O dia em que Zuenir Ventura me convidou para trabalhar no Rio de Janeiro

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Por Euler de França BelémJornal Opção

O dia em que Zuenir Ventura me convidou para trabalhar no Rio de Janeiro

Zuenir Carlos Ventura nasceu em Além Paraíba (Minas Gerais) — 1º de junho de 1931, e morreu no Rio de Janeiro — 22 de setembro de 2026

Em 1989, eu trabalhava no jornal “Diário da Manhã”, na Avenida 24 de Outubro, no bairro Campinas, nas proximidades do Estádio Antônio Accioly (do Atlético Goianiense) e do Cemitério Santana — a alegria e a tristeza.

Certo dia daquele ano, não me recordo o mês, estava terminando de escrever (ou editar) uma reportagem, quando uma jovem da portaria — havia um telefone lá — me procura, na redação, e diz: “Um tal de Zuenir quer falar com você”.

Zuenir Aventura 500 capa 1968 capa original
1ª edição do clássico de Zuenir Ventura | Foto: Jornal Opção

Estranhei, pois não conhecia nenhum Zuenir. Mas deixei minha mesa e fui à portaria. Atendi o telefone. “É o Zuenir, do Rio de Janeiro.” Ah, um prazer falar com o sr. Ainda assim, desconfiado, fiquei com a impressão de que era trote. Não era.

Zuenir Ventura me contou que o jornalista Washington Novaes — com quem eu havia editado um livro-caderno sobre a Ferrovia Norte-Sul, na segunda metade da década de 1980 (com a participação de Britz Lopes, Fábio Nasser, Carmo Bernardes, Eloí Calage e Antônio Soh) — havia lhe passado o telefone do jornal.

Aí acreditei que era mesmo Zuenir Ventura. O jornalista, que eu admirava, queria comentar minha resenha do livro “1968 — O Ano Que Não Terminou”, cuja primeira edição é de 1989 (o livro, publicado há 37 anos, ainda resiste, dada a qualidade das informações e do texto do escritor).

Zuenir Aventura 500 capa de 1968 o ano que não terminou
Nova edição do livro de Zuenir Ventura | Foto: Jornal Opção

Zuenir Ventura comentou que havia apreciado a resenha, sobretudo do apontamento dos erros. Ele garantiu que iria corrigir todos e, inclusive, pediu “desculpas” pelas falhas. Nunca chequei se fez as correções.

Mestre Zu perguntou sobre minha formação e gostou de saber que, além de formado em Jornalismo (o paraninfo da minha turma foi Washington Novaes), eu era formado em História e havia iniciado o curso de Filosofia (sou da primeira turma da UFG, a de 1981. Marilena Chauí deu a aula inaugural).

Ao final da conversa, Zuenir Ventura me disse: “Washington Novaes, meu amigo, recomendou muito você. Se quiser, venha para o Rio de Janeiro e eu me encarrego de achar um local para você trabalhar, talvez no ‘Jornal do Brasil’. Pode ficar na minha casa, inicialmente”.

Dias depois, conversei com Washington Novaes, que na época circulava entre Goiás e o Rio de Janeiro — seu documentário “Xingu: A Terra Mágica”, de 1985, era e é extraordinário — , e comentei sobre a conversa com Zuenir Ventura.

Washington Novaes: o jornalista escreveu na “Folha”, em “O Globo”, trabalhou na TV Globo, foi editor do “Diário da Manhã” e foi premiado internacionalmente | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Com sua voz baixa e seu jeito ponderado, Washington Novaes disse: “Se você quiser ir, eu recomendo. Zuenir será um bom guia para você no Rio”.

Orientado por Washington Novaes, fui à sala da Batista Custódio e disse: “Vou para o Rio de Janeiro”. Com jeitão bravo e falando alto, o editor-geral do “Diário da Manhã” retrucou: “Menino, você está querendo é aumento de salário”. Expliquei que não era bem assim.

Eu tinha 27 anos, e não era mais um garoto. Estava mesmo disposto a trocar Goiânia pelo Rio de Janeiro. Mas, no dia seguinte, Batista Custódio me chamou à sua sala e, na presença do jornalista Luiz Contart, disse: “Menino, é o seguinte. Vou aumentar seu salário e, daqui uns dois meses, a gente volta a conversar sobre sua mudança para o Rio. Tudo bem?”

Concordei com Batista Custódio e acabei não indo para o Rio. Nunca mais falei com Zuenir Ventura. Li todos os seus livros, que não mais resenhei. Mestre Zu escrevia muito bem. Era um escritor nato e nunca perdeu sua alma de repórter tão agudo quanto preciso.

Culpo alguém por não ter ido para o Rio de Janeiro? Ninguém, talvez a mim. Talvez.

Batista Custódio: editor do “Cinco de Março” e do “Diário da Manhã” | Foto: Reprodução

Continuei conversando com Washington Novaes. Nós tínhamos o hábito de ler o “Estadão” e a “Gazeta Mercantil”. O ex-editor do “Diário da Manhã” escrevia, sempre com alta qualidade, nos dois jornais. Aprendi com ele a prestar mais atenção nos assuntos de meio ambiente.

O arquivo do “Diário da Manhã” está no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Uma boa alma, como Carlos Higa e Jales Mendonça — o executivo que transformou o IHGG num verdadeiro centro de pesquisa e encontros acadêmicos-intelectuais (com mostras extraordinárias) —, poderia localizar minha resenha.

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Fonte: Jornal Opção

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