Possíveis crimes de Moraes não reescrevem a biografia da família Bolsonaro

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Publicado em 24 de Setembro de 2026 às 05:00

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Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O erro de
um não valida o do outro. E, como vovó já ensinava, dois erros não produzem um
acerto.

Todos esses ditados são bem-vindos para o que pretendo
analisar aqui. Quando se trata do bolsonarismo e do lulismo, os dois polos antagônicos
operam estratégias discursivas e cognitivas similares para, basicamente, negar
fatos desabonadores. Agarram-se aos erros dos algozes para justificar (ou,
simplesmente, ignorar) os muitos erros praticados pelos respectivos candidatos,
grupos políticos e/ou familiares.

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No caso do PT, temos visto isso, pelo menos, desde 2018,
quando Sergio Moro, relator da Lava Jato na primeira instância da Justiça
Federal em Curitiba, deixou a magistratura para iniciar (oficialmente) sua
carreira política.

Moro realmente se revelou um
juiz parcial – como trataram de demonstrar a “Vaza Jato” e a carreira política assumida
pelo próprio daquele momento em diante, aliando-se a Bolsonaro, colaborando estreitamente
com ele, apoiando-o contra Lula em 2022 (mesmo após ter denunciado interferência
direta do então presidente na Polícia Federal) e firmando-se como ferrenho
opositor do governo do PT no Senado nos últimos quatros anos. Sua atuação
parcial e sua falta de isenção para conduzir o julgamento de Lula na 13ª Vara
Federal de Curitiba foram reconhecidas pela Segunda Turma do STF (por 3 votos a 2), em março de 2021.

Excessos do então juiz
federal (incluindo divulgação de escuta da então presidente Dilma), e xorbitância
de competências, vícios processuais que levaram o STF a anular, em 2021, as condenações de Lula por lavagem de dinheiro e corrupção passiva ? Isso é uma coisa.

Mas a parcialidade de Moro não passa uma borracha nas
evidências de práticas gravíssimas, como o “saque à Petrobras” revelado pelo
Petrolão, o famoso “propinoduto”, casos notórios de superfaturamento de
contratos com empreiteiras visando a enriquecimento ilícito de agentes públicos
e/ou à irrigação de caixa dois de campanha para lavagem de dinheiro. Não anula
o desvio de verba pública praticado, por exemplo, por diretores da estatal
indicados pelo PT e por então partidos aliados, como o MDB e o PP, nos
primeiros governos de Lula e durante a presidência de Dilma.

Os esquemas trazidos à tona pelas investigações da Polícia
Federal não foram invenção nem ficção. A Lava Jato não foi “uma grande farsa”,
como gostam de repetir petistas.

Ora, neste momento, o que vemos é precisamente isso, mas com
o sinal invertido – a outra face da moeda. Essa é exatamente a estratégia
discursiva (ou “distorciva”) agora abraçada, com todas as forças, pela
militância bolsonarista: “o juiz está nu, logo vamos passar a borracha em tudo
e fingir que nada aconteceu”… 

Relator dos inquéritos e ações penais dos atos golpistas e
do 8 de janeiro no STF, o ministro Alexandre de Moraes agora está sob
gravíssimas suspeitas de conflitos de interesse, para dizer o mínimo, por ter
revisado pessoalmente o contrato de R$ 131 milhões do escritório de advocacia
da própria esposa com o Banco Master, em janeiro de 2025, e por ter atuado, ao
que tudo indica, como uma espécie de consultor ou “oráculo” de Daniel Vorcaro;
um insider no STF, frequentemente
procurado pelo banqueiro ao longo de 2025 para lhe passar informações privilegiadas
e orientações sobre as investigações em curso contra ele.

Extraída do celular de Vorcaro apreendido pela PF, a troca
de mensagens revela que o dono do Master pediu a Moraes até para intervir em
seu favor junto ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao
diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Isso é uma coisa.

Outra coisa é Jair Bolsonaro.

Por acaso as suspeitas gravíssimas que ora recaem sobre
Moraes apagam, da noite para o dia, o golpismo do ex-presidente e de membros da
alta cúpula do governo passado?

Para este colunista, não.

