Jovem perde movimentos após passeio em montanha-russa do Hopi Hari
Por Laís Gouveia — Brasil 247
247 – Uma jovem perdeu parte dos movimentos do corpo após andar na montanha-russa Montezum, no Hopi Hari, em Vinhedo, no interior de São Paulo. O caso, que terminou com diagnóstico de traumatismo cranioencefálico e sete cirurgias, passou a ser investigado pelo Ministério Público de São Paulo, que solicitou uma perícia na atração.
As informações foram reveladas pelo Fantástico, da TV Globo. Júlia Bossoni, moradora de Londrina, no Paraná, visitava o parque com João Pedro Bossoni em abril quando passou mal depois de andar pela segunda vez no mesmo dia na Montezum, considerada a maior montanha-russa de madeira da América Latina.https://x.com/xtinohenri/status/2101838476534551011
O casal havia usado a atração pela manhã sem registrar problemas. Mais tarde, após receber uma passagem VIP, retornou à montanha-russa. Imagens do parque mostram Júlia consciente durante a subida inicial. Cerca de dois minutos depois, quando o carrinho voltou à plataforma, ela estava desacordada.
“Ela já estava inconsciente, já estava convulsionando e nesse momento você fica desesperado, não sabe o que fazer”.
Funcionários do parque retiraram a jovem do brinquedo e a colocaram em uma maca. Júlia foi encaminhada à Santa Casa de Vinhedo, onde deu entrada diretamente na Unidade de Terapia Intensiva. Exames identificaram hemorragia intracraniana e um edema cerebral de grandes proporções, quadro que levou os médicos a realizarem uma cirurgia de emergência.
“Foi uma craniectomia descompressiva. Essa cirurgia visa a retirada de uma grande porção da calota craniana para permitir o cérebro fazer esse processo de inchaço”, diz o neurocirurgião Victor Batistela.
Júlia permaneceu internada por 57 dias. De acordo com o laudo médico citado pela reportagem, ela sofreu traumatismo cranioencefálico provocado por um mecanismo de contragolpe durante o percurso na montanha-russa.
“Apenas um movimento brusco de aceleração e desaceleração e rotação do crânio pode fazer a ruptura de vasos sanguíneos cerebrais, causando uma hemorragia intracraniana e levando a um edema cerebral, que foi o caso da Júlia em especial”.
Segundo a família, Júlia não apresentava doenças preexistentes antes do episódio. Cinco meses depois, ela ainda enfrentava limitações importantes e seguia em processo intensivo de reabilitação. João Pedro relatou que a jovem perdeu completamente os movimentos do braço e da perna esquerdos, além de apresentar dificuldades de fala e alterações de memória.
O Ministério Público de São Paulo abriu uma investigação para apurar o episódio e solicitou uma perícia policial na Montezum. Paralelamente, a família recorreu à Justiça para tentar esclarecer as circunstâncias do acidente. Desde o ocorrido, Júlia passou por sete cirurgias e realiza tratamentos de fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia.
“Minha única preocupação é ela estar bem. Ela voltar a ser independente, a ser feliz de novo, a sorrir, conseguir conversar, ser independente, ser forte, que nem ela sempre foi”, diz João.
Outros casos envolvendo a Montezum
O caso de Júlia não é o primeiro relato de lesão grave associado à Montezum. Em 2018, Nathalia Assenjo Motta sofreu um deslocamento de vértebras depois de andar na atração. A lesão exigiu a colocação de 12 pinos e duas hastes na região cervical. Ela recuperou os movimentos do corpo três dias depois, mas perdeu a mobilidade do pescoço.
“Conforme a montanha-russa desceu e subiu para fazer a curva, o meu pescoço fez o mecanismo de chicote, deu aquele estalo. Meu corpo desligou totalmente.”, relembra.
O Hopi Hari posteriormente pagou uma indenização por danos materiais a Nathalia. Ela afirma que continua submetida a tratamentos em razão das sequelas.
“Fisioterapias, hidroterapia que eu tive que pagar particular, que o plano não cobre. Eu tenho essas dores absurdas e preciso tomar remédios fortíssimos”.
Outro episódio ocorreu em 2014. Márcio, que trabalhava como motoboy, ficou tetraplégico depois de andar na Montezum. Segundo o advogado João Erhardt, houve rompimento de duas vértebras, e o laudo atribuiu o problema neurológico que levou à tetraplegia a um movimento de chicote. Márcio morreu em 2023 em consequência de complicações provocadas por uma infecção urinária.
A reportagem encontrou ainda ao menos 40 registros apresentados nos últimos dois anos por consumidores que afirmaram ter sofrido algum tipo de lesão depois de usar a Montezum. Entre as queixas estão dores no pescoço, problemas nos joelhos e fraturas de costelas.
O que diz o Hopi Hari
Em nota enviada ao Fantástico, o Hopi Hari informou que a Montezum possui certificação internacional do grupo TÜV Nord e é submetida a inspeções anuais. O parque afirmou também que cumpre as normas brasileiras aplicáveis a parques de diversão e mantém procedimentos diários de manutenção e segurança.
Segundo o parque, placas instaladas antes do acesso à atração e avisos sonoros informam aos visitantes que a Montezum é uma atração radical e apresentam contraindicações para pessoas com problemas de coluna, gestantes e pessoas com determinadas condições clínicas.
O Hopi Hari também citou uma manifestação do Ministério Público de agosto de 2026, produzida após outro episódio envolvendo uma visitante que apresentou dores no pescoço. Na ocasião, o parecer apontou não haver risco coletivo, defeito de projeto ou negligência na operação da montanha-russa e registrou a existência de protocolos de inspeção e manutenção.
Sobre Júlia, o parque afirma que ela recebeu atendimento imediato, foi encaminhada ao hospital e teve o tratamento acompanhado pela direção. A empresa diz ainda que custeou despesas durante o período em que a jovem permaneceu em Vinhedo e disponibilizou um seguro à família.
Em relação aos acidentes anteriores envolvendo Nathalia e Márcio, o Hopi Hari ressaltou que os episódios ocorreram antes de 2019, durante outra administração. O parque também afirmou que as cerca de 40 reclamações registradas em uma plataforma de consumidores representam uma parcela reduzida diante de aproximadamente 1,2 milhão de pessoas que passaram pela Montezum nos últimos dois anos.
Inaugurada em 1999, a Montezum tem aproximadamente 42 metros de altura, mais de um quilômetro de extensão e pode atingir velocidade de até 103 km/h. O Hopi Hari anunciou em janeiro uma reforma da atração prevista para o final de 2026.
Fonte: Brasil 247