André Mendonça é o novo mito da direita brasileira

0

Por Isabella MotaIntercept Brasil

wide-16-300x69.png

Certa altura de sua obra, o filósofo e historiador Thomas Carlyle afirmou que “a história do mundo é apenas a biografia dos grandes homens” e ele não poderia estar mais enganado.

Afinal, além do equívoco galopante de reduzir eventos históricos complexos à vida e à obra de homens específicos — e o uso do masculino aqui não é acidental ou genérico —, Carlyle ignorava que muitos desses “grandes homens” não passavam de personagens comuns, elevados pela memória histórica à condição de heróis ou vilões conforme estivessem entre os vencedores ou os vencidos.

Infelizmente, essa formulação se tornou um vício do nosso imaginário. Ela está presente na forma como narramos histórias, sejam elas do cinema, da literatura ou da vida real.

Não importa onde: numa galáxia muito distante ou numa eleição presidencial, nossas narrativas tendem à explicação fácil do herói contra o vilão – aquele indivíduo que, contra tudo e contra todos, é capaz de fazer a roda da história girar.

Como não sou crítico de arte, preocupo-me com as histórias que nos são mais próximas — aquelas chamadas de reais ou de notícias —, principalmente as que narram a política. Nelas, a transformação da realidade em dramaturgia não é apenas uma questão de estilo, mas de disputa pelo nosso imaginário, pela nossa memória e, sobretudo, pela nossa atenção.

A política contemporânea parece necessitar de personagens: heróis, vilões, antagonistas, redenções e conflitos sintetizados em poucos minutos de noticiário. E é justamente aí que a fabricação desses mitos se torna politicamente perigosa.

A atenção que dispensamos a esses personagens nos impede de ver o que existe por trás e quem, de fato, rege o espetáculo.  

A tentação dos ‘grandes homens’ e a política como espetáculo

Pegue-se, por exemplo, aquele que acabou se confundindo com a própria palavra mito no Brasil recente: o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O capitão foi incensado como herói – ou vilão, o pioneiro de uma revolução conservadora. Na realidade, jamais passou de um filhote bastardo de uma trama que incluía o Judiciário, as Forças Armadas, empresariado e setores da imprensa (na qual Sergio Moro era o preferido). 

Bolsonaro foi alçado a mito a despeito da própria biografia. Trata-se de um militar que sequer chegou ao topo da carreira, reformado por razões disciplinares, e de um parlamentar que, em mais de duas décadas de Congresso, aprovou apenas dois projetos — um deles destinado a financiar o desenvolvimento de uma “pílula milagrosa” contra o câncer.

Um homem comum, elevado à condição de mito, passou, como presidente, a fabricar os próprios antagonistas para explicar por que não conseguia encarnar o personagem revolucionário que haviam construído para ele. Nascia assim a imagem de Alexandre de Moraes e Rodrigo Maia como os grandes inimigos da direita brasileira.

De ‘vilões’ a alvos: Moraes e Maia

Justamente eles.

Alexandre de Moraes, ex-ministro da Justiça de Michel Temer, do MDB, que, já como integrante do STF, em 2018, integrou a decisão da Corte que negou o habeas corpus ao então ex-presidente Lula – medida que serviria de prelúdio para sua prisão, e Rodrigo Maia, um dos articuladores do impeachment de Dilma Rousseff e base do governo de Bolsonaro.

Não precisamos ser particularmente inteligentes para notar que ambos estavam diretamente envolvidos em acontecimentos que pavimentaram o caminho para a ascensão do próprio Jair Bolsonaro e para a criação do “Mito”.

Essas biografias foram convenientemente esquecidas para dar lugar a narrativas maniqueístas. Enquanto o conflito ocorria nos noticiários, esquecia-se que todos estavam no mesmo palco e faziam parte do mesmo espetáculo.

Afinal, não foi Bolsonaro, Moraes ou Maia que patrocinaram, por anos a fio, o antipetismo e a sanha antiesquerdista da mídia hegemônica. Não foram eles que financiaram protestos que atacavam figuras e organizações ligadas à esquerda. Nem foram eles que injetaram recursos em campanhas de políticos conservadores e investiram no impulsionamento de suas candidaturas e ideias nas redes sociais.

Jair Bolsonaro, Alexandre de Moraes e Rodrigo Maia eram – e são – apenas homens, transformados em protagonistas de uma trama muito maior do que suas próprias biografias. E da mesma forma que foram alçados ao centro do palco, são abandonados ao sabor das circunstâncias: Bolsonaro está preso e inelegível, Rodrigo Maia longe dos holofotes, e Moraes alvo das mesmas forças que antes comemoravam sua ascensão. As mesmas que, agora, trabalham para transformar seu principal opositor, André Mendonça, em herói. 

André Mendonça e a reconstrução conveniente de uma biografia

Os personagens mudam. A estrutura narrativa permanece. A biografia precisa ser reorganizada para que um novo protagonista ocupe o palco.

Mendonça, cuja trajetória política e institucional é muito anterior à atual disputa, passa a ser apresentado como o “herói conservador” capaz de enfrentar o que seus apoiadores chamam de ditadura do STF. 

Para que a narrativa funcione, apagam-se fatos incômodos. Ignoram-se as relações que manteve, por meio de seu instituto Iter, com Daniel Vorcaro; o encontro fora da agenda oficial; e as decisões favoráveis aos interesses dessa rede. 

LEIA TAMBÉM:

Da mesma maneira, omite-se que, a despeito de todas as evidências, Mendonça só abriu uma investigação sobre os milhões enviados por Daniel Vorcaro ao exterior (supostamente para financiar o filme “Dark Horse”) depois de uma série de reportagens feitas pelo Intercept Brasil. E que, depois disso, simplesmente o processo estagnou. 

Mais uma vez, a biografia real dá lugar ao personagem mítico. 

O mito Flávio Bolsonaro e a ameaça à soberania nacional

E com qual intuito? Citando Gilmar Mendes, até as pedras sabem que Mendonça, ao se transformar no “herói conservador” encarregado de expor as entranhas do Supremo, acabou se tornando uma peça central da narrativa eleitoral de Flávio Bolsonaro.

O ministro “terrivelmente evangélico” parece pronto para retribuir o apoio de sua indicação e preparar o terreno para uma nova ascensão política. Trata-se da fabricação de um novo mito. Ao implodir simbolicamente a Corte, Mendonça entrega a Flávio Bolsonaro a narrativa redentora de que ele precisava. 

Agora, a biografia de Flávio Bolsonaro – recheada de suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro, de envolvimento direto com o caso Master – vai sendo convenientemente esquecida para dar lugar ao “grande homem” que vai livrar o Brasil da corrupção do Judiciário. 

É aí que a farsa se torna mais perigosa. Enquanto nos distraímos com os embates de Mendonça, Moraes e Flávio no noticiário, esquecemos quem financia o espetáculo e lucra na bilheteria.

Ignoramos, por exemplo, que não estamos em uma disputa doméstica eleitoral comum. Ignoramos que os EUA estão atuando diretamente por um dos lados dessa disputa, utilizando instrumentos econômicos e diplomáticos para pressionar instituições brasileiras.

O debate no momento não é apenas sobre quem vai ocupar a presidência, mas sobre os limites da própria soberania brasileira – ou se o Brasil continuará sendo um país soberano ou aceitará novamente o papel de quintal de Washington, como ocorreu durante a ditadura militar. 

O post André Mendonça é o novo mito da direita brasileira apareceu primeiro em Intercept Brasil.

Fonte: Intercept Brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *