Raquel Lyra expõem seu elitismo em fala racista sobre laqueadura
Por Maria Bandeira — Esquerda Diário

Neste domingo (20.09), começou a circular um vídeo governadora Raquel Lyra com um conteúdo elitista e racista, no qual ela fala sobre realizar um procedimento de laqueadura em uma mulher sem o seu consentimento, utilizando a seguinte frase: “Faz sem ela saber”. O vídeo começou a circular nas redes sociais em um contexto marcado pelas altas taxas de feminicídio em Pernambuco e pela vulnerabilidade enfrentada diariamente por mulheres que encontram dificuldades até mesmo para ter acesso a uma consulta básica de saúde.
No vídeo, durante uma conversa com pessoas do seu governo em uma inauguração de um hospital pediátrico, é mencionada uma mulher que teria sete filhos. Diante disso, Raquel Lyra afirma que deveriam fazer uma laqueadura “sem ela saber”. Trata-se de uma fala que expressa uma concepção profundamente racista sobre os corpos das mulheres e demonstra como o Estado burguês atua sobre esses corpos, sobretudo quando se trata de mulheres pobres e trabalhadoras.
Por que falar do procedimento de laqueadura como algo a se fazer sem a pessoa ter consciência tem um conteúdo racista?
Esse método foi utilizado pelo Estado brasileiro e pesquisadoras como Sueli Carneiro e Jurema Werneck desenvolvem sobre como esteve associado ao controle da reprodução das mulheres negras e indígenas. Historicamente no nosso país, a medicina e as políticas públicas trataram a fertilidade da mulher negra e pobre como um “problema social” a ser erradicado, submetendo as mulheres negras à esterilização definitiva como método de controle populacional, num projeto velado de “embranquecimento” da população.
Isso também precisa ser relacionado às condições concretas enfrentadas pelas mulheres em Pernambuco. Segundo dados divulgados pela Secretaria de Defesa Social (SDS), os feminicídios cresceram 15% em Pernambuco, atingindo o maior número dos últimos oito anos. Ao mesmo tempo, as dificuldades de acesso à saúde básica revelam uma realidade na qual as mulheres trabalhadoras estão submetidas diariamente a diferentes formas de brutal da violência e precarização do capitalismo. Casos como o de Paloma Alves, que sangrou até morrer no Hospital Tricentenário enquanto sofria com endometriose, evidenciam a gravidade da desumanização que pode ocorrer no atendimento à saúde das mulheres, e como a ilegalidade do aborto atinge as mulheres mesmo quando não é este o procedimento que está em discussão, uma vez que Paloma foi negligenciada justamente por ter seu caso enquadrado numa suspeita de aborto.
A política de Raquel Lyra também se aproxima de setores da extrema direita, como Clarissa Tércio, que esteve à frente de uma mobilização no CISAM para tentar impedir a realização do aborto legal de uma criança de 10 anos vítima de estupro. Ao seu lado também no governo está a Michele Collins (PP), bolsonarista e contrária ao aborto, que apresentou o PL nº 299/2022, com a proposta de instituir o “Dia Municipal do Nascituro”, posteriormente derrubada.
Isso mostra qual é o projeto e a política de Raquel Lyra: se alia à política da extrema direita que ataca principalmente as mulheres pobres, que estão entre as mais afetadas pela precarização dos serviços públicos e pelas diferentes formas de violência impostas pelo patriarcado e pelo machismo. São justamente essas mulheres que enfrentam diariamente as consequências da falta de acesso à saúde, da violência obstétrica e da tentativa constante de controle sobre seus próprios corpos. Por outro lado, João Campos do PSB não representa uma alternativa na defesa das mulheres, pois além de presidir o partido que esteve por quase 20 anos administrando a precarização em Pernambuco, também se posiciona contrário ao nosso direito a decidir sobre nossos corpos, mostrando que as oligarquias se unem quando se trata de atacar nossos direitos.
Por isso, esse tipo de fala não pode ser tratado simplesmente como um comentário isolado, como a governadora coloca em seu vídeo “arrependido”. Ele se insere em uma realidade mais ampla de violência obstétrica e de controle sobre os corpos das mulheres, que nos nega o direito ao aborto e também à maternidade, e que se mostra presente também dentro dos hospitais e dos serviços de saúde. Essa violência atinge sobretudo a população trabalhadora, que enfrenta a precarização, a desigualdade e a desumanização no atendimento.
São justamente essas mulheres que o capitalismo busca diariamente controlar, disciplinar e submeter à exploração. Por isso, esse governo da Raquel Lyra (PSD) demonstra que não é nenhuma alternativa contra a violência às mulheres, além de promoverem o aumento da precarização do trabalho e da vida. Com isso, é preciso organizar a nossa luta de maneira independente, sem depositar qualquer confiança nos governos e instituições do regime capitalista brasileiro. Somente através da nossa mobilização nas ruas, com a força da nossa luta, conseguiremos conquistar um plano de emergência eficaz contra o feminicídio, pela legalização do aborto e contra a crescente precarização do trabalho e da vida das mulheres.
Fonte: Esquerda Diário