“Pode perder a força ou a fala”: queda em idosos pode causar sangramento cerebral que demora a dar sinais

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Por Júnior KamenachJornal Opção

“Pode perder a força ou a fala”: queda em idosos pode causar sangramento cerebral que demora a dar sinais

Uma queda aparentemente inofensiva pode provocar um sangramento no cérebro cujos sintomas aparecem apenas semanas ou até meses depois. O alerta é do neurocirurgião Marcos Spadoni, que explicou ao Jornal Opção como pequenos traumas podem levar ao desenvolvimento do hematoma subdural crônico, condição que exige atenção principalmente entre pessoas idosas.

Segundo o médico, o próprio envelhecimento provoca mudanças na estrutura cerebral que aumentam a vulnerabilidade a esse tipo de sangramento. Com o passar dos anos, o cérebro perde volume, enquanto o tamanho do crânio permanece o mesmo. Esse processo, chamado de atrofia cerebral, amplia o espaço entre o cérebro e as estruturas ao redor.

“O cérebro fica realmente com o tamanho menor, e o crânio, que é o osso, continua do mesmo tamanho. Então, o que acontece é que você tem um espaço a mais dentro do crânio, que antigamente era ocupado pelo cérebro, e agora fica preenchido mais por líquido”, explicou.

Com esse espaço maior, algumas veias ficam mais esticadas e, consequentemente, mais suscetíveis a rompimentos após um trauma. O sangramento pode ser pequeno a princípio e passar despercebido, mas continuar se acumulando lentamente.

“São sangramentos muito pequenos que, com o passar do tempo, vão se acumulando, formando o hematoma subdural crônico”, afirmou.

A evolução gradual é justamente um dos fatores que podem dificultar a identificação do problema. Quando os primeiros sinais aparecem semanas depois, o paciente e os familiares podem não associá-los a uma queda ou pancada na cabeça ocorrida anteriormente.

Sintomas podem ser confundidos com AVC ou envelhecimento

Os sinais variam conforme o tamanho do hematoma e a região cerebral pressionada pelo sangue acumulado. Em alguns pacientes, o quadro pode se manifestar de forma semelhante a um acidente vascular cerebral (AVC), com perda de força de um lado do corpo ou dificuldade para falar.

neurocirurgião Marcos Spadoni

Em outros casos, as mudanças são menos evidentes. Apatia, demora para responder, redução da interação e dificuldade para realizar tarefas habituais podem ser interpretadas pela família como alterações relacionadas à idade.

“Ele pode simular desde um AVC, o paciente perder a força de um lado do corpo ou perder a fala, ou simplesmente ficar mais apático, demorar mais para responder, ficar mais quieto, mais lento para fazer as atividades do dia a dia”, explicou Spadoni.

Dor de cabeça, mudanças de comportamento, apatia, lentidão, perda de força, alterações na fala e, em casos de hematomas maiores, convulsões estão entre os sinais que podem aparecer.

Outro fator que merece atenção é o uso de medicamentos anticoagulantes, comuns entre pessoas idosas para determinadas condições cardiovasculares. Como esses remédios interferem na coagulação do sangue, podem aumentar o risco de sangramento após um trauma.

Queda pode passar despercebida

Quando a família presencia uma queda com impacto na cabeça, Spadoni orienta que o idoso seja avaliado e, conforme indicação médica, submetido a uma tomografia de crânio para verificar se houve sangramento.

“Quando a queda é presenciada ou tem uma batida mais forte que a família presencia em casa, a gente recomenda sempre fazer uma tomografia inicial para ver se tem algum hematoma já, ou coágulo”, afirmou.

O neurocirurgião explica que, em seus pacientes, também costuma recomendar uma nova avaliação por imagem cerca de 30 dias depois, dependendo do caso.

“Eu recomendo meus pacientes sempre, depois de 30 dias, repetir essa tomografia para a gente ficar 100% tranquilo que, se tiver formando um coágulo, ainda esteja na fase inicial, que não precise de cirurgia”, acrescentou.

Nem sempre, porém, a família sabe que o trauma aconteceu. O idoso pode cair quando está sozinho, inclusive durante o banho, e não relatar o episódio. Nesses casos, o hematoma pode ser descoberto somente quando alterações neurológicas começam a surgir.

Tomografia ajuda a identificar hematoma

A tomografia computadorizada de crânio é o principal exame utilizado na investigação do hematoma subdural crônico. Em determinadas situações, a ressonância magnética também pode ser solicitada, mas, segundo Spadoni, a tomografia é suficiente para estabelecer o diagnóstico na maioria dos casos.

A identificação do hematoma não significa, necessariamente, que o paciente precisará passar por cirurgia. A escolha do tratamento depende de fatores como tamanho do sangramento, sintomas apresentados e grau de compressão do cérebro.

Quando o coágulo é pequeno, o acompanhamento pode ser clínico, com medicamentos e monitoramento da evolução.

“Existe o tratamento clínico, apenas com remédio, quando são coágulos pequenos. Então, a gente pode fazer algumas medicações que ajudam nessa absorção do coágulo”, explicou.

Hematomas maiores e que provocam compressão significativa podem exigir uma intervenção para retirar o sangue acumulado e reduzir a pressão dentro do crânio.

“Depois disso, tem a cirurgia, que são para coágulos maiores. A gente precisa realmente fazer aquele acesso no crânio para poder drenar esse coágulo e descomprimir a pressão de dentro do cérebro”, disse.

Procedimento pode evitar abertura do crânio em alguns casos

Entre as técnicas utilizadas atualmente está a embolização da artéria meníngea média. O procedimento minimamente invasivo busca interromper o fluxo sanguíneo para a membrana associada ao hematoma e pode ser indicado em casos selecionados.

Spadoni compara a estrutura do hematoma a um balão: existe uma espécie de cápsula envolvendo o conteúdo acumulado. Na embolização, o médico chega aos vasos responsáveis pela irrigação dessa membrana por meio de um cateter.

“O hematoma tem uma cápsula, como se fosse um balão d’água. Tem uma espécie de ‘borracha’ e, por dentro, o líquido, que é o coágulo propriamente dito”, explicou.

“O que nós fazemos é obstruir as artérias dessa cápsula sem precisar fazer corte, através de uma punção, de um cateterismo”, acrescentou.

De acordo com o neurocirurgião, em pacientes selecionados, a técnica pode permitir o tratamento sem a necessidade de uma cirurgia convencional.

“É um tratamento minimamente invasivo, indolor, que necessita apenas 24 horas de internação, e que a gente consegue tratar a grande maioria desses coágulos hoje sem precisar fazer o corte na cabeça”, afirmou.

A embolização também pode ser associada à drenagem cirúrgica quando o volume de sangue acumulado exige intervenção imediata. Nesse contexto, enquanto a cirurgia retira o hematoma e alivia a pressão, a embolização pode ser utilizada para reduzir o risco de recorrência.

“Esse tratamento pode ser também associado a coágulos grandes, em que tem que ser feita a drenagem de urgência. Então, se faz a drenagem e se faz a obstrução dessas artérias para diminuir a chance de que esse coágulo volte”, concluiu.que tem que ser feita a drenagem de urgência. Então, se faz a drenagem e se faz a obstrução dessas artérias para diminuir a chance de que esse coágulo volte”, concluiu.

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Fonte: Jornal Opção

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