Bolsonaro, Washington e a campanha: a sequência de contatos nos EUA

0

Por gutoalvesFundação Perseu Abramo

O alerta da Agência Brasileira de Inteligência sobre o risco de interferência externa nas eleições brasileiras chega depois de meses de aproximação entre integrantes da família Bolsonaro, aliados políticos e representantes do governo Donald Trump. Desde março, episódios ocorridos nos Estados Unidos colocaram a eleição brasileira, decisões do Supremo Tribunal Federal, sanções a autoridades e a segurança pública entre os assuntos levados diretamente a interlocutores americanos.

O primeiro movimento explícito ocorreu em 28 de março. Durante a Conservative Political Action Conference (CPAC), no Texas, Flávio Bolsonaro afirmou que não desejava interferência estrangeira nas eleições, mas pediu aos Estados Unidos e a outros países que acompanhassem o processo eleitoral brasileiro, monitorassem a liberdade de expressão e exercessem “pressão diplomática” sobre as instituições nacionais.

“Meu apelo aqui, não apenas aos Estados Unidos, mas a todo o mundo livre, é: acompanhem as eleições do Brasil com enorme atenção”, disse. Flávio também pediu que fosse aplicada pressão diplomática para, segundo ele, garantir eleições “livres e justas”.

Do Texas ao Salão Oval

Dois meses depois, a relação avançou para o centro do governo americano. Em 26 de maio, Flávio Bolsonaro foi recebido por Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca. Também participaram da agenda Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.

Segundo a Reuters, Flávio afirmou depois da reunião que foram discutidos temas como crime organizado, tarifas comerciais e minerais críticos. Trump também perguntou sobre Jair Bolsonaro, então preso após condenação por participação na tentativa de golpe de Estado.

A reunião ocorreu no momento em que a segurança pública passava a ocupar espaço crescente nas relações entre os dois países. Dias depois, o governo Trump classificou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. O governo brasileiro criticou a decisão unilateral e afirmou que “a soberania nacional é inegociável”.

O tema interessa diretamente ao relatório da Abin agora revelado, que identifica justamente segurança, sanções econômicas e medidas diplomáticas entre os instrumentos capazes de gerar pressão sobre o Brasil durante o período eleitoral.

Eduardo e Figueiredo voltam ao governo Trump

A interlocução continuou às vésperas da eleição. Nos dias 16 e 17 de setembro, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo voltaram a cumprir agendas em Washington. Os dois se reuniram com integrantes do Departamento de Estado e disseram ter mantido também conversas com interlocutores da Casa Branca.

Entre as pautas apresentadas estava o pedido para que o governo Trump retomasse sanções da Lei Global Magnitsky contra Alexandre de Moraes e estendesse medidas a outros ministros do Supremo, como Flávio Dino e Gilmar Mendes.

Eduardo e Figueiredo também disseram às autoridades americanas acreditar que integrantes do STF poderiam tentar impedir ou anular uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Não apresentaram evidências públicas de que exista esse plano. A alegação foi feita pelos próprios dois durante a passagem por Washington.

A movimentação ocorreu menos de três semanas antes do primeiro turno.

O dinheiro de Dark Horse

Outro elo entre integrantes da família Bolsonaro e estruturas sediadas nos Estados Unidos apareceu nas investigações sobre Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro estrelada pelo ator americano Jim Caviezel.

Flávio Bolsonaro admitiu ter buscado junto ao banqueiro Daniel Vorcaro recursos para financiar o projeto. Mensagens obtidas nas investigações indicaram uma promessa de investimento de US$ 24 milhões. Flávio afirmou que a negociação era privada e negou qualquer contrapartida política ou irregularidade.

A produção também envolveu estruturas empresariais e financeiras americanas. A Go Up Entertainment LLC, responsável pelo projeto nos Estados Unidos, esteve sediada na Carolina do Norte, segundo apuração da BBC News Brasil. Documentos divulgados pelo Intercept mostram ainda participação do Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos, na movimentação dos recursos destinados ao filme.

Não há evidência pública de que o financiamento de Dark Horse esteja relacionado ao risco de interferência eleitoral apontado pela Abin. O episódio integra, porém, o conjunto de conexões políticas, empresariais e financeiras entre integrantes da família Bolsonaro e atores sediados nos Estados Unidos que antecede o alerta da inteligência brasileira.

Flávio nega ajuda americana

Na quinta-feira, 17, depois da divulgação de um documento segundo o qual os Estados Unidos haviam incluído condições relacionadas às eleições brasileiras nas negociações diplomáticas de 2025, Flávio Bolsonaro negou qualquer apoio do governo Trump à sua candidatura.

“Não existe ajuda do governo americano. Essa narrativa não vai colar”, afirmou. “Quem resolve a eleição é a gente aqui.”

As negativas convivem com uma sequência documentada de pedidos de pressão diplomática, reuniões com Donald Trump e integrantes de seu governo e articulações de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo por sanções contra autoridades brasileiras. É nesse ambiente que a Abin produziu o relatório encaminhado ao Planalto, ao TSE e ao Ministério da Justiça sobre ameaças externas ao processo eleitoral de 2026.

Fonte: Fundação Perseu Abramo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *