R$ 1,3 milhão; o ICB, mais de R$ 500 mil; Feldman R$ 221 mil e Meirelles, R$ 12 mil.

Já de 29 de dezembro de 2025 a abril de 2026, ela teve movimentação de mais de R$ 8 milhões. No período, recebeu recursos do ICB (R$ 1.844.051,44), de Feldman (R$ 200 mil), de Frias (R$ 30.800,87), e da Complexsys Soluções Integradas Ltda (R$ 10 mil), em operação entre contas de mesma titularidade. Já dentre os destinatários, destacam-se a própria Complexsys (R$ 1.039.950,00), Feldman (R$ 248.851,02) e Meirelles (R$ 12.000,81).

Por meio de sua assessoria, a Complexsys afirmou refutar “todas as imputações sobre a empresa” e informou que responderá nos autos do processo a cada uma delas. Ela também afirmou que o contrato com o gabinete de Frias “está de acordo com todas as exigências legais. A empresa segue à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos que se fizerem necessários”, afirmou.

Transferências para a Go Up

Frias enviou R$ 645 mil à produtora de “Dark Horse”, valor que a PF aponta como incompatível com o salário do deputado, de R$ 44 mil.

Jim Caviezel como Jair Bolsonaro em cartaz do filme 'Dark Horse' - Reprodução
Jim Caviezel como Jair Bolsonaro em cartaz do filme ‘Dark Horse’. (Foto: Reprodução)

A Go Up também recebeu R$ 750 mil da NTT, cujo sócio-administrador é Heric Dias. Ele é vinculado a duas empresas, a Dinâmica Editora e o Instituto Super Poder Educacional, que receberam R$ 700 mil vindos de emendas parlamentares entregues ao ICB por Frias no projeto “Jovem Empreendedor”.

Pamella Cristiane Dias, irmã de Heric, é sócia do Instituto Super Poder Educacional Ltda (Super Leitores) e autora de livros fornecidos ao mesmo projeto.

A Go Up também recebeu R$ 2.614.000, no período de 10 de novembro de 2025 a 30 de dezembro de 2025, da Conhecer Brasil Assessoria Produção e MKT Cultural, a GO 7, também ligada a Karina Gama.

A Go 7 recebeu, no período de dezembro de 2025 a fevereiro de 2026, R$1 milhão do ICB. Ela também recebeu R$54 mil em gastos de campanha de Frias em 2022.

 


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Fonte: ICL Notícias

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