Por oteroFundação Perseu Abramo

Entre dezembro de 2025 e julho de 2026, o Núcleo de Opinião Pública, Pesquisas e Estudos da Fundação Perseu Abramo (NOPPE/FPA) conduziu a pesquisa Brasil em Movimento, que busca compreender as percepções da população brasileira sobre diferentes temas da conjuntura, como economia, trabalho, desigualdades, segurança pública e avaliação de governo. A investigação combinou duas metodologias. A primeira etapa, qualitativa, foi composta por 96 entrevistas em profundidade com residentes dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. A segunda, quantitativa, contou com uma amostra nacionalizada com 2.017 entrevistas.

Nas duas as etapas, os entrevistados foram organizados a partir de três tendências atitudinais: duas delas do campo polarizado – uma pró-Lula e a outra anti-Lula – e uma terceira formada pelos chamados “não polarizados”, isto é, aqueles que não pertencem de maneira consistente a nenhum dos dois campos. Com base nessa segmentação, o objetivo central foi apresentar um panorama geral das percepções atribuídas aos temas tratados e a avaliação da atuação governamental.

Entre os três grupos, destacam-se os não polarizados que, além de compor uma parcela significativa do eleitorado brasileiro, é, também, os que menos apresentam homogeneidade discursiva. Diferente dos polarizados, seus posicionamentos não se organizam de maneira consistente em torno de uma identificação ou da rejeição de uma liderança política. Na Brasil em Movimento, foi identificado que o que aproxima esses entrevistados não é necessariamente um conjunto permanente de opiniões, mas sim uma relação de menor interesse na política, de rejeição ao conflito político e avaliações que podem oscilar de acordo com o tema colocado. Na etapa qualitativa, no entanto, temas mais próximos da experiência cotidiana – como a pauta da segurança pública, trabalho, renda e desigualdade – despertaram maior envolvimento.
Resultados da pesquisa

​Os resultados da pesquisa conduzida pelo NOPPE mostram que, entre os não polarizados, as avaliações políticas estão fortemente atravessadas pelas experiências cotidianas, sobretudo em relação às temáticas do trabalho, renda e custo de vida. Entre os mais jovens (de 16 a 24 anos), ganham destaque relatos sobre estresse, sobrecarga, baixos salários e a dificuldade de conciliar o trabalho com outras atividades. Entre os mais velhos, surgem com maior força problemas relacionados ao custo de vida, renda insuficiente e a necessidade de buscar renda-extra. O que há em comum entre ambos os grupos etários é a percepção dos efeitos da inflação no encarecimento das despesas essenciais, especialmente nos preços dos alimentos.

​Os dados quantitativos reforçam esse achado. Entre o núcleo não polarizado, 55% afirmam que o dinheiro recebido pela família é insuficiente. Alimentação e supermercado aparecem como a despesa de maior dificuldade para 17%, seguido por empréstimos, dívidas e cartão de crédito, com 16%, e aluguel, para 13%. Ao mesmo tempo, 59% consideram que, em comparação com três anos atrás, hoje há mais oportunidades de emprego no Brasil. Estes dados, quando analisados conjuntamente, sugerem que a ampliação das oportunidades de trabalho podem coexistir com a insatisfação com a qualidade dos empregos.

​Nesse mesmo sentido, as jornadas de trabalho são vistas com criticidade pelos não polarizados. Entre os entrevistados deste grupo, 89% já ouviram falar da proposta de redução da escala 6×1 e, destes, 69% afirmam concordar com a redução da jornada sem diminuição salarial. A elevada adesão à proposta dialoga diretamente com os relatos trazidos na etapa qualitativa acerca da sobrecarga, longas jornadas e a falta de tempo para desempenhar atividades fora do trabalho.

​Quando questionados sobre as desigualdades, os não polarizados apresentam uma lógica semelhante. Isto é, possuem uma leitura que associa as desigualdades mais as condições materiais: 57% afirmam que a escolaridade afeta muito as oportunidades ao longo da vida, mesmo percentual atribuído à deficiência, enquanto 55% pontuam a renda. Na etapa qualitativa, a renda e a escolaridade são consideradas as formas de desigualdades mais facilmente reconhecidas e também como aquelas percebidas como mais próximas da experiência cotidiana dos entrevistados. Para diminuir as desigualdades, a 37% da parte não polarizada da amostra atribui a responsabilidade à sociedade como um todo e 36% aos governos. Aqui, as saídas individuais possuem menor adesão: apenas 21% pontuam ser dever do próprio indivíduo.

Com base nos dados apresentados, é possível dizer que os eleitores do perfil não polarizado não devem ser compreendidos como um eleitorado sem posições definidas, mas sim como um grupo cuja relação com a política é menos estruturada por identidades partidárias e mais sensível às experiências concretas do cotidiano. O pragmatismo é visto sobretudo nas temáticas do trabalho, renda, custo de vida, desigualdades e com a percepção sobre a capacidade do governo de solucionar esses problemas.

Essas características auxiliam a explicar por que as opiniões aparentemente contraditórias coexistem dentro do grupo. É possível reconhecer avanços do governo e, ao mesmo tempo, manter críticas à condução da economia; perceber que houve um aumento de oportunidades de emprego e continuar insatisfeito com os baixos salários e jornadas exaustivas; aprovar determinadas políticas públicas sem que isso se converta em uma identificação político-partidária.

Para o cenário eleitoral de 2026, os não polarizados representam um campo fundamental a ser analisado. Com base no que mapeamos, é possível localizar esta camada no contingente de votos brancos/nulos e nos indecisos, mas também no alinhamento momentâneo e não consolidado a algum dos candidatos da disputa presidencial. Por não apresentarem vínculos políticos definidos, suas escolhas permanecem mais abertas e dependentes da capacidade dos candidatos em dialogar com as preocupações do grupo. De acordo com a pesquisa Datafolha do dia 17 de setembro, por exemplo, 21% do eleitorado não declara voto na pergunta espontânea (quando não é apresentada lista de candidatos e candidatas). O número aumenta entre as mulheres (26%), o eleitorado com menor renda (24%), a população fora da PEA (24%) menor escolaridade (26%), evangélicos (25%), os sem preferência partidária (35%) e na região Sul (26%). Compreender esse segmento exige, por fim, entender quais são os problemas prioritários e trazer respostas programáticas capazes de produzirem efeitos concretos no cotidiano.

REFERÊNCIAS
FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. Brasil em Movimento – Etapa Qualitativa. São Paulo, 2026a (Relatório interno)
FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. Brasil em Movimento – Etapa Quantitativa. São Paulo, 2026b (Relatório interno)

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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