Ginecologista é investigado por estupro após denúncia de paciente
Por Laís Gouveia — Brasil 247
Um ginecologista de 82 anos é investigado por estupro após uma ex-paciente relatar abusos em consultas realizadas desde a adolescência em São Paulo, incluindo exames que considera inadequados, registros de imagens íntimas e a exibição de vídeos pornográficos. O caso é apurado pelo 1º Distrito Policial de Itapecerica da Serra.
A informação é do g1, que ouviu Esther Neves, hoje com 27 anos. Ela afirma ter sido atendida pelo médico Osmar Trojan entre 2014 e 2022, em um consultório particular no Brooklin, na Zona Sul da capital paulista. O médico nega as acusações.
Esther tinha 16 anos quando começou a ser atendida por Osmar. O médico já mantinha uma relação próxima com sua família, atendia sua mãe e havia participado de momentos importantes da vida da jovem. Segundo a reportagem, ele também frequentava a mesma igreja da família e era visto por Esther como uma figura de confiança.
A jovem afirma que essa relação influenciou a maneira como encarava comportamentos que, anos depois, passou a interpretar como abusivos. Ela disse que as consultas não eram cobradas e que isso criava uma sensação de dívida em relação ao médico.
“Ele não cobrava as consultas. Eu e a minha mãe sentíamos que a gente estava devendo algo para ele. Então quando ele falava que queria me fotografar, eu me sentia na obrigação de ir, porque ele falava que era uma coisa boa”, contou Esther ao g1.
Segundo Esther, os atendimentos se prolongavam por cerca de duas horas e incluíam procedimentos e toques que, posteriormente, ela passou a considerar incompatíveis com exames ginecológicos. Ela relata ainda que o médico teria realizado exames sem luvas e apresentado justificativas médicas para condutas de caráter sexual.
A jovem também afirma que Osmar exibiu vídeos pornográficos durante atendimentos, inclusive quando ela ainda era adolescente. De acordo com seu relato, o médico mostrava imagens de uma mulher com características físicas semelhantes às dela e fazia comentários relacionados ao uso de objetos sexuais.
“Ele assistia esse site e colocava uma pessoa com um tipo físico muito parecido com o meu, pesava mais ou menos uns 45 kg. E aí ele falava: ‘olha, essa menina é novinha igual a você. Você é linda, você é perfeita. Ela tem aqui um plugue anal. Se você quiser, eu posso comprar para você e eu te ensino a usar’”, contou.
Em outro episódio, Esther afirma ter sido convencida a participar de uma sessão de fotografias no consultório. Segundo ela, o ginecologista disse que produziria material para um trabalho de conscientização sobre o câncer de mama e apresentou a iniciativa como uma oportunidade de realizar gratuitamente um ensaio fotográfico.
“Ele me mostrou uma relação de fotos de várias pacientes dele e falou: ‘olha, você precisa fazer isso também, porque fazer um ensaio fotográfico é uma coisa muito cara. E eu sei que você não tem condição de pagar, então eu vou te fazer de graça […] Eu fico com essas fotos e te dou em um pendrive.”
Esther relata que as primeiras imagens registraram seus seios, mas que, posteriormente, o médico passou a fotografar outras regiões íntimas de seu corpo.
“Ele fotografou minhas mamas por causa do câncer de mama. Até aí, tudo bem. Só que aí, ele começou com uma história de que ele tinha pacientes muito complexadas com o tamanho dos grandes lábios da vagina delas […] ele tirou muitas fotos da minha vagina também, do meu ânus.”
A jovem afirma ainda que, durante uma consulta, Osmar sugou seus seios alegando que precisava verificar a existência de alguma secreção. Segundo seu relato, a combinação entre a confiança depositada no médico e as explicações apresentadas durante os atendimentos dificultou, naquele momento, a percepção de que as condutas poderiam ser abusivas.
A relação entre os dois também ultrapassava o ambiente profissional. Esther diz que recebia mensagens frequentes do médico, além de fotografias de viagens e registros da rotina dele. Por cerca de um mês, chegou a trabalhar no consultório para substituir a secretária durante as férias.
“Era muito próxima, ele mandava muitas mensagens. Era como se fosse meu pai. O contato que eu não tinha com meu pai, eu tinha com ele. Então, tudo que ele fazia, ele mandava mensagem. Ele mandava fotos minhas. Ele mandava fotos dele nas viagens. Tudo que ele fazia, ele mandava”, contou.
Segundo Esther, a percepção sobre o que havia acontecido mudou durante o tratamento de problemas relacionados à saúde mental. Ela afirma que a terapia a ajudou a compreender que situações vividas durante os atendimentos não correspondiam ao que deveria ocorrer normalmente em uma consulta médica.
“Foi um sofrimento muito grande. Eu tinha crise de ansiedade todos os dias. Eu chorava pra caramba, eu ficava me tremendo. Meu pai, inclusive, ele é enfermeiro e me deu um remédio uma vez que era pra epilepsia para você ter uma ideia.”
Em 2024, Esther chegou a ser internada após uma crise de ansiedade. Um atestado médico citado pelo g1 registra acompanhamento por “ansiedade aguda com sintomas somáticos” e aponta alterações no sono, apetite, concentração e estabilidade emocional, além de impactos sobre suas atividades cotidianas.
No interrogatório prestado à polícia, Osmar negou ter cometido qualquer ato de conotação sexual contra Esther. Segundo ele, os exames eram realizados na presença da mãe da paciente ou de uma auxiliar.
O médico admitiu ter realizado um exame retal, mas declarou que isso ocorreu apenas uma vez, com uso de luvas, devido a uma suspeita de endometriose. Ele também negou ter exibido conteúdo pornográfico e afirmou que eventualmente apresenta vídeos do YouTube relacionados a exercícios de pompoarismo e ao autoexame das mamas.
Em relação às fotografias, Osmar confirmou que realizou uma sessão com Esther, mas sustentou que as imagens integravam uma campanha de prevenção ao câncer de mama. Segundo sua versão, a paciente concordou com a realização das fotos, levou o próprio figurino e posteriormente recebeu os arquivos. Ele também negou manter fotografias de pacientes nuas.
O advogado Alessandro Fischer Martins Silveira, responsável pela defesa do médico, negou as acusações e afirmou que “confia que, no curso da instrução processual, mediante o exercício pleno do contraditório e da ampla defesa e a produção das provas pertinentes, demonstrará sua inocência”.
A defesa ressaltou ainda que o procedimento tramita sob sigilo e que não houve recebimento de denúncia pela Justiça, defendendo a observância da presunção de inocência enquanto o caso permanece em investigação.
A reportagem do g1 apresenta uma divergência sobre o estágio formal do inquérito. Em resposta reproduzida no texto, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que “o homem foi formalmente indiciado pela prática do crime de estupro, previsto no artigo 213 do Código Penal” e acrescentou que “as investigações prosseguem visando o devido esclarecimento dos fatos”. No trecho final da reportagem, porém, consta que o inquérito ainda não havia sido finalizado e que o médico não teria sido indiciado.
Fonte: Brasil 247