Microsoft dis que China não pode ser usada como argumento contra regras para IA
Por Dayane Santos — Brasil 247
247 – O chefe de inteligência artificial da Microsoft, Mustafa Suleyman, afirmou que a disputa tecnológica com a China não deve ser utilizada para impedir a adoção de mecanismos de segurança para sistemas de inteligência artificial. A declaração foi dada ao programa Fareed Zakaria GPS, da CNN.
Suleyman afirmou que os Estados Unidos devem avançar em suas próprias medidas de proteção independentemente da competição com Pequim. “Não acho que devamos usar a China como bode expiatório para justificar não avançarmos em nossos próprios esforços” de segurança em inteligência artificial, declarou.
Na avaliação do executivo, a criação de normas não precisa representar um obstáculo ao desenvolvimento tecnológico. Para ele, regras comuns podem estabelecer parâmetros mínimos de segurança e contribuir para que os sistemas permaneçam sob controle humano.
“A regulamentação não deveria ser vista como algo ruim”, disse Suleyman. Segundo ele, trata-se da “criação de normas e padrões compartilhados para aumentar a segurança”. O executivo acrescentou que isso “não deveria necessariamente nos fazer avançar mais devagar”.
Suleyman defende limites para os sistemas de IA
O posicionamento do dirigente ocorre em meio ao debate dentro do próprio setor de tecnologia sobre a velocidade de desenvolvimento dos modelos mais avançados. Empresas como OpenAI, Anthropic e Google discutiram a criação de mecanismos voltados à segurança da inteligência artificial, enquanto seus executivos vêm alertando para riscos associados à evolução acelerada desses sistemas.
Na entrevista à CNN, Suleyman defendeu que os desenvolvedores estabeleçam objetivos delimitados para os modelos. “Os desenvolvedores de IA deveriam dar aos modelos objetivos limitados pelo código humanista que acredito que todos no setor deveriam estabelecer para eles, segundo o qual devem existir limites claros”, afirmou.
A equipe de inteligência artificial da Microsoft também publicou nesta semana um manifesto com orientações para o desenvolvimento dos sistemas da companhia. O documento estabelece como um dos objetivos manter os seres humanos no controle das futuras tecnologias de IA produzidas pela empresa.
Suleyman ainda havia feito críticas públicas a parte da linguagem utilizada em documentos que orientam o desenvolvimento do Claude, família de modelos de linguagem da Anthropic. A manifestação representou uma cobrança pública de uma empresa que também se apresenta como comprometida com o desenvolvimento responsável da inteligência artificial.
Trump defende aceleração da inteligência artificial
As declarações de Suleyman contrastam com a posição expressa pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem defendido uma expansão acelerada da indústria de inteligência artificial e rejeitado propostas de novas restrições federais.
Em publicação nas redes sociais no sábado, Trump afirmou: “Não vamos, de forma alguma, impedir ou sufocar o crescimento dessa indústria incrível”. O presidente também declarou que os Estados Unidos estão à frente da China na área e afirmou: “Estamos liderando a China, e o resto do mundo, e pretendo continuar assim!”.
Trump anunciou ainda a intenção de criar uma força-tarefa dedicada à inteligência artificial e indicar um chamado “czar da IA”. A iniciativa ocorre em um momento de crescente disputa sobre qual deve ser o papel do governo na definição de padrões de segurança para a tecnologia.
A política defendida pelo governo Trump privilegia regras específicas conforme o setor e o uso da tecnologia. Em manifestação anterior, o diretor do Escritório de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca, Michael Kratsios, defendeu uma abordagem baseada em aplicações e setores, em vez de uma regulamentação uniforme para toda a inteligência artificial.
Kratsios voltou ao tema neste domingo, afirmando que empresas que considerem seus próprios sistemas inseguros podem interromper voluntariamente seu desenvolvimento. “Nossa posição é que, se você acredita que está desenvolvendo uma tecnologia insegura ou não quer colocá-la no mundo, pode simplesmente interrompê-la”, afirmou ao Fox News Sunday.
Segundo o assessor de Trump, a segurança da IA deve ser analisada conforme o uso e o setor específico. Ele também classificou como “alarmismo” os apelos feitos no Congresso por novos mecanismos de proteção, atribuindo essas iniciativas a adversários democratas do presidente antes das eleições legislativas de novembro.
O debate ganhou força depois que empresas líderes do setor passaram a discutir publicamente os riscos associados à velocidade de desenvolvimento dos modelos mais avançados. Casos envolvendo agentes de IA que acessaram sistemas de outras empresas também ampliaram as preocupações sobre segurança e controle.
Para Suleyman, entretanto, a competição internacional não elimina a necessidade de estabelecer salvaguardas. Ao ser questionado sobre a possibilidade de China e Estados Unidos cooperarem em segurança de IA, ele defendeu a redução da retórica de confronto e a adoção de padrões capazes de limitar riscos para os dois países.
“É claro que queremos que eles assinem acordos de segurança, e também queremos aprender com suas melhores práticas, porque eles são muito capazes”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “Acho que precisamos diminuir a retórica adversarial entre nós e eles, porque, coletivamente, como humanidade, estaremos profundamente interessados em garantir que, nos próximos anos, essa tecnologia chegue da forma mais segura possível”, afirmnou.
O embate expõe uma questão central na atual corrida tecnológica: como preservar o ritmo de inovação e, ao mesmo tempo, estabelecer mecanismos capazes de reduzir riscos decorrentes de sistemas cada vez mais autônomos e poderosos. Para o executivo da Microsoft, a competição com a China não deveria ser utilizada para afastar esse debate.
Fonte: Brasil 247