Com cracolândia pulverizada, casos graves de dependência química dobram no centro de São Paulo
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Apesar de o suposto fim da cracolândia ser explorado eleitoralmente pelas campanhas do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) à reeleição e do deputado federal Guilherme Derrite (PP) ao Senado, o fluxo de dependentes químicos no centro de São Paulo registrou um aumento expressivo no número de casos de alta complexidade em 2026, aponta a Folha de São Paulo.
Dados do relatório do programa municipal anticrack revelam que o total de dependentes químicos sob acompanhamento intensivo das equipes de saúde na região central chegou a 447 no primeiro semestre de 2026. O indicador representa mais do que o dobro do apurado nos primeiros cinco meses de 2025, quando haviam 222 pessoas mapeadas nessa condição.
Denominados pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) como casos Mais Vulneráveis (MV), esses cidadãos acumulam a dependência severa de substâncias ilícitas a comorbidades clínicas graves — tais como tuberculose, HIV e transtornos psiquiátricos —, além de possuírem um longo histórico de recusa a tratamentos de reabilitação. Entre os meses de janeiro e junho de 2026, os profissionais municipais de saúde realizaram 3.965 abordagens direcionadas exclusivamente a este grupo no centro da capital paulista, resultando em uma média de nove atendimentos individuais por pessoa ao longo do semestre.
O encerramento oficial da aglomeração da cracolândia foi decretado pelas gestões estadual e municipal em maio do ano passado, momento em que a concentração de usuários que ocupava a rua dos Protestantes, no bairro de Campos Elíseos, se desfez. O episódio passou a ser utilizado no marketing eleitoral de Tarcísio, que exibe imagens do antigo ponto de uso transformado em praça com equipamentos esportivos e parque infantil. No início de julho de 2026, Tarcísio e Nunes inauguraram oficialmente a Praça do Triunfo no endereço revitalizado, ao lado do deputado estadual André do Prado (PL), candidato ao Senado.
Especialistas, contudo, apontam os desdobramentos negativos da estratégia. Clarice Madruga, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do Levantamento de Cenas de Uso em Capitais (Lecuca), explica que a desarticulação de um ponto central de aglomeração faz com que os usuários passem a se reunir em pequenos grupos dispersos para fazer o consumo do crack.
Segundo estudos do Lecuca — levantamento publicado anualmente desde 2016 e que baliza os critérios oficiais de identificação de cenas de uso —, até 2024 houve um crescimento contínuo de 20% ao ano na entrada de novos dependentes nas ruas paulistanas. “A torneira nunca fechou”, afirmou a pesquisadora. “Existe uma prevalência alta de pessoas com transtornos no Brasil de forma geral e uma carência muito grande de equipamentos que cuidem dessas pessoas antes que cheguem nesse grau tão grave de abandonar a família e ir para uma cena de uso”.
Procurada, a gestão de Ricardo Nunes argumentou que os atendimentos prestados pelas equipes de Assistência Social caíram 24,5% com o esvaziamento da rua dos Protestantes, passando de 26.077 no primeiro semestre de 2025 para 19.694 no mesmo período de 2026. A administração paulistana justificou que a atuação foi intensificada em outros locais do centro após a dispersão dos grupos e reiterou que “a dependência de álcool e drogas é um problema que afeta grandes cidades em todo o mundo”, ressaltando a continuidade do serviço público oferecido à população em situação de rua.
Na esfera da segurança pública, apreensões de entorpecentes e prisões continuaram ocorrendo de forma recorrente na área central. A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informou a apreensão de 550 quilos de drogas na região entre janeiro e julho deste ano. Já a Guarda Civil Metropolitana (GCM) relatou ter apreendido 814 quilos no primeiro semestre de 2026 — volume menor do que os 1,8 mil quilos retirados de circulação em 2025, quando o fluxo da rua dos Protestantes estava ativo. Quanto aos detidos, a GCM conduziu 206 suspeitos a delegacias entre janeiro e junho de 2026, ante 234 conduzidos em igual período do ano anterior.
Por sua vez, o governo de Tarcísio de Freitas declarou em nota que a desmobilização do antigo fluxo permitiu a ampliação das ações de vigilância e apoio social, com cerca de 2 mil policiais militares atuando no monitoramento ostensivo dos locais de uso de drogas.
Apesar do encerramento do grande ponto de concentração, a persistência de dependentes químicos e a atuação de pequenos traficantes em núcleos menores continuam sendo registradas em vídeo e relatadas por moradores da região central.
O psiquiatra Artur Guerra, que chefiou o programa municipal anticrack entre os anos de 2017 e 2022 e atualmente atua como diretor do Instituto Perdizes do Hospital das Clínicas, destaca que a dependência química exige atenção contínua. “É um problema crônico e enraizado. Houve uma migração da cena de uso para outros locais onde, de uma certa forma, a abordagem deveria ser mais eficiente”, avaliou o médico.
Fonte: Brasil 247