Mulheres no coco de roda: Mestra Beba Lima
Por Memórias e Poéticas Pluri-versas Antirracistas — Brasil de Fato
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A coluna tem por objetivo comunicar narrativas, memórias e práticas culturais e interculturais em torno de processos pedagógicos e psicossociais – considerando a intersecção de raça, gênero e sexualidade – da Comunidade Colaborativa Afro-Ameríndia – COCAM/RECOSEC/UFPB, sob orientação e coordenação da professora Luz Santos em parceria com o Núcleo de Estudos e Pesquisas E’LEEKO/UFPel/UFRGS. A COCAM (antiga RECOSEC) é um projeto que existe desde 2012 e segue como princípios: práticas colaborativas, educação popular, o diálogo interepistêmico e a educação para o Bem Viver. Visa construir e desenvolver ações inter e transdisciplinares relacionadas à assessoria e incentivo à promoção de políticas com foco na educação intercultural, nos municípios da região do Vale do Mamanguape e em outras regiões do Brasil.
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Pisei no cantinho que vovô pisou para dançar coco de roda, pode me chamar que eu vou… (Trecho de Coco de Roda, composição de Mestra Beba).
É pedindo licença para pisar que vamos adentrar o terreiro da comunidade quilombola Caiana dos Crioulos, localizada no município de Alagoa Grande (PB). É lá, pertinho do Reino Encantado, que reside Josefa Maria, mais conhecida como Beba, ou Beba Lima ou Mestra Beba. Atuante no movimento de mulheres negras, cuidadora do Museu Vivo da comunidade de Caiana que carrega a história do coco de roda e da ciranda, agricultora, mãe, zabumbeira e compositora.
Sua trajetória com o coco de roda inicia muito cedo, aos sete anos, acompanhando seu avô que tocava triângulo nas brincadeiras tradicionais do quilombo. A partir daí surge o interesse pela cultura. Começa tocando triângulo assim como seu avô. Ensaiando com um “estribo” dos cavalos e uma colher. Como ela conta:
“Na época, quando eu era pequena, ainda caminhava com meu avô. E eu fui tomando gosto pelo pela cultura. Desde que eu comecei a tomar gosto e quando chegava em casa eu começava a tocar nas bacias, cadeirão, balde, né? O triângulo eu fazia com estribo, aquele estribo de cela de burro onde a gente coloca os pés. Eu pegava uma colher e ficava treinando em casa. Foi assim que eu aprendi. Aí fui crescendo e tomando gosto pela cultura, pelo coco de roda”, relata Mestra Beba, em entrevista concedida ao projeto de extensão Comunidade Colaborativa de Mulheres Afro-brasileiras e Ameríndias (Cocam), ligado à Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Por amor à cultura, Mestra Beba participou por muito tempo de forma voluntária, sem compor nenhum grupo. Recebendo posteriormente os convites para integrar os grupos: As Caianas e Brilho do Coco.
Sobre o grupo As Caianas ela conta:
“Eu comecei com as Caianas. Inclusive que a gente foi para Goiás. Criamos as caianas, que é um grupo de mulheres, de sete mulheres. Fomos para Goiás, que na época eu tinha um medo danado de participar porque eu não tinha saído para cantar. Eu não me sentia segura de ser zabumbeira, né? E na época a gente subiu no palco lá em Goiás com aquela multidão de gente e eu insegura. Mas depois que eu cheguei lá em cima e comecei a tocar e o povo começou a dançar, eu esqueci que tava lá em Goiás e comecei a bater zabumba. E aí ficou a zabumbeira aqui do Quilombo Caiana dos Crioulos. Eu amo tocar zabumba!”.
É muito bonito ver o amor com que a Mestra fala sobre a brincadeira do coco de roda e da ciranda. Trazendo sempre a importância de manter viva a tradição. Nesse intuito, faz questão de transmitir seus conhecimentos para a juventude. Participando de forma ativa em projetos voltados ao compartilhamento de saberes. Apesar das dificuldades enfrentadas por conta do racismo, do machismo e dos preconceitos atribuídos à tradição, Mestra Beba tem na brincadeira um momento de celebração e agradecimento às conquistas comunitárias.
Perguntada sobre as inspirações para a composição das toadas de coco de roda, Mestra Beba nos diz:
“A composição vem também trazendo uma raiz das nossas ancestralidades, que as nossas composições antigas dos nossos cocos foi tudo feita daqui da comunidade de fatos reais, né? Por exemplo, o meu avô, ele contava um coco que ele ficou viúvo, aí pegou e se apaixonou de novo. Na hora da roda do coco, ele olhou para uma moça lá. Ele disse: ‘Eu caso com você, ô morena’. Aí pronto, saiu a palavra chave e saiu a composição. Eu tô aqui seguindo os passos, né? Os passos do meu avô. Uma das primeiras composições minhas foi inspirada no meu avô, que eu canto que é essa que diz assim: ‘Pisei no cantinho que vovô pisou para dançar coco de roda, pode me chamar que eu vou’ e aí vai.”
Mestra Beba ainda fala sobre o desejo de reavivar a tradição das bandinhas de pífanos que acompanhavam as novenas e faziam a abertura da brincadeira do coco, tocando em conjunto. Já está empenhada em aprender a tocar o “pife”, podemos aguardar novidades vindo por aí, muito em breve.
*Camila da Conceição Magalhães é brincante e pesquisadora da cultura popular, graduanda do curso de antropologia com habilitação em antropologia visual na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Atualmente é extensionista bolsista no projeto Cocam.
**Este texto faz parte de uma série de artigos que terão como protagonistas mestras do coco Potiguara. Leia o primeiro artigo aqui.
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Fonte: Brasil de Fato