Em conversa com Sanders, Lula minimiza risco de interferência dos EUA nas eleições
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)afirmou ao senador estadunidense Bernie Sanders que não há, neste momento, indícios de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, embora não tenha descartado a possibilidade de uma tentativa de ingerência. O chefe do Executivo ressaltou que o Brasil permanece vigilante, especialmente em relação às redes sociais.
As declarações foram feitas durante um encontro de cerca de 40 minutos entre Lula e Sanders nesta segunda-feira (21), em Nova York, segundo a coluna da jornalista Priscila Yazbek, na CNN Brasil. De acordo com fontes que acompanharam a reunião, o senador perguntou diretamente ao presidente brasileiro se havia preocupação com algum tipo de interferência dos EUA no processo eleitoral.
Lula respondeu que não existem sinais concretos de ingerência neste momento, mas indicou que o governo acompanha a situação e não descarta que uma tentativa possa ocorrer.
O assunto está no centro das preocupações manifestadas pelo governo brasileiro às vésperas das eleições. Horas antes do encontro com Sanders, Lula havia adotado um tom mais enfático ao tratar da questão durante entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN.
Preocupação com Marco Rubio
Na entrevista, Lula afirmou haver “indícios de interferência de inteligência artificial” e manifestou preocupação especificamente com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, em razão de sua proximidade com integrantes da família Bolsonaro.
“Já há indícios de interferência de inteligência artificial, eu estou muito preocupado com o Marco Rubio, porque o Marco Rubio é muito ligado ao pessoal do bolsonarismo, mas, por enquanto, é só suspeita”, declarou Lula.
O presidente também reiterou que as eleições brasileiras devem ser decididas exclusivamente pelos brasileiros e disse ter tratado diretamente do tema com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Eu já disse ao presidente Trump, é o seguinte, é muito importante que os Estados Unidos não se metam nas eleições do Brasil”, afirmou Lula.
Segundo o presidente brasileiro, Trump afirmou a interlocutores que não pretende se envolver no processo eleitoral do Brasil. Lula disse considerar positiva essa postura e ressaltou que também não cabe ao Brasil interferir nas eleições estadunidenses.
Abin alertou sobre risco de interferência
A discussão ocorre poucos dias depois da divulgação de um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre o tema. O documento foi enviado no fim de agosto ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A Abin elevou a possibilidade de influência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras a um “nível de criticidade”. O relatório também apontou uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e uma “intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA”.
O documento analisou ações e documentos do governo Trump e indicou que a hegemonia dos Estados Unidos na América Latina é uma prioridade da atual administração estadunidense.
Inteligência artificial e extrema direita entram na pauta
A conversa entre Lula e Sanders foi além das eleições brasileiras. Durante o encontro, os dois manifestaram preocupação com o avanço da extrema direita no mundo e defenderam uma governança multilateral para enfrentar os riscos relacionados à inteligência artificial.
O tema da IA ganhou espaço especial diante das discussões internacionais sobre o impacto das novas tecnologias nos processos políticos e eleitorais.
Lula e Sanders também conversaram sobre a necessidade de reformas no Conselho de Segurança das Nações Unidas e defenderam maior participação de jovens e mulheres na política em diferentes níveis.
O encontro ocorreu em Nova York, onde Lula participa da Assembleia Geral das Nações Unidas. A reunião com Sanders integrou uma agenda que também incluiu encontros com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, e com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani.
“Aqui tem 165 anos de juventude”
Durante a conversa, Lula fez uma brincadeira sobre a idade dos dois políticos. “Aqui tem 165 anos de juventude”, disse o presidente.
Sanders é senador por Vermont e disputou duas vezes as primárias presidenciais democratas, tornando-se uma das figuras mais conhecidas do campo progressista nos Estados Unidos.
Segundo a reportagem. Sanders afirmou a Lula que, se o brasileiro vencer a eleição, seria convidado a discursar no Congresso dos Estados Unidos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS).
O senador também disse acreditar que os democratas vencerão as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
Reforma da ONU e participação política
Lula e Sanders defenderam ainda mudanças na governança internacional. Entre os temas discutidos esteve a reforma do Conselho de Segurança da ONU, pauta defendida há anos pela diplomacia brasileira.
Os dois também ressaltaram a importância de ampliar a presença de jovens e mulheres na política.
A passagem de Lula por Nova York ocorre às vésperas de seu discurso na Assembleia Geral da ONU. O governo brasileiro pretende utilizar as últimas grandes agendas internacionais anteriores às eleições para reforçar a defesa da soberania e a posição contrária a interferências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro.
Fonte: Brasil 247