“É preciso sonhar”: Eduardo Marinho e Renato Noguera refletem sobre saber e desigualdade no Despertar 2026
Por Iago Cezar — ICL Notícias
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Por Iago Filgueiras
No início da tarde deste domingo (20), dois filósofos subiram ao palco do Despertar 2026, no Vibra São Paulo, para provocar uma reflexão sobre pertencimento, classe e sabedoria. Um, Eduardo Marinho, se forjou nas ruas; outro, Renato Noguera, levou as ruas para dentro da Academia.
Compondo o painel “Quem tem direito de pensar: filosofia dentro e fora da universidade”, os dois mostraram a confluência entre caminhos e origens opostas, mas que encontraram na escuta, no acolhimento e no afeto em relação ao próximo um ponto de contato.
Do privilégio à consciência
Nascido em uma família de classe média alta, filho de pai coronel do Exército, Eduardo Marinho percebeu cedo que o que havia aprendido sobre as classes mais baixas e o que a realidade provava sobre elas não batiam. Cresceu com uma visão que enxergava os mais pobres como fracos, cujos empregos eram um favor dado pelas classes mais altas.
Mas um momento mudou tudo: uma mesada negada, ainda na infância. Depois de ter ouvido um não ao fazer o pedido para o pai, foi trabalhar “vendendo limonada e pegando jornal velho” para ganhar dinheiro para si. Foi ali que, em contato com meninos mais pobres, percebeu que a visão que havia sido ensinada a ele sobre outras classes estava errada. Para os colegas, o dinheiro não era um luxo para si, mas uma fonte de sustento para a família. “Eles eram muito mais fortes, dispostos e criativos do que eu”, afirmou.

Toda a fraqueza que sua classe enxergava era irreal. “Eles não são mais fracos, são mais fortes.” E aí, segundo Eduardo Marinho, veio a constatação: o privilégio que desfrutava era, na verdade, “fruto de uma injustiça social”. Os mais pobres tinham o direito de usufruir daquilo que para ele era normal, mas haviam “sido roubados”.
Envergonhado da própria condição, foi conversar e conviver com gente que estava trabalhando: nas festas e nos clubes da classe média alta, conversava com cozinheiros e garçons. Era sempre bem tratado, mas notou uma diferença entre a forma como os trabalhadores se tratavam entre si e a forma com que interagiam com ele e constatou que havia uma barreira ali, uma barreira de classe.
Anos mais tarde, quando era atleta no Exército, passou a questionar a forma com que seus superiores abordavam temas como a luta dos trabalhadores. Foi orientado a reconhecer os privilégios da profissão e abrir mão das perguntas. “Aí eu comecei a fazer a ligação. Peraí, o privilégio custa consciência. Eles estão me dando o privilégio para eu abrir mão da minha consciência”, relembrou. Foi viver em meio aos desprivilegiados.
Da terra da Portela à academia
Renato Noguera nasceu em uma família de classe popular no bairro Oswaldo Cruz, berço da escola de samba Portela, na capital carioca. Filho de pai comerciante e mãe cozinheira, estudou em escola pública e teve, ainda durante a infância, o contato com uma diversidade cultural que, ainda hoje, segue atravessando sua trajetória: mãe budista, avó paterna Ialorixá na Umbanda e tia materna candomblecista. Somado a isso, fez a primeira comunhão na Igreja Católica a pedido do pai.
Sua trajetória conheceu a desigualdade do outro lado. A avó materna foi empregada doméstica na casa de uma família de classe média e começou a ter contato com uma realidade mais abastada. “Duas vezes no mês comia em talher de prata, garfo de peixe. Outra semana com colher”, relembra.

Na faculdade, foi estudar filosofia, fez mestrado, doutorado e acabou se tornando pesquisador. Na academia, passou a incorporar textos e materiais filosóficos africanos e de povos originários em suas pesquisas, explorando Amenemope, filósofo africano nascido antes mesmo de figuras como Platão e Sócrates.
No palco do Despertar 2026, Renato trouxe uma história que ilustra bem a perspectiva de saber em sociedades não ocidentais, a partir, justamente, de um relato pessoal. “Há 20 anos atrás, eu já tinha uma formação por conta das histórias do meu avô. Eu sou de uma família cuja origem é da África do Oeste”, contou.
Em uma viagem de