Eleições são a hora de dizer o que queremos
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Publicado em 24 de Setembro de 2026 às 04:25
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Mesmo com as disfunções da democracia brasileira, as eleições permitem escolher representantes afinados com nossas convicções. A atenção se concentra nos cargos de presidente e governador, mas o voto para o Legislativo é decisivo, pois é ali que se definem leis e políticas que afetam nossa vida.
Em entrevista à revista Piauí, em 2 de setembro, o cientista político Mário Lago afirmou que as mudanças climáticas passaram a ser a condição a partir da qual todas as demais questões devem ser pensadas. Em coluna de 23 de agosto, Miriam Leitão observou que os candidatos ignoram o problema mais urgente da humanidade: a mudança do clima.
Concordo com o alerta, embora faça duas ressalvas. Em uma visão mais ampla, a mudança climática integra uma crise maior, a ambiental. E os grandes desafios contemporâneos não se resumem a ela. Geopolítica, guerras, democracia, economia, IA, desigualdade, fome, saúde e outras são questões interligadas.
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Talvez seja esse o ponto: a agenda ambiental, embora atravesse a vida nacional, continua a receber atenção secundária nas campanhas. Muitas vezes, é tratada como obstáculo ao desenvolvimento, quando deveria integrar um projeto de país baseado em ciência, segurança e bem-estar.
Os problemas ambientais brasileiros, como os globais, são numerosos e conectados. Afetam alimentos, água, energia, saúde, economia e a qualidade de vida. Ainda assim, raramente percebemos essa interdependência ou reconhecemos sua gravidade.
Entre tantas prioridades, citarei duas, sabendo que deixarei de fora várias outras.
A primeira é deter o desmatamento, sobretudo na Amazônia. Não se trata apenas de proteger a biodiversidade da maior floresta tropical do planeta. Ela ajuda a manter o regime de chuvas em grande parte da América do Sul. Sua umidade é levada pelos ventos a outras regiões, contribuindo para o abastecimento de água da agricultura, indústria, hidrelétricas e cidades.
A preservação da Amazônia também é essencial para os povos indígenas: cerca de 51% da população indígena brasileira vive na Amazônia Legal. E a floresta é decisiva para conter o aquecimento global, pois sua destruição liberaria o carbono armazenado e alteraria criticamente o clima do planeta.
A segunda prioridade é preparar o país para efeitos já em curso. É preciso elaborar e executar planos de adaptação às mudanças climáticas. O calor extremo já é problema de saúde pública: estima-se que ondas de calor tenham causado milhares de mortes no Brasil nos últimos anos, embora estatísticas precisas sejam difíceis, pois poucos registros indicam “morte por calor”.
União, estados e municípios devem proteger especialmente idosos, crianças, trabalhadores expostos ao sol e populações mais pobres.
Também são indispensáveis medidas contra secas e enchentes, que já atingem todas as regiões. Investir em prevenção custa muito menos do que financiar dívidas do agronegócio, reconstruir cidades, reparar estradas e socorrer famílias após uma tragédia.
Mesmo assim, só cerca de 3% da área plantada no Brasil conta com seguro rural, ante 90% nos Estados Unidos. Nas cidades, medidas simples para reduzir alagamentos e deslizamentos são adiadas, enquanto se gastam fortunas para reparar os desastres, como no Rio Grande do Sul.
Poucos estados têm planos adequados de adaptação. Isso precisa mudar. A crise ambiental não se resolve no prazo dos mandatos. Seus efeitos se acumulam e alcançam a todos, seja qual for a renda, região ou ideologia.
Por isso, esta eleição é uma oportunidade para cobrar compromissos claros. Escolher candidatos que levem a sério a agenda ambiental não é votar em tema isolado. É votar por água, saúde, alimentos, energia, segurança, empregos, economia e pelo futuro do país.
Carlos Roxo
Engenheiro ambiental, sócio da Maker Sustentabilidade e membro do Grupo Executivo da Coalizão Brasil Clima Florestas e Agricultura
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