Miliciano condenado no caso Marielle recebeu verbas de gabinete de Flávio Bolsonaro
Por Abayomi Abebe — Esquerda Diário

Nessa semana, veio à tona que 199 mil reais foram destinados diretamente do gabinete do Flávio Bolsonaro para Calixto, miliciano condenado por seu envolvimento no assassinato de Marielle Franco (PSOL-RJ).
Robson Calixto é ex-assessor e foi homem de confiança de Domingos Brazão, estando relacionado a atividades de exploração imobiliária irregulares em áreas de influência de milícias. Domingos foi identificado como um dos mandantes do assassinato de Marielle Franco, condenado junto com seu irmão e outras figuras, como o próprio Calixto, no começo desse ano. Agora, são reveladas trocas de mensagem entre o assessor condenado e o gabinete de Flávio Bolsonaro, onde Flávio é carinhosamente chamado de “nosso senador” e chegou a cobrar diretamente da assessora do parlamentar por emendas logo antes de sofrer buscas pela PF em 2024.
“Consultamos as destinações parlamentares e não tinha nada do nosso senador, porém estamos no aguardo” foi a mensagem identificada no celular do miliciano para a assessora de Bolsonaro. E essa não foi a única mensagem comprometedora, já que foi identificado que um pedido anterior de repasse de emenda, do final de 2023, foi atendido. O recurso, no valor de 199 mil reais, foi destinado a uma entidade localizada no bairro Taquara no Rio de Janeiro, de influência dos irmãos Brazão. O Tribunal de Contas da União já detectou que contratações com suspeitas de irregularidades foram feitas utilizando a emenda de Flávio.
A intimidade na conversa era mais que recíproca: “Amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar”, Calixto em mensagem encaminhada a Maria de Fátima, assessora parlamentar de Flávio; “Manda a solicitação meu amigo. Um e-mail ou ofício”, respondeu Maria de Fátima. Em outra conversa, Maria de Fátima pergunta a Calixto se ele ainda está com “o deputado Brazão”, provavelmente Chiquinho Brazão, completando com “temos um evento. Vc vai também e já reforça o pedido com senador”. Após esse diálogo, foi encaminhado um convite para o parlamentar participar de uma cerimônia de entrega de 396 coletes balísticos para a PM do Rio de Janeiro. Para fechar com chave de ouro, a assessora ainda insiste: “leva o deputado”.
O evento aconteceu, o repasse aconteceu, as movimentações suspeitas se concretizaram. Tudo isso passando por diversas instituições do Estado, entre elas a PMRJ, TCE-RJ e o Senado Federal. É mais uma amostra de como funciona a política burguesa: um emaranhado de relações espúrias entre políticos, milícias e empresários, atravessando em diversos níveis as instituições do próprio Estado. Num momento onde o imperialismo tenta tomar o controle da política na América Latina usando de discursos contra o “crime organizado” e o “terrorismo”, é representativo que seu cachorrinho brasileiro mais proeminente nas pesquisas seja exposto em suas ligações com as milícias. É uma demonstração clara de que não se preocupam nem um pouco com qualquer combate ao crime organizado, pelo contrário, a extrema direita racista se apoia na agressão imperialista para impulsionar seu discurso de guerra às drogas, que é tão lucrativa.
Esse tipo de revelação só mostra a necessidade de puxar o fio até o final! É necessário que se investigue toda a cadeia de comando política e os interesses econômicos envolvidos no assassinato da Marielle. A impunidade de agentes estatais, especialmente militares, é um traço histórico da formação social brasileira, desde a ditadura até hoje, não podemos confiar que o mesmo judiciário que garante essa impunidade, que articulou o golpe em 2016 e interferiu nas eleições em 2018 abrindo caminho para Bolsonaro e seus compadres milicianos, que mantém e aprofunda cada ataque contra os trabalhadores e que está envolvido até o talo no caso Vorcaro e no escândalo do Master vá realmente investigar até o final esse escândalo.
O caso Marielle é uma ferida muito mal fechada do golpe institucional, com seus mandantes e executores presos, mas com a cadeia de comando política e as mais diversas teias de relações ainda nas sombras, aparecendo a conta-gotas. A revelação dessas trocas de mensagens mostram que, mesmo com a condenação dos mandantes e executores, ainda é atual e urgente a reivindicação por uma luta que imponha uma investigação independente de todo o caso, que o Estado financie e libere o acesso a toda as provas reunidas até então! Só assim poderemos descobrir e trazer à tona a história por completo, com toda a cadeia de responsáveis pelo assassinato de Marielle, com suas motivações econômicas e políticas.
Fonte: Esquerda Diário