A conduta de Moraes no caso Master é obviamente reprovável,
exige profunda investigação e, se comprovadas as suspeitas, na eventual omissão
do STF, fazem jus à abertura de processo de investigação no Senado que poderá
culminar com a cassação do ministro por crime de responsabilidade.

Nada disso, porém, anula o fato de que, durante seu governo,
como fizera durante toda a sua extensa trajetória parlamentar, Bolsonaro exibiu
espírito francamente antidemocrático.

Não anula o fato de que Bolsonaro declarou que não aceitaria
outro resultado que não fosse sua vitória nas urnas, violando uma das premissas
mais elementares do regime democrático: quem ganha governa, quem perde vai para
a oposição.

Não anula o fato de que, sistematicamente, Bolsonaro desacreditou
as urnas eletrônicas e a lisura do sistema eleitoral brasileiro, chegando ao
cúmulo de sustentar essas teses conspiratórias diante de embaixadores
estrangeiros, sem jamais ter apresentado uma só prova de fraude eleitoral.

Não anula o fato de que Bolsonaro venceu nove eleições por
esse mesmo sistema num intervalo de 30 anos (de 1988 a 2018), seis delas com
votos depositados nessas mesmas urnas eletrônicas (1998, 2002, 2006, 2010, 2014
e 2018).  

Não anula o fato de que, mesmo tendo perdido a reeleição
para a Presidência, Bolsonaro jamais reconheceu publicamente a derrota e a
soberana vontade popular expressa nas urnas pelos cidadãos brasileiros em
outubro de 2022.

Não anula o fato de que, tendo perdido nas urnas, Bolsonaro
fez de tudo para continuar no poder e “melar” a posse do presidente eleito.

Não anula o fato de que investigadores da Polícia Federal
encontraram uma “minuta de golpe” na casa de seu então ministro da Justiça, Anderson
Torres, a qual previa uma série de medidas de exceção, incluindo intervenção do
Poder Executivo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a fim de invalidar o
resultado das urnas.


Não anula o fato de
que as investigações também trouxeram a lume o “Plano Punhal Verde Amarelo”,
que almejava simplesmente o assassinato do presidente e do vice-presidente
eleitos (Lula e Geraldo Alckmin), bem como o do então presidente do TSE (Moraes),
além da prisão e posterior execução de autoridades de Estado em um golpe de
Estado, em novembro de 2022
.*

Não anula o fato de que, logo após a derrota nas urnas,
militantes bolsonaristas bloquearam rodovias, acamparam diante de quartéis por
todo o país e passaram meses clamando por uma “intervenção militar” (eufemismo
para golpe), sem jamais terem sido dissuadidos pelo então presidente da
República, e sim encorajados por ele com uma série de declarações ambíguas
interpretadas pela própria militância como aval para levarem adiante a
mobilização.

Não anula o fato de que, em dezembro de 2022, Bolsonaro
reuniu-se com os chefes das três Forças Armadas, no Palácio da Alvorada, para
tratar diretamente de alternativas à margem da lei para sua permanência no
poder.


Não anula o fato de
que, na referida reunião, o presidente e o ministro da Defesa apresentaram ao
general, ao almirante e ao brigadeiro uma minuta de decreto com medidas de
exceção, tendo obtido adesão somente do então comandante da Marinha, enquanto o
do Exército, general Freire Gomes, chegou inclusive a ameaçar lhe dar voz de
prisão caso seguisse em frente com aqueles planos golpistas.

Não anula o fato de que o golpe para impedir a posse de Lula
só não prosperou, hoje sabemos, por falta de adesão dos comandos do Exército e
da Aeronáutica.

Não anula o fato de que, em vez de passar a faixa para seu
sucessor eleito, Bolsonaro viajou para Miami antes de terminar de cumprir seu
mandato, conforme lhe cabia.

Não anula o fato de que generais ligados a ele seguiram
conspirando, pressionando colegas de farda e inflamando hordas de militantes
por grupos de aplicativos de troca de mensagem durante todo esse período.

Não anula o fato de que, obviamente, todo esse caldo conspiratório
entornou e culminou com o dia 8 de janeiro de 2023, constantemente minimizado por
bolsonaristas como se não tivesse passado de simples protesto civil e
democrático (exercício da liberdade de manifestação política garantida pela
Constituição), ou de “mera” depredação do patrimônio público, quando foi nada
mais, nada menos que o maior ataque da história às sedes dos Três Poderes da
República em Brasília e, portanto, às instituições democráticas do país e à
própria democracia brasileira desde 1964.

Não anula o fato de que uma palavra de Bolsonaro (jamais
proferida) teria evitado tudo aquilo – afinal, estavam ali por ele, para empastelar
o governo recém-inaugurado do seu sucessor no cargo. “Voltem para casa, chega
de distúrbios políticos e sociais, vamos para a oposição…” Isso nunca se
ouviu dele. Muito pelo contrário.

Crimes eventualmente cometidos por Alexandre de Moraes não
anulam os cometidos por Bolsonaro. Não o tornam menos autoritário nem menos
antidemocrático.


Não validam, da noite
para o dia, a ilusão de que ele sempre foi um grande democrata e bastião da
defesa das liberdades democráticas do povo brasileiro
.

Não apagam declarações que pontuam a sua longa trajetória política, iniciada há mais de 30 anos, como a defesa direta da tortura e de
torturadores; a defesa aberta de uma guerra civil no Brasil; a defesa explícita
do fuzilamento do então presidente FHC; a defesa escancarada de que “o erro da
ditadura foi torturar, não matar”; de que a ditadura brasileira deveria ter
fuzilado “uns 30 mil”; de que “Pinochet deveria ter matado mais gente”; de que,
“se fosse presidente, daria golpe no mesmo dia” e fecharia o Congresso – para
ficar só em alguns exemplos amplamente documentados.

Não nos permitem esquecer que, em 2017, ele disse, ipsis litteris :   “Sou capitão do Exército, minha missão é
matar”.

Não anulam o fato de que um de seus filhos, Eduardo, herdeiro
desse mindset do pai, chegou a dizer,
numa “aula” em 2018, que, “para fechar o STF, basta[m] um cabo e um soldado”.

Não anulam o fato de que esse mesmo ex-deputado, cassado por
excesso de faltas pela Câmara e tratado por militantes bolsonaristas como um
“herói da luta pela liberdade”, na
verdade fugiu da alçada da Justiça brasileira, abandonou o mandato outorgado pelo povo e o cargo de
escrivão da PF e foi morar nos Estados Unidos, de onde tem agido, diuturnamente,
para sabotar os interesses nacionais, estimulando “tarifaços” e acumulando
contra si evidências de crimes de lesa-pátria.

Eventuais crimes praticados por Alexandre de Moraes precisam
ser severamente investigados e, se comprovados, devidamente punidos, inclusive
com a perda do cargo. Mas não reescrevem a biografia da família Bolsonaro.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

O erro de um não autoriza o do outro.

E, já dizia vovó… dois erros não fazem um acerto.

Nas táticas de mobilização, o lulismo e o bolsonarismo s ão
duas faces da mesma moeda, pois as respectivas militâncias operam na chave do
negacionismo total em relação aos próprios erros e crimes. Aos meus inimigos, o
máximo rigor da lei; aos meus amigos, podemos passar o pano… ou a borracha!

E, se houver na história um
juiz suspeito ou enrolado por outras questões, tanto melhor! É justo o “gancho”
de que precisávamos para fazer de conta que nada aconteceu… 

* O Plano Punhal Verde e Amarelo foi elaborado por militares
de forças especiais. As investigações revelaram que o documento foi impresso
nas dependências do Palácio do Planalto, tendo sua autoria confirmada,
posteriormente, pelo general da reserva Mário Fernandes. Um dos mais fervorosos
apoiadores de Bolsonaro nos altos escalões do Exército, Fernandes foi condenado
pelo STF e preso pelos crimes de organização criminosa, dano qualificado e
tentativa de golpe de Estado.


Se um plano de assassinato do presidente eleito e de outras
autoridades da República não consiste em “tentativa de golpe de Estado”, não sei mais o que
pode caber em tal definição… Data maxima venia a quem discorde, é cinismo pretender que não. 

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Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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