Zuenir não terminou
Por Washington Araújo — Brasil 247
Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira, no Rio de Janeiro, aos 95 anos. Uma pneumonia silenciou o homem, não a voz. Ela permanece em cada página na qual o Brasil se viu sem maquiagem, mas também sem desespero. Zuenir sabia que a notícia mais dura poderia ser contada com delicadeza. Tinha a rara coragem de encarar o abismo sem perder a confiança nas pessoas.
Nascido em Além Paraíba, nas Geraes, Zuenir foi pintor de paredes, contínuo, faxineiro e balconista. Enquanto cursava Letras Neolatinas, tornou-se arquivista noturno da Tribuna da Imprensa. Em 1956, faltava à redação alguém que escrevesse sobre Albert Camus. Ofereceu-se. O texto abriu-lhe a porta: a do jornalismo.
Esses seus primeiros ofícios não diminuem sua biografia; ao contrário, revelam a matéria de que ela foi feita. O que torna um homem grande não é o primeiro crachá, mas aquilo que ele decide fazer com as mãos. Nesta despedida, ninguém precisará lembrar que Zuenir pintou paredes, foi contínuo, faxineiro e balconista.
Como jornalista, porém, Zuenir Ventura pintou um mundo em que a liberdade fazia-se tão essencial quanto o oxigênio que respiramos; seguiu contínuo na intermitência obstinada com que abraçava ideais pacifistas; permaneceu faxineiro ao limpar das crônicas as areias do tempo, trazendo-lhe frescor de novos tempos, devolvendo-lhes incontáveis sopros de vida. E, como Octavio Malta, também posso imaginá-lo respondendo a uma pergunta dessas que só São Pedro para fazer: “Não me vendi.”
E essa certidão vale mais que qualquer epitáfio.
Uma bolsa levou-o ao Centre de Formation des Journalistes, em Paris. De volta, foi editor internacional do Correio da Manhã, diretor de Fatos & Fotos, chefe de reportagem de O Cruzeiro e editor-chefe de Visão. Passou ainda por Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo. Era formador. Ensinava sem humilhar, corrigia sem esmagar, ouvia antes de decidir.
Ele dizia: “Nós não somos juízes ou promotores, mas testemunhas de nosso tempo.” Eis uma definição ética do ofício: ver, apurar, compreender e contar. Lição aprendida, lição vivida.
1968, o ano que não terminou
Zuenir conheceu a ditadura também por dentro de uma cela. Depois do AI-5, ele e Mary foram presos. Ela ficou detida cerca de um mês; ele, três. Dessa experiência não fez pedestal nem vingança. Fez memória.
O título contém uma das grandes intuições de nossa literatura política. Um ano termina no calendário, mas pode continuar agindo nos subterrâneos de uma nação. Em Zuenir, 1968 não aparece como álbum de juventude. É experiência contraditória: coragem e ilusão, festa e medo. Ao narrar a morte de Edson Luís, a Passeata dos Cem Mil, o espetáculo de Roda Viva e a violência que desembocaria no AI-5, ele não empilha acontecimentos. Organiza tensões. Sabe que história sem pessoas é relatório e que personagens sem contexto viram caricaturas. Por isso o livro permanece: cada geração o abre procurando 1968 e acaba encontrando perguntas sobre seu tempo, o preço da liberdade quando o poder abandona os limites.
Publicado em 1988, 1968: O Ano que Não Terminou reuniu precisão documental e ritmo de romance. Vendeu mais de 400 mil exemplares, alcançou dezenas de edições e inspirou Anos Rebeldes. Sua escrita prendia porque não exibia erudição: iluminava personagens, recriava ambientes e fazia o leitor respirar dentro da cena. “Meu tempo é hoje”, gostava de repetir. Para ele, o passado só importava quando interrogava o presente.
Vigário Geral e a cidade partida
Após a chacina de 1993, Zuenir frequentou Vigário Geral por cerca de dez meses. Não visitou a favela como turista da miséria.
Conviveu, escutou, reviu preconceitos e encontrou trabalhadores submetidos ao tráfico e abandonados pelo Estado. Dali nasceu Cidade Partida, livro que chamou de “crônica noir” e que recebeu o Jabuti.
“Um mundo onde a República não chegou” não é uma frase de efeito; é um diagnóstico. República, ali, significa escola que funciona, polícia que protege, justiça que não seleciona pela cor e endereço, saneamento, trabalho e direito de voltar vivo para casa. Zuenir percebeu que o Rio não estava dividido. Havia uma fronteira moral separando os que podiam exigir direitos dos que aprendiam a sobreviver sem eles.
Sua prosa cresce porque recusa duas facilidades: romantizar a pobreza e criminalizar o pobre. Ele observa traficantes, moradores, policiais e militantes sem apagar responsabilidades. Cidade Partida prende o leitor porque seu autor entra na comunidade a verificar fatos e sai transformado pelo que viu, ouviu e precisou rever.
Ao escrever que encontrara “um mundo onde a República não chegou”, condensou numa frase o fracasso brasileiro. Sua denúncia, porém, não retirava humanidade de ninguém. Zuenir enxergava pessoas onde estatísticas costumam ocultá-las. Acompanhou também a mobilização que gerou o Viva Rio. De 1993 a 2026 terá o Rio infelizmente encontrado melhor definição que Cidade Partida?
Chico Mendes, crime e castigo
Em 1989, a série O Acre de Chico Mendes rendeu-lhe os prêmios Esso e Vladimir Herzog. Quinze anos depois, voltou ao caso em Chico Mendes: Crime e Castigo. O título dialoga com Dostoiévski, um de seus autores prediletos, mas a pergunta era brasileira: que castigo existe quando o crime nasce protegido pela estrutura do poder?
O livro é construído em três movimentos — o crime, o castigo e quinze anos depois. Zuenir acompanha a engrenagem dos mandantes, o julgamento e a memória do seringueiro. Como em Dostoiévski, o delito não cabe no Código Penal: abre uma investigação sobre culpa, consciência e responsabilidade. Mas aqui não estamos na São Petersburgo de Raskólnikov. Estamos no Acre, onde a floresta tinha preço, os homens armados tinham patrões e a lei chegava atrasada. Chico Mendes deixa de ser santo e recupera sua densidade. A grandeza de Zuenir está em mostrar que a Amazônia não é paisagem desabitada: é território de vidas, conflitos econômicos, resistência comunitária e projetos antagônicos de futuro para o Brasil inteiro.
A reportagem tornou-se gesto humano. Temendo pela vida do menino que testemunhara o assassinato, Zuenir levou-o ao Rio e o acolheu. Ali, o repórter atravessou a fronteira entre observar e proteger. Não comprometeu a verdade; confirmou que nenhuma verdade jornalística vale muito se ignora a vida concreta diante de nós.
Minha tarde no Jornal do Brasil
Eu tinha 22 anos, trabalhava no Banco do Nordeste e cursava Direito. Gostava de escrever. Meu primeiro artigo sairia em 5 de dezembro de 1982, ocupando página inteira do Jornal do Brasil. Nos dias anteriores, discuti com o diretor Walter Fontoura a pauta sobre direitos humanos no Irã. Foi então que conheci Zuenir.
Não esqueci aquela sala porque iniciações dispensam cerimônia. Eu chegava com a inquietação de quem publicaria; Zuenir me recebeu sem medir currículo. A pauta iraniana exigia cuidado: denunciar a perseguição religiosa sem reduzir um país milenar a estereótipos, explicar a revolução sem justificar seus abusos, aproximar do leitor um drama distante. Ele me ajudou a encontrar esse equilíbrio. Tantas centenas de artigos depois, sempre me volto àquele primeiro artigo daquela edição dominical do JB, então o principal e mais importante jornal brasileiro.
Hoje compreendo que ensinar jornalismo não é entregar fórmulas, mas fazer a pergunta que obriga o outro a enxergar melhor.
Enquanto os repórteres entravam em sua sala, vi uma redação respirar em torno dele. Não distribuía certezas; aprimorava dúvidas. Talvez tenha sido essa a sua pedagogia: formar autonomia, não seguidores, e despertar consciência sem sufocar a voz.
O mundo olhava para o país persa como volta a olhar agora, 45 anos depois. A revolução dos aiatolás completara três anos e a perseguição às minorias religiosas era brutal. Zuenir sugeriu caminhos para tratar de direitos humanos num país ainda pouco compreendido no Brasil. Foi paciente e generoso.
Enquanto conversávamos, jornalistas entravam e saíam de sua sala. Queriam aprovação para uma pauta, um título, o melhor enfoque de apuração. Ele sempre respondia a todos.
Guardei aquela imagem: o homem que entendia que só aprende quem ensina. “O cronista escreve mais com os olhos do que com a cabeça”, diria depois. Naquela sala, seus olhos trabalhavam por muitos.
O mestre de muitas redações
Zuenir formou jornalistas de esquerda e de direita porque ensinava método, ética, curiosidade e respeito ao fato. Mas já posso antever a diferença das despedidas: os que aprenderam com ele o compromisso progressista estarão verdadeiramente comovidos; alguns representantes da direita neoliberal talvez ofereçam condolências, e serão todas elas não mais que burocráticas.
A maneira como se lamenta uma partida diz menos sobre quem partiu do que sobre quem ficou.
Desde cedo ouvimos alguém dizer: “Fulano morreu.” A frase é corriqueira. Um sujeito inteiro — infância, amores, medos, escolhas, gestos — cabe subitamente em duas palavras. Mas o que chamamos morte talvez seja a incapacidade de nossos olhos alcançarem a continuidade de uma presença. Zuenir partiu; no entanto, permanece no repórter que confere uma informação, no editor que protege o texto sem mutilar o autor, no jovem que recusa trocar consciência por conveniência. Sua morte me toca porque não se despede apenas um grande nome, mas uma maneira digna de estar no mundo. A biologia encerra a respiração; a obra contraria o silêncio. Alguns mortos desaparecem. Outros, como Mestre Zu, continuam fazendo perguntas aos vivos.
Ele dizia possuir “uma coisa hoje fora de moda chamada otimismo” e esperava que, ao morrer, ela estivesse novamente na moda. Não sei se conseguimos atender ao desejo. Sei que sua esperança nunca foi ingenuidade; era resistência esclarecida. A meu jeito, carrego comigo grandes estoques de otimismo: recuso-me a ser amargo, me dizer como realista quando na realidade estou sendo pessimista. Não, há que voltar à estação do otimismo, porque mesmo escuro, nos dizia o poeta, insistamos em cantar.
Em 2015, Zuenir ocupou na Academia Brasileira de Letras a cadeira de Ariano Suassuna. Levou para a ABL a mesma leveza das redações e o humor de quem não confundia reconhecimento com importância pessoal. Continuou olhando o Brasil com espanto, rigor e ternura. Aliás, Zuenir é um grande contraponto a Merval Pereira na Casa de Machado de Assis.
Hoje me sinto privilegiado por ter sido seu contemporâneo e por ter recebido, ainda jovem, sua atenção. Sua paixão pelo jornalismo era arrebatadora. Sua generosidade, silenciosa. Sua escrita, clara sem ser simples, elegante sem afetação, indignada sem perder a medida.
O ano termina para todos. O que você nos ensinou, não. Mestre Zu, siga na paz.
Fonte: Brasil 247