Eu confesso: tive uma recaída na dependência do automóvel
Por Jornal Bicicleta — Brasil de Fato
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Neste espaço, o jornalista Rogério Viduedo vai discutir o uso da bicicleta sob a perspectiva do trabalhador, da trabalhadora, pois é uma ferramenta de transformação social e de combate tanto das mudanças climáticas quanto de doenças do coração e diabetes. Cidades que incentivam o uso da bicicleta têm menores índices de poluição e as pessoas têm uma saúde melhor. No entanto, não se pode esquecer que um ciclista também é pedestre e usuário de transporte público, temas que também serão abordados aqui.
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Não vou pedir perdão e nem vou fazer firulas: neste Dia Mundial Sem Carro, me declaro dependente do automóvel. Assim como é recorrente ao adicto do álcool, da nicotina, da cocaína, do jogo e outras drogas, tive uma recaída duradoura depois de acompanhar por mais de 15 meses a minha falecida esposa, Fernanda, nas inúmeras visitas a centros médicos e hospitais, onde enfrentava o câncer de ovário e as consequências que causaram a sua morte no último mês de junho.
Dirigi muito e, ao contrário de quando a vida era normal e eu ficava inconformado de ter que andar de carro na cidade, mesmo com ela ao volante, me resignei com a situação e, mesmo naqueles intermináveis engarrafamentos na Marginal do Tietê em sua companhia, mantive uma calma franciscana, uma vez que ficar puto por dirigir no trânsito paulistano — e isso ir contra minha convicção de que poderia fazer todos meus deslocamentos em bicicleta — não era nada comparado à luta a qual ela enfrentava com quimioterapias, radioterapias, antibióticos e demais sessões torturantes pelas quais foi submetida.
Ao invés de me converter naquele personagem, no Pateta, em um antigo desenho da Disney — no qual ele se transforma de um ser dócil em um animal urbano irracional, buzinando e xingando todos logo após sentar-se atrás do volante –, adotei a postura de tolerância, procurando respirar sempre que uma barbaridade era cometida por motoristas e motociclistas. Afinal, meu foco durante todos aqueles meses era não transferir para a Fê nenhuma paranoia urbana e deixá-la confortável comigo ao volante. Sinto que fiz todo o possível para que ela tivesse o melhor tratamento, e agora a vida segue. Eu não estou tão radical: quero ter algum conforto no tempo que me resta e saberei balancear o uso do automóvel com a bicicleta e transporte público.
Eu queria poder fazer tudo de bicicleta, mas a vida é o que é, e neste momento estou incumbido de uma tarefa temporária em que o carro é fundamental. Como não posso recusar dinheiro, aceitei, e vida que segue. E também não me recrimino de usar o Chevrolet para visitar amigos no domingo chuvoso ou ir àquele supermercado mais longe, onde tem melhores preços. Cada um sabe do seu próprio orçamento.
Mas não foi só o tratamento dela e o luto que me jogaram de volta no colo da carro-dependência; há toda uma frustração de não ter conseguido objetivos que imaginava estarem cumpridos neste momento. Um deles é a cidade de São Paulo ter abandonado as metas do Plano de Mobilidade e passar a tratar o uso de bicicletas como assunto pontual em vez de sistêmico. Começou em 2016, quando João Doria se elegeu prefeito e botou uma pedra em cima dos projetos de expansão de ciclovias e ciclofaixas. O sucessor, Bruno Covas, até que deu uma retomada e implantou cerca de 140 quilômetros, mas ele morreu e Ricardo Nunes, atual prefeito, preferiu investir na mobilidade por motocicletas, o que tem tornado a vida de quem pedala na cidade um inferno, pois não existe uma ciclofaixa que não seja invadida por motoqueiros, colocando nossa vida de ciclista em risco.
Imaginem isso. A gente lutou muito para termos esses mais ou menos 700 km e agora temos medo de usar a estrutura porque somos ameaçados de atropelamento por moto, e não só nas ciclofaixas (pintadas no asfalto), mas nas ciclovias (de concreto, separadas da via, como a da Faria Lima).
Particularmente, aqui no Jaguaré e Rio Pequeno (bairros com quase 200 mil habitantes), Ricardo Nunes posterga com gosto a criação da ciclovia da Ponte do Jaguaré, conexão aprovada pelo Fundurb (o fundo que gere o dinheiro das operações urbanas) há 10 anos, e que foi licitada, teve as obras realizadas apenas no canteiro central da Avenida Queiroz Filho sem concluir o que importava, em cima da ponte. Ela é a única via que liga esses distritos (que possuem uma boa infraestrutura de ciclovias) ao Parque Villa-Lobos, Ceagesp, Vila Leopoldina e Lapa (que também têm estrutura para bicicletas). Mas como chegar nelas com conforto e segurança se não conseguimos cruzar a ponte? E olha que, na contagem de ciclistas realizada pela Ciclocidade, passam por essa ponte cerca de 400 ciclistas nos horários de pico, número maior do que na ponte da Cidade Universitária, cuja ciclovia foi construída a partir da mesma licitação da Jaguaré.
Eu briguei muito por essa estrutura nas reuniões da Câmara Temática da Bicicleta, órgão vinculado ao esvaziado e inerte Conselho Municipal de Transportes e Trânsito. Os doutores que representam a prefeitura apresentaram várias desculpas para a não conclusão e ficou como ficou. Para cruzá-la, ciclistas precisam ir pelos passeios de ambos os lados, estreitos e irregulares, ou pela pista, enfrentando o tráfego pesado. Uma lástima.
Algumas pessoas vão dizer para eu contatar a vereadora cicloativista Renata Falzoni e pedir ajuda. Isso já foi feito. Só que cada uma tem suas prioridades. E tanto ela como seu staff são leitores desta coluna, conhecem todo o problema envolvendo aquela licitação que também não concluiu as estruturas previstas na avenida Mutinga, Rua Alvarenga e avenida Carlos Caldeira Filho. A turma lá conhece todos os problemas da infraestrutura cicloviária da cidade. Se não ajudam, é porque não querem.
Aproveito para deixar meu fraterno abraço para Kea Wilson, do StreetsBlog USA. Ela me motivou a escrever o tema desta coluna, pois também enfrentou a tarefa de cuidadora de pessoa com câncer — no caso dela, seu pai –, e escreveu um comovente relato da própria dependência de carro e da consequente mudança de opinião dos rumos de uma reforma do transporte nos Estados Unidos. No artigo, relata que viajava até 160 km por dia para levar o pai a médicos na zona rural do estado de Ohio e que, diante daquela situação, ela, editora do maior portal de mobilidade ativa do país, precisou rever algumas posições, pois sentiu na pele como as cidades dos Estados Unidos não estão preparadas para transportar pessoas com mobilidade reduzida para os cuidados da saúde. A ativista não liga a mínima para as pessoas que possam de alguma maneira criticá-la por fazer uso do automóvel, pois não conseguiria dar dignidade ao pai se tivesse que depender de qualquer outro tipo de transporte. Não serei eu a julgá-la.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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Fonte: Brasil de Fato