Freixo: “Flávio Bolsonaro defendeu policial acusado de matar uma criança de 5 anos”

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Por Dafne Ashton — Brasil 247

247 – O ex-deputado federal Marcelo Freixo (PT-RJ) afirmou que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atuou como advogado na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pela morte de Ana Clara Machado, de 5 anos, atingida por um disparo de fuzil em fevereiro de 2021, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Para Freixo, a participação do senador no processo precisa ser discutida publicamente diante da candidatura presidencial de Flávio.

Em entrevista ao programa Brasil Agora, da TV 247, Freixo relatou ter retomado o caso depois de conversar com Cristiane Gomes, mãe de Ana Clara. A menina foi baleada em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, quando estava perto do portão de casa. Reportagens publicadas à época confirmam que Delaroli foi preso em flagrante e posteriormente teve a prisão convertida em preventiva. A Polícia Civil apontou contradições entre o depoimento dos policiais, os relatos das testemunhas e os elementos encontrados pela perícia.

“Eu resolvi retomar porque eu estive com a mãe da Ana, a Cris. Ela tem 28 anos apenas e está com uma vida completamente destroçada”, afirmou Freixo. Segundo ele, a mãe estava em casa com Ana Clara e outro filho, então com 2 anos, quando foram ouvidos os disparos.

O ex-deputado contestou a versão de que o episódio tenha ocorrido em meio a um confronto. “Não houve troca de tiro, não tem nenhuma prisão, não tem nenhuma apreensão de armas, não tem nada que justificasse aquilo”, declarou.

À época do crime, a Polícia Militar informou que os agentes haviam sido atacados por homens armados e reagido. A investigação, porém, identificou elementos que colocaram essa narrativa sob questionamento. Segundo decisão judicial noticiada pelo UOL, peritos encontraram cápsulas de fuzil 7,62 compatíveis com o armamento da PM, mas não localizaram estojos da munição de pistola que, segundo a versão dos policiais, teria sido usada pelos supostos criminosos. O delegado responsável também afirmou que havia contradições entre o depoimento de Delaroli, os relatos das testemunhas e a perícia.

Delaroli foi autuado em flagrante por homicídio doloso com dolo eventual. Ao converter a prisão em preventiva, a Justiça também registrou que o policial respondia a outro processo por homicídio.

É nesse processo que aparece a atuação de Flávio Bolsonaro. O senador integrou a equipe de advogados de Delaroli e assinou recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça contra a decisão da Justiça fluminense que determinou que o policial fosse submetido a júri popular. Documentos e reportagens sobre o processo registram a atuação de Bolsonaro na defesa.

Para Freixo, a questão que precisa ser esclarecida é por que um senador da República decidiu participar da defesa do policial. “É comum o senador, no exercício do seu mandato, ser advogado de um caso, seja qual for? Não, não é comum”, disse.

Freixo também questionou se a família de Ana Clara chegou a ser procurada pelo senador. “Como Flávio Bolsonaro, senador, procurou a mãe? Procurou a família? Eu estou falando de uma criança de 5 anos de idade”, afirmou.

Ao abordar o caso, Freixo levantou ainda uma questão sobre a motivação para a atuação jurídica de Bolsonaro, sem apresentar elementos conclusivos sobre esse ponto. Ele observou que o sobrenome Delaroli também pertence a políticos do Rio de Janeiro e disse considerar necessário esclarecer se a participação do senador decorreu de uma relação profissional remunerada ou de vínculos políticos.

A atuação de Flávio Bolsonaro na defesa deve ser distinguida da acusação criminal discutida no processo: o senador não é acusado pela morte de Ana Clara. A crítica apresentada por Freixo diz respeito à decisão política e profissional de integrar a defesa do policial e buscar reverter a submissão do caso ao Tribunal do Júri.

“Eu acho que alguém que quer ser presidente da República, essa é uma história sobre a qual a gente tem que falar”, declarou Freixo.

Durante a entrevista, o ex-deputado relacionou o episódio à trajetória política de Flávio Bolsonaro no Rio e relembrou divergências entre ambos em torno das milícias. Freixo presidiu a CPI das Milícias instalada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 2008. Segundo ele, Flávio se posicionou contra a abertura da investigação parlamentar e fez, ao longo de sua trajetória na Alerj, manifestações em defesa de policiais posteriormente associados a grupos paramilitares.

Freixo citou também Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público como líder de uma milícia e morto em fevereiro de 2020. O caso tornou-se objeto de controvérsia política porque a mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual. Ao tratar desses episódios na entrevista, Freixo procurou situar a defesa de Delaroli dentro de uma disputa política que mantém com a família Bolsonaro há cerca de duas décadas.

“Eu enfrento essa família há 20 anos. Há pouco tempo postei um vídeo de 2007 em que apresentei o pedido da CPI das Milícias e ele votou contra”, disse.

A parte central da denúncia, porém, permaneceu concentrada no processo de Ana Clara. Freixo chamou atenção para a situação da família da menina e afirmou que a mãe não recebeu assistência compatível com as consequências da morte da filha. Segundo ele, Cristiane enfrentou inclusive dificuldades financeiras relacionadas à sepultura de Ana Clara.

“Eu estou falando de uma mãe que não conseguiu pagar a exumação do corpo da filha. É a gente que está ajudando lá”, afirmou.

O caso permanece marcado pela disputa sobre as circunstâncias dos disparos. A versão apresentada inicialmente pelos policiais apontava uma troca de tiros, enquanto testemunhos e elementos periciais levaram a Polícia Civil a prender Delaroli e o Ministério Público a levar a acusação adiante. A Justiça determinou que o policial fosse submetido ao Tribunal do Júri.

A morte de Ana Clara ocorreu em um contexto mais amplo de violência armada contra crianças no estado. Na época, levantamento da plataforma Fogo Cruzado indicava que ela era a quarta criança baleada apenas nas primeiras semanas de 2021 na Região Metropolitana do Rio e a segunda a morrer em consequência de disparos naquele ano.

Ao recuperar o episódio em plena campanha eleitoral de 2026, Freixo busca colocar a atuação de Flávio Bolsonaro como advogado no centro do debate sobre segurança pública e crime organizado. O ex-deputado sustentou que o histórico dos candidatos nessa área deve ser submetido ao escrutínio dos eleitores.

Na mesma entrevista, Freixo diferenciou o combate às milícias e ao tráfico da proposta de classificar organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas para justificar uma possível intervenção estrangeira. Segundo ele, as duas questões não podem ser confundidas.

“Milícia e tráfico representam o terror na vida das pessoas pobres, moradores de comunidade. Essas pessoas têm que comprar gás, pagar internet, são extorquidas, são violentadas”, afirmou. Para Freixo, entretanto, o enfrentamento dessas organizações deve ser realizado pelas instituições brasileiras, ainda que exista cooperação internacional no combate ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro.

“Dizer que isso é terrorismo para permitir a quebra da soberania e uma entrada de outro país sobre nós é inadmissível. São duas coisas completamente diferentes”, acrescentou.

Ao final, Freixo voltou ao caso de Ana Clara e pediu que a história fosse divulgada. Para ele, a participação de Flávio Bolsonaro na defesa de Delaroli deve fazer parte do debate público sobre a trajetória do candidato do PL.

“Espero muito que compartilhem esse vídeo e essa denúncia tão grave sobre Flávio Bolsonaro”, concluiu.

Fonte: Brasil 247

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