Não é nojo: por que alguns gatos ficam de boca aberta depois de cheirar algo
Por Gabriel Correa — Catraca Livre
O gato aproxima o focinho de um sapato, de uma marca deixada por outro animal ou de um canto da casa e, de repente, congela com a boca entreaberta. A expressão parece nojo, surpresa ou até um pequeno sorriso, mas o animal não está julgando o cheiro. Ele está conduzindo moléculas odoríferas a uma estrutura sensorial especializada. O gesto, chamado reflexo de Flehmen, mostra que o olfato felino trabalha por caminhos mais complexos do que apenas inspirar pelo nariz.
O que acontece quando o gato abre a boca?
Ao fazer Flehmen, o gato eleva o lábio, mantém a boca parcialmente aberta e pode ficar imóvel por alguns segundos. Essa postura ajuda a levar substâncias químicas ao órgão vomeronasal, também conhecido como órgão de Jacobson. Localizada entre as cavidades nasal e oral, essa estrutura participa da análise de sinais químicos importantes para comunicação e reconhecimento do ambiente.
A VCA Animal Hospitals explica que o animal direciona odores e feromônios para esse sistema de maneira voluntária. Por isso, a cena costuma acontecer depois de uma cheirada cuidadosa. Não é exatamente “sentir gosto do cheiro”, embora a boca participe do processo. É uma via sensorial complementar, observada também em cavalos, grandes felinos e outros mamíferos.
Quais cheiros costumam provocar o reflexo?
Marcas de urina, objetos tocados por outros animais e locais onde um gato esfregou o rosto podem concentrar informações químicas. Machos e fêmeas apresentam Flehmen, e o comportamento não fica restrito à reprodução. Uma novidade trazida da rua, uma caixa usada por outro felino ou uma superfície muito investigada podem despertar a resposta.
O contexto costuma seguir uma pequena sequência:
- O gato encontra um cheiro que merece investigação mais detalhada.
- Aproxima o focinho e pode tocar ou lamber levemente a superfície.
- Ergue o lábio e deixa a boca aberta por alguns segundos.
- Permanece concentrado enquanto processa os sinais químicos.
- Fecha a boca e retoma a exploração sem demonstrar desconforto.
Isso significa que ele achou o cheiro ruim?
Não. A aparência de careta leva humanos a projetar no gato uma sensação de repulsa, mas expressões faciais não têm tradução direta entre espécies. No Flehmen, a boca aberta faz parte da coleta de informação. Um animal relaxado, que volta à rotina logo depois, provavelmente realizou apenas uma investigação sensorial normal.
Observar o corpo inteiro evita confusão. Orelhas em posição habitual, respiração tranquila e ausência de salivação combinam com Flehmen. Este conteúdo sobre como o cheiro familiar influencia escolhas do gato ajuda a entender a importância do olfato sem transformar cada gesto numa prova absoluta de afeto ou rejeição.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Gatil Hauser, que fala sobre o órgão vomeronasal e mostra por que o gato parece sentir determinados cheiros com a boca aberta:
https://www.youtube.com/watch?v=EbB0XKcSzJo
Quando a boca aberta pode indicar outro problema?
Flehmen dura pouco e surge ligado a uma cheirada específica. Respirar de boca aberta sem esse contexto é diferente e pode ser urgente em gatos. Ofegação prolongada, esforço para puxar ar, movimentos intensos do abdômen, língua exposta, gengivas azuladas ou pálidas, fraqueza e salivação exigem atendimento veterinário rápido.
Dor oral, enjoo e contato com substâncias irritantes também podem mudar a posição da boca. Se o gato repete a expressão muitas vezes, perde o apetite, apresenta mau hálito forte, secreção ou dificuldade para mastigar, não presuma que seja apenas curiosidade. Registrar um vídeo curto, sem atrasar o socorro quando houver falta de ar, ajuda o profissional a distinguir os comportamentos.
O que esse gesto revela sobre a percepção felina?
O reflexo mostra que o ambiente doméstico contém mensagens invisíveis para as pessoas. Um corredor aparentemente neutro pode guardar marcas de passagem, estado reprodutivo e identidade de outros animais. Ao parar diante de um ponto e abrir a boca, o gato está extraindo dados de uma paisagem química que o nariz humano mal percebe.
A careta, portanto, não é nojo nem provocação. É uma ferramenta biológica precisa, usada por poucos segundos para investigar algo relevante. Entender essa diferença torna a convivência mais interessante e também mais segura: o tutor aprende a reconhecer um comportamento normal, mas não confunde a análise de cheiro com respiração ofegante ou sinal de doença. A duração curta e a ausência de esforço respiratório são pistas importantes nessa avaliação.
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Fonte: Catraca Livre