A viagem de Lula a Nova York foi estratégica e irá garantir o reconhecimento à sua vitória

0

Por Leonardo AttuchBrasil 247

A viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Nova York, para a abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, deve ser compreendida para além de seu discurso na ONU. Ela teve uma dimensão diplomática evidente, relacionada à defesa do multilateralismo, da soberania e de uma ordem internacional baseada no diálogo. Mas teve também uma dimensão política importante: Lula ampliou pontes com forças relevantes da sociedade norte-americana num momento em que o Brasil se aproxima de uma eleição presidencial muito disputada.

É justamente esse segundo aspecto que merece atenção.

Lula chegou a Nova York para fazer seu décimo discurso de abertura de uma Assembleia Geral da ONU. O Brasil, por tradição, será o primeiro país a falar nesta terça-feira, seguido pelos Estados Unidos. O contexto internacional é particularmente complexo, marcado por guerras, tensões entre grandes potências e pelo enfraquecimento das instituições multilaterais. A defesa do multilateralismo e da soberania brasileira, portanto, não é apenas retórica diplomática. É uma posição política sobre como o mundo deve funcionar.

Mas Lula fez algo mais.

Antes de subir à tribuna das Nações Unidas, encontrou-se com duas figuras de grande projeção no campo progressista dos Estados Unidos: o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o senador Bernie Sanders. Com Mamdani, discutiu custo de vida, pobreza, políticas públicas, democracia e combate ao extremismo e à desinformação. O prefeito nova-iorquino afirmou que Lula é uma inspiração para as políticas sociais que pretende desenvolver em sua cidade.

Com Bernie Sanders, a conversa teve dimensão ainda mais ampla. Foram discutidos multilateralismo, paz, desigualdade, inteligência artificial, situação dos trabalhadores e até o Sistema Único de Saúde brasileiro. Sanders também defendeu que as forças progressistas norte-americanas apoiem a autodeterminação do Brasil.

Nada disso é irrelevante às vésperas da eleição brasileira.

Lula está disputando um quarto mandato e o primeiro turno será realizado em 4 de outubro. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos caminham para suas eleições legislativas de novembro, em que Trump, hoje extremamente impopular, provavelmente será derrotado. Brasil e Estados Unidos vivem, portanto, processos eleitorais simultâneos em um ambiente internacional altamente polarizado.

É nesse contexto que a passagem de Lula por Nova York se torna especialmente estratégica.

Donald Trump é presidente dos Estados Unidos e mantém proximidade política com Flávio Bolsonaro. O governo brasileiro, segundo reportagens publicadas antes da Assembleia Geral, acompanha com preocupação a possibilidade de interferências externas no processo político brasileiro. A soberania nacional, por isso, tornou-se um dos eixos previstos para o discurso de Lula na ONU.

Não se sabe qual será a atitude de Trump diante do resultado da eleição brasileira. Seria precipitado afirmar antecipadamente que ele reconhecerá ou deixará de reconhecer uma eventual vitória de Lula. Mas uma democracia madura não pode depender da vontade de um único governante estrangeiro.

É aí que a agenda de Nova York ganha significado.

Os Estados Unidos são muito maiores do que a Casa Branca. Existem o Congresso, os governos estaduais e municipais, os partidos, os sindicatos, as universidades, a imprensa, os movimentos sociais e uma sociedade civil extremamente diversificada. Construir canais de diálogo com esses diferentes atores é uma política inteligente para qualquer governo brasileiro.

Mamdani governa a cidade mais importante dos Estados Unidos. Sanders, embora independente, é uma das figuras mais influentes do campo progressista norte-americano e mantém forte interlocução com o Partido Democrata e com movimentos sociais. Ao conversar com ambos, Lula estabelece pontes que ultrapassam a relação formal entre Brasília e Washington.

Essas pontes podem ser particularmente importantes depois da eleição.

Se Lula vencer no primeiro ou no segundo turno, um reconhecimento rápido e inequívoco do resultado pelas principais forças políticas e institucionais internacionais contribuirá para reforçar a normalidade democrática brasileira. Nesse cenário, as relações construídas com lideranças democratas e progressistas nos Estados Unidos poderão ter peso político, independentemente da posição que venha a ser adotada por Trump.

Não se trata de pedir autorização externa para uma decisão que pertence exclusivamente aos brasileiros. É exatamente o contrário.

O princípio fundamental deve ser o da autodeterminação. Quem escolhe o presidente do Brasil é o povo brasileiro. Aos demais países cabe respeitar a decisão expressa nas urnas e manter relações institucionais com o governo legitimamente escolhido.

Por isso, a diplomacia presidencial precisa trabalhar antes das crises, e não apenas depois delas.

Lula compreende essa lógica. Enquanto mantém os canais institucionais com o governo Trump, amplia simultaneamente o diálogo com outros polos de poder da sociedade norte-americana. É uma forma de diversificação diplomática semelhante àquela que o Brasil busca em sua política externa global: conversar com todos sem se subordinar a ninguém.

Há ainda uma dimensão simbólica importante. Lula e Trump discursarão na mesma manhã diante da Assembleia Geral. Representam visões distintas sobre vários aspectos da ordem internacional. Lula chega à ONU enfatizando multilateralismo, soberania e cooperação. Trump tem defendido uma política externa mais unilateral e centrada nos interesses norte-americanos.

O contraste estará colocado diante do mundo.

Independentemente do resultado eleitoral brasileiro, a passagem por Nova York fortalece uma ideia essencial: o Brasil precisa estar conectado a todas as correntes relevantes da política internacional e preservar sua autonomia.

Se Lula vencer a eleição, seja no primeiro turno, seja no segundo, caberá às instituições brasileiras proclamar o resultado e ao mundo respeitá-lo. Quanto maior for a rede internacional comprometida com esse princípio democrático, menor será o espaço para qualquer tentativa externa de colocar em dúvida a soberania do voto brasileiro.

Foi por isso que a viagem de Lula a Nova York foi estratégica. E foi por isso que foi tão importante neste momento histórico.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *