ONU recebe carta sobre o risco de interferência dos EUA nas eleições brasileiras
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – O Instituto Vladimir Herzog enviou ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, uma carta em que alerta para o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. O documento, encaminhado em 19 de setembro, pede que os países-membros reconheçam o resultado das urnas no Brasil, qualquer que seja o vencedor.
A carta cita uma série de medidas adotadas pelo governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, em relação ao Brasil e afirma que a pressão de Washington pode atingir o processo eleitoral brasileiro.
O documento também menciona um alerta da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), segundo o qual uma eventual ingerência norte-americana nas eleições do Brasil chegou a “nível de criticidade”. Para o instituto, a possibilidade de governos estrangeiros não reconhecerem o resultado eleitoral brasileiro poderia alimentar redes de desinformação e fortalecer movimentos internos de contestação às urnas.
A carta sustenta que a comunidade internacional deve respeitar tanto o resultado proclamado pelas instituições eleitorais brasileiras quanto a autonomia de missões internacionais de observação. O pedido central é que a ONU e seus países-membros atuem para preservar a soberania do processo democrático brasileiro.
Entre os episódios apontados pelo Instituto Vladimir Herzog como sinais de pressão norte-americana está a lista de 21 exigências feita pelos Estados Unidos ao Brasil durante negociações relacionadas ao tarifaço. Uma das demandas, segundo o documento, envolvia a permissão para a participação de “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras. A proposta não avançou no campo diplomático.
O instituto também cita tarifas impostas a produtos brasileiros e sanções contra autoridades do país. Outro ponto mencionado é a classificação, pelos Estados Unidos, de facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Na avaliação apresentada na carta, esse tipo de medida poderia ser usado como justificativa para uma ação norte-americana em território brasileiro.
O documento ainda lembra a tentativa de envio ao Brasil de dois assessores do governo Trump que, segundo a carta, pretendiam questionar o sistema eleitoral brasileiro. Os vistos foram negados pelo governo brasileiro. Os Estados Unidos negam qualquer tentativa de interferência e afirmam que a visita teria caráter regular.
A preocupação com a política norte-americana para o Brasil também foi registrada dentro dos próprios Estados Unidos. A carta cita manifestação de parlamentares democratas, entre eles Linda Sánchez e Adriano Espaillat, que, acompanhados de 48 congressistas, enviaram em dezembro do ano passado uma carta a Trump condenando ataques à democracia brasileira e ingerência na política nacional.
No trecho mais duro do documento, o Instituto Vladimir Herzog afirma ver risco de que instrumentos econômicos, diplomáticos e políticos sejam usados para favorecer aliados da administração norte-americana no Brasil.
“Em nossa avaliação, existe um risco que precisa ser considerado seriamente: que essas ferramentas sejam utilizadas para influenciar o ambiente eleitoral brasileiro em benefício de atores politicamente alinhados à administração estadunidense e que, caso o resultado das urnas seja contrário a essa expectativa, a estratégia se desloque para uma segunda etapa — a alegação de fraude, a deslegitimação das instituições e o eventual não reconhecimento do resultado”, diz o texto assinado por Rogério Sottili, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog.
Fonte: Brasil 247