Miliciano chamou Flávio Bolsonaro de “nosso senador” ao pedir emenda, diz PF
Por Leonardo Lucena — Brasil 247
247 – Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Robson Calixto da Fonseca, o “Peixe”, mostram o ex-policial militar chamando Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de “nosso senador” enquanto buscava recursos de uma emenda parlamentar para uma entidade do Rio de Janeiro. O parlamentar é candidato à Presidência da República atualmente.
A revista Piauí revelou que Flávio destinou R$ 199.999,79 ao projeto depois das tratativas entre Calixto e uma assessora de seu gabinete. Em fevereiro, o STF condenou Peixe a nove anos de prisão pela participação no grupo envolvido no assassinato de Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, mortos por integrantes do crime organizado em março de 2018 no município do Rio por causa das denúncias feitas pela vereadora contra atividades milicianas, como a exploração imobiliária ilegal em regiões mais afastadas do centro da capital fluminense.
A investigação da PF tenta esclarecer se o dinheiro público destinado ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop) sofreu desvio e se integrantes da estrutura ligada aos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão se beneficiaram da verba.
O filho de Jair Bolsonaro afirma que destinou os recursos dentro da legislação e que o Ministério do Esporte aplicou critérios técnicos na análise do projeto.
“Nosso senador”
A PF recuperou as conversas em março de 2024, quando cumpriu uma ordem de busca e apreensão contra Calixto durante a investigação do caso Marielle. Em uma das mensagens, Peixe procurou Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar que trabalhava no gabinete de Flávio no Senado, e escreveu: “Amiga vê com o nosso Senador se consegue [sic] nos ajudar”.
Investigadores classificaram Maria de Fátima como “interlocutora direta de Robson Calixto no gabinete senatorial”. A corporação também apontou que os diálogos indicavam proximidade entre Peixe, a assessora e o entorno político do senador.
A funcionária orientou Calixto a formalizar o pedido por e-mail ou ofício. Depois, perguntou quando ele iria a Brasília. O ex-policial respondeu que pretendia viajar em novembro e voltou a perguntar se o gabinete conseguiria liberar algum recurso.
As conversas continuaram nos meses seguintes. Em novembro de 2023, Calixto voltou a pedir auxílio para o instituto. Em março de 2024, escreveu que havia consultado as destinações parlamentares e ainda não havia localizado verba enviada pelo “nosso Senador”.
Emenda chegou a quase R$ 200 mil
O senador da extrema direita destinou exatamente R$ 199.999,79 ao Ministério do Esporte. A pasta firmou um termo de fomento com o Ifop para financiar o projeto “Jogadores do Futuro”, voltado a crianças da Taquara, na região de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
A região integra a área de influência política dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão. O STF condenou os dois, em fevereiro de 2026, pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes e fixou penas de 76 anos e três meses para cada um. A Corte também condenou Calixto a nove anos de prisão por integrar o grupo.
Calixto trabalhou anteriormente como assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Em 2023 e 2024, ele não aparecia formalmente no gabinete de Chiquinho Brazão, embora as mensagens mostrem que tratava de interesses ligados ao então parlamentar.
Assessora sugeriu encontro com Flávio Bolsonaro
Em outra conversa, Maria de Fátima convidou Calixto para uma cerimônia de entrega de coletes à Polícia Militar do Rio de Janeiro e sugeriu que ele levasse Chiquinho Brazão. “Leva o deputado”, escreveu a assessora.
Segundo o relatório da PF citado pela Folha, Flávio destinou emendas ao instituto poucos dias depois desse evento. Os investigadores relacionam parte desses recursos a contratações que passaram a integrar a apuração sobre possíveis irregularidades na aplicação da verba.
A PF ainda busca determinar se Maria de Fátima conduziu as tratativas por iniciativa própria ou se recebeu orientações de outras pessoas do gabinete.
TCU encontrou irregularidades na execução
A investigação também incorporou uma análise do Tribunal de Contas da União. O Relatório Técnico nº 1/2025-TCU/SEINC/ADJ examinou as contratações realizadas com os R$ 199.999,79 e identificou uma série de problemas.
Entre os casos analisados, o Ifop contratou para coordenar o projeto esportivo um escritório de advocacia pertencente ao próprio presidente da entidade, José Rômulo Oliveira Alves.
O mesmo dirigente assinou o contrato nos dois lados da operação: em nome da instituição contratante e como responsável pela empresa contratada. A atividade econômica cadastrada pelo escritório na Receita Federal também não tinha relação com coordenação de projetos esportivos, segundo a apuração.
Os técnicos do TCU apontaram conflito de interesses na operação. A PF usa esse material para aprofundar a investigação sobre o destino dos recursos.
A corporação não concluiu, até o momento, que Flávio Bolsonaro tenha participado de eventual desvio da verba. A investigação busca identificar a atuação de cada pessoa envolvida e o caminho percorrido pelo dinheiro.
PF apura possível desvio de emendas
A investigação faz parte de uma apuração mais ampla sobre recursos parlamentares enviados a organizações sem fins lucrativos no Rio de Janeiro.
Segundo a PF, o esquema sob investigação teria usado pagamentos indevidos, empresas intermediárias e mecanismos destinados a esconder a origem e o destino de recursos provenientes de emendas federais.
Em junho, a corporação realizou uma operação para apurar suspeitas relacionadas a verbas destinadas por Chiquinho Brazão a ONGs. Os investigadores apuram possíveis crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Calixto figurou entre os alvos.
A PF calcula que Flávio destinou cerca de R$ 600 mil à organização investigada. Além dos quase R$ 200 mil para o “Jogadores do Futuro”, o senador enviou aproximadamente R$ 400 mil para Barra do Piraí, no interior do Rio, por meio de uma emenda Pix.
Conversas também mostram pedido de ingressos
Os diálogos recuperados pela PF registraram ainda um pedido feito pela assessora de Flávio a Calixto para obter quatro ingressos para o desfile das campeãs do Carnaval carioca no camarote Arpoador.
A investigação classificou a solicitação como pedido de “vantagem indevida”. Os registros indicam que Calixto conseguiu quatro credenciais com outro interlocutor, mas as mensagens não comprovam que ele tenha entregue os ingressos à assessora.
Esse episódio integra o conjunto de elementos que a PF usa para avaliar a relação mantida entre Calixto e integrantes do gabinete do senador.
Flávio Bolsonaro afirma que emenda seguiu a lei
A assessoria de Flávio Bolsonaro negou irregularidade na destinação dos recursos. Em manifestação enviada à Folha, o senador afirmou que a entidade beneficiária responde pela execução da verba e que os órgãos de controle devem analisar eventuais problemas.
“A entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados. A responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei”, afirmou a assessoria.
A defesa de Robson Calixto não respondeu aos contatos realizados pela Folha até a publicação da reportagem. O representante de Chiquinho Brazão informou que não comentaria o caso, enquanto a defesa de Domingos Brazão declarou que não atua no tema relacionado às emendas.
A Polícia Federal continua apurando a negociação da verba, a atuação dos intermediários e a aplicação dos recursos destinados ao Ifop. Até agora, a investigação identifica indícios de irregularidades na execução do projeto, mas ainda não apresentou uma conclusão que atribua a Flávio Bolsonaro participação em eventual desvio do dinheiro público.
Fonte: Brasil 247