Saudade do Tesouro IPCA+ 8%? Este investimento ainda oferece até IPCA+ 14% — com isenção de imposto de renda

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Por Julia WiltgenSeu Dinheiro

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A rentabilidade de 8% ao ano acima da inflação nos títulos públicos indexados ao IPCA parece ter finalmente ficado para trás — ao menos por ora.

Os juros dos papéis Tesouro IPCA+, negociados no Tesouro Direto, agora estão abaixo desse patamar, embora ainda elevados, acima de 7% + IPCA.

No entanto, no mercado de crédito privado, onde são negociados títulos de dívida de empresas, algumas rentabilidades bem altas ainda podem ser encontradas, e não por problemas financeiros das empresas emissoras.

Se olharmos para os fundos de debêntures incentivadas listados em bolsa de valores, comumente chamados de FI-Infras, há um bom número deles sendo negociados com desconto.

Com isso, os retornos das suas carteiras chegam a ultrapassar os 10% ao ano mais IPCA — isento de imposto de renda, vale notar. Essa taxa considera o preço da cota do fundo e o retorno médio dos ativos que compõem o portfólio.

As debêntures incentivadas são títulos de renda fixa emitidos por empresas para financiar projetos de infraestrutura, setor que o governo deseja fomentar. Por isso mesmo são isentas de IR para a pessoa física, assim como os fundos que nelas investem.

Os FI-Infras listados têm cotas negociadas em bolsa, como se fossem ações, apesar de serem ativos de renda fixa. Eles distribuem rendimentos isentos mensais (mais ou menos como fazem os fundos imobiliários), e o eventual lucro na venda da cota tampouco é tributado.

Dizer que alguns deles estão sendo negociados com desconto significa que os preços das suas cotas estão abaixo do seu valor patrimonial, isto é, valor dos ativos que compõem a carteira dividido pelo número de cotas.

Ao comprar cotas descontadas, o investidor tem um potencial de retorno maior que o daqueles cotistas que compraram suas cotas no passado, pelo seu valor patrimonial ou até com um ágio. Daí a possibilidade de obter retornos tão acima do Tesouro IPCA+.

Um estudo recente da Empiricus Research mostrou que os melhores resultados para os investidores de FI-Infras acontecem justamente quando eles compram nesses momentos de deságio, isto é, quando as cotas são negociadas abaixo do valor patrimonial.

Ao comprar as cotas com desconto, o investidor pode lucrar não só com o carrego (o retorno de manter o investimento na carteira) como também com a valorização das cotas, cujos preços de mercado tendem a convergir para o valor patrimonial.

Mas se as cotas estão descontadas, isso não significa que os FI-Infras estão muito arriscados?

De fato, o mercado de crédito privado vem passando por fortes pressões. A Selic elevada por tempo prolongado tem pesado sobre a dívida das empresas mais alavancadas e deteriorado sua saúde financeira.

Também temos visto uma série de empresas pedindo recuperação judicial e extrajudicial, o que na prática resulta em calote dos seus títulos de dívida.

Tudo isso pressionou para baixo os preços dos títulos de crédito privado de forma geral, mesmo no caso de empresas que se mantiveram saudáveis.

No mercado de debêntures incentivadas, porém, a questão foi outra: enquanto pairava no ar o risco de tributação dos investimentos de renda fixa hoje isentos de IR, a busca dos investidores por esses títulos (e pelos FI-Infras) foi muito intensa.

Com isso, os preços dos papéis subiram por conta da alta demanda, e os spreads — prêmios de rentabilidade em relação aos títulos públicos — ficaram apertados, uma vez que a isenção compensava pelo risco maior dos títulos privados.

Lembre-se de que, quando os preços de títulos indexados ao IPCA sobem, as taxas caem, e vice-versa.

Em um dado momento, contudo, o mercado de isentos precisou se ajustar, pois os spreads ficaram apertados demais, reduzindo a atratividade desses papéis em relação aos títulos públicos.

Assim, entre junho e agosto, vimos uma abertura desses spreads e uma queda nos preços das debêntures de infraestrutura — e, consequentemente, nas cotas de FI-Infras.

Soma-se a isso a forte volatilidade dos ativos negociados em bolsa de valores neste ano, não apenas as ações, mas também FIIs, ETFs e FI-Infras, ante as tensões geopolíticas globais, as pressões sobre inflação e juros no exterior e a corrida eleitoral no Brasil.

Risco fiscal, eleitoral e geopolítico pressiona a inflação e os juros futuros, pesando também sobre os juros pagos por títulos indexados à inflação, cujos preços caem, ao mesmo tempo em que as taxas sobem.

No momento de maior aversão a risco — entre junho e agosto, quando os títulos Tesouro IPCA+ estavam pagando 8% ao ano acima da inflação —, os descontos nos FI-Infras também atingiram máximas no ano, com a disparada dos juros futuros.

Por fim, os investidores tendem a sair de FI-Infras quando a distribuição de dividendos começa a diminuir, e isso foi observado de junho a agosto, com a desaceleração do IPCA. Em agosto, inclusive, o índice de preços foi negativo.

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Desconto diminuiu, mas ainda é atrativo

De lá para cá, a tensão nos mercados já diminuiu, com dados mais positivos de inflação que abriram a porta para mais cortes na taxa Selic e um favoritismo menor para o presidente Lula na corrida eleitoral, sinalizando uma possibilidade de alternância de poder e ajuste fiscal a partir do ano que vem.

Com isso, os juros dos títulos públicos atrelados à inflação diminuíram, os papéis se valorizaram um pouco e os descontos vistos nos FI-Infras também caíram.

Ainda assim, as remunerações desses fundos continuam muito atrativas, mesmo no caso daqueles que não têm alto risco de inadimplência nas suas respectivas carteiras.

Um levantamento rápido no site ETFs Brasil, que reúne informações sobre fundos listados na bolsa brasileira, mostra que hoje ainda existem 17 FI-Infras negociados abaixo do seu valor patrimonial, isto é, com desconto. Foram excluídos do levantamento aqueles fundos que têm apenas um cotista.

Destes, sete têm sido destacados por analistas da Empiricus e do BTG como fundos de carteira saudável e que, portanto, estão atrativos para o investidor.

Afinal, não é só porque está descontado que um ativo é atrativo; ele pode ter razões para estar descontado, com problemas na carteira.

Os fundos indicados pelas duas casas também são os maiores FI-Infras em número de cotistas dentre todos os que estão sendo negociados com desconto. Confira:

Fundo P/VP Desconto Dividend yield em 12 meses Retorno a.a. Quem recomenda  BDIF11  0,88  14%  14,08%  IPCA+ 14,41%  Empiricus e BTG  CPTI11  0,94  7%  15,68%  IPCA+ 11,40%  Empiricus e BTG  IFRA11  0,94  6%  12,27%  IPCA+ 9,05%  Empiricus  KDIF11  0,96  4%  14,05%  IPCA+ 10,48%  Empiricus e BTG  JURO11  0,96  4%  10,08%  IPCA+ 9,83%  Empiricus e BTG  CDII11  0,94  6%  16,39%  –  BTG  BODB11  0,92  9%  15,45%  ~IPCA+ 11%  BTG 
Fontes: ETFs Brasil, sites dos fundos, Empiricus e BTG Pactual. Dados de 18 de setembro de 2026, com exceção dos dados referentes ao JURO11, que são de 22 de setembro.

Repare que os descontos nas cotas atualmente variam de 4% a 14%. Segundo o estudo da Empiricus citado anteriormente, que considera um histórico desde 2021, quando o desconto ficava entre 2% e 5%, o retorno dos 12 meses seguintes superava os índices de referência do mercado entre 5 e 7 pontos percentuais.

No caso de deságios acima de 8%, a vantagem histórica foi ainda maior: na faixa de 7,5 a 11,8 pontos percentuais acima da referência em um ano.

Vantagens dos FI-Infras

Além da isenção total de impostos para a pessoa física e da possibilidade de ganhar mais na renda fixa do que nos ativos tradicionais (títulos públicos, CDBs, LCIs e LCAs), os FI-Infras têm outras vantagens.

A distribuição mensal de rendimentos é ideal para quem busca um investimento para renda. Lembrando que não são todos os investimentos de renda que fazem uma distribuição todos os meses.

Os fundos imobiliários, por exemplo, podem fazer pagamentos trimestrais ou semestrais, os títulos Tesouro IPCA+ que pagam cupom semestralmente, e ações que distribuiem dividendos podem ter diferentes periodicidades de pagamento.

Outra vantagem é o fato de que as carteiras dos FI-Infras em geral são bastante diversificadas, e o investimento inicial é de apenas uma cota, cujos preços geralmente não ultrapassam muito os R$ 100.

Ou seja, trata-se de uma maneira acessível de comprar uma carteira de debêntures incentivadas bastante diversificada, o que reduz o risco em relação a comprar apenas uma ou duas debêntures.

Soma-se a isso o fato de que cotas de grandes FI-Infras têm, de maneira geral, mais liquidez que as debêntures compradas diretamente, sendo mais fáceis e rápidas de vender.

Finalmente, os FI-Infras negociados em bolsa têm uma vantagem em relação àqueles que são fundos abertos, oferecidos em plataformas de investimento.

Fundos negociados em bolsa não permitem resgates. Para sair deles, o investidor precisa vender suas cotas para outro interessado. Após a venda, o investidor recebe seu dinheiro na conta 2 dias úteis depois.

Já os fundos de plataforma permitem resgates, o que obriga o gestor 1) a manter uma parte dos recursos em caixa para honrar os pedidos de resgate, em vez de investi-los em debêntures, mais rentáveis e/ou 2) vender ativos a preços que talvez não sejam os ideais para honrar esses resgates.

Além disso, muitos fundos abertos de debêntures incentivadas podem ter longos prazos de liquidação, justamente para que o gestor não precise vender ativos às pressas em caso de resgate, machucando o retorno do fundo. Esses prazos podem chegar a 30 ou 60 dias.

Assim, o fato de os FI-Infras serem negociados em bolsa protege a carteira do fundo e a sua rentabilidade de ondas de resgate que possam acontecer em momentos de estresse de mercado, por exemplo.

Atenção para os riscos!

Ainda que se trate de ativos de renda fixa, as debêntures incentivadas são títulos privados, o que significa que não têm o mesmo nível de segurança dos títulos públicos, que contam com garantia do governo federal.

Além disso, elas não contam com proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o qual garante outros títulos de renda fixa privada, como CDBs, LCIs e LCAs.

Assim, ao investir em FI-Infras, o investidor fica exposto ao risco de calote das empresas e projetos de infraestrutura que emitiram os títulos da carteira. Nesse sentido, a saúde financeira e o nível de alavancagem dos emissores importam, assim como sua nota de crédito (rating) e avaliações de analistas de crédito.

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Fonte: Seu Dinheiro

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