China deixa de ser apenas a “fábrica do mundo” e avança como potência da inovação
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – A China atravessa uma transformação industrial que a leva da condição tradicional de “fábrica do mundo” para a de um dos principais centros globais de inovação tecnológica. Esse processo está em evidência na Convenção Mundial de Manufatura de 2026, aberta neste domingo (20) em Hefei, capital da província de Anhui, informa o Global Times.
Mais de 2 mil participantes chineses e estrangeiros foram atraídos pelo evento, que reúne dez áreas temáticas e uma exposição de 70 mil metros quadrados. Robôs humanoides, chips de memória, baterias de nova geração, inteligência artificial, computação quântica e biotecnologia estão entre as tecnologias apresentadas. Mais de 500 representantes estrangeiros participam da convenção, incluindo companhias dos Estados Unidos, França e Rússia.
O caso de Anhui sintetiza a mudança pela qual passa a economia chinesa. A província, historicamente associada à produção de eletrodomésticos, tornou-se um polo de indústrias tecnológicas, abrigando empresas como a fabricante de semicondutores ChangXin Memory Technologies (CXMT), a produtora de baterias Gotion High-Tech e a AiMOGA, divisão de robótica da montadora Chery. Hefei também abriga projetos avançados nas áreas de fusão nuclear e computação quântica.
Anhui simboliza nova fase da indústria chinesa
Para o economista Tian Yun, ouvido pelo Global Times, Anhui tornou-se um exemplo de como a ascensão da manufatura avançada pode transformar toda a estrutura econômica de uma região. Antes com menor destaque entre as províncias da China central, Anhui apresenta hoje forte dinamismo industrial e tecnológico.
A transformação está inserida em uma estratégia nacional mais ampla. Poucos dias antes da abertura da convenção, Pequim realizou uma conferência nacional dedicada à manufatura avançada. As prioridades incluem inteligência artificial, inteligência incorporada, tecnologias quânticas, biomanufatura e integração crescente entre a economia digital e a produção industrial.
Dados recentes reforçam essa mudança estrutural. Em agosto, a produção da indústria chinesa de alta tecnologia cresceu 16,7% em relação ao mesmo mês de 2025, enquanto a fabricação de equipamentos avançou 12,1%. A produção de robôs industriais aumentou 34,6% e a de baterias de íons de lítio, 57,2%.
China apresenta nova geração de chips
Um dos anúncios de maior destaque da convenção veio da CXMT. Luo Xiaodong, vice-presidente da companhia, anunciou o início da produção em massa da quinta geração da plataforma tecnológica de memórias DRAM da empresa.
A nova tecnologia permite fabricar circuitos menores e aumentar em pelo menos 50% o número de chips produzidos em cada wafer em comparação com a geração anterior, segundo a empresa. O ganho melhora tanto a eficiência energética quanto a competitividade dos custos de fabricação. Dois produtos destinados a smartphones e dispositivos portáteis já entraram em produção em massa.
A CXMT também apresentou fisicamente pela primeira vez seu chip LPDDR6, cuja produção em massa começou em agosto. A tecnologia já entrou em utilização comercial no smartphone dobrável Xiaomi 18 Fold.
Bateria promete mais de mil quilômetros de autonomia
Outro destaque foi apresentado pela Gotion High-Tech. A companhia lançou a bateria inteligente G-Yuan, que, segundo a empresa, oferece autonomia superior a mil quilômetros com uma carga completa.
A tecnologia também promete recuperar energia suficiente para percorrer 500 quilômetros depois de apenas nove minutos de recarga. Além dos automóveis elétricos, a companhia pretende utilizar a bateria em veículos voadores e robôs de alto desempenho.
O avanço simultâneo de diferentes tecnologias mostra como a estratégia chinesa procura integrar setores antes tratados separadamente. Automóveis elétricos, inteligência artificial, baterias, sensores e robótica passam a compartilhar componentes, fornecedores e conhecimento tecnológico.
“O carro inteligente é um robô sobre quatro rodas”
A Chery é um exemplo dessa convergência. A montadora entrou no mercado de robótica por meio da AiMOGA e considera essa expansão uma consequência natural do desenvolvimento dos veículos inteligentes.
“Hoje, o carro inteligente é, na verdade, um robô sobre quatro rodas”, afirmou Xia Peng, vice-gerente-geral executivo da AiMOGA, ao Global Times. Segundo ele, mais de 90% das cadeias de suprimentos utilizadas nos dois setores são compartilhadas, incluindo sistemas de transmissão, controladores, sensores lidar e câmeras.
A integração permite que empresas chinesas aproveitem a escala e a experiência acumuladas na indústria automobilística para acelerar o desenvolvimento de robôs humanoides e outras máquinas inteligentes.
Estrangeiros buscam cooperação
A convenção também procura apresentar a transformação tecnológica chinesa como uma oportunidade de cooperação internacional. O Reino Unido é o país convidado de honra desta edição.
O embaixador britânico na China, Peter Wilson, afirmou que as perspectivas de cooperação entre seu país e Anhui são “muito promissoras” e destacou a liderança chinesa em veículos elétricos. Segundo ele, Londres pretende não apenas receber produtos chineses, mas também atrair investimentos industriais e atividades de pesquisa e desenvolvimento.
Representantes da Costa do Marfim e da Alemanha também defenderam maior aproximação industrial com empresas chinesas. O embaixador marfinense Abou Dosso afirmou que empresários de seu país foram à convenção em busca de parcerias com companhias chinesas.
Para Tian Yun, a transformação da manufatura chinesa foi construída paralelamente à ampliação da abertura econômica e da cooperação internacional. Na avaliação do economista, a experiência chinesa pode servir como referência para países em desenvolvimento interessados em avançar da exportação de matérias-primas para atividades industriais de maior valor agregado.
A Convenção Mundial de Manufatura mostra, assim, uma China que procura combinar a escala industrial construída ao longo das últimas décadas com uma nova etapa baseada em pesquisa, tecnologia avançada e inovação. O movimento representa uma mudança qualitativa na posição do país nas cadeias globais: de grande plataforma mundial de produção para um dos polos onde as tecnologias da próxima geração são desenvolvidas e levadas à escala industrial.
Fonte: Brasil 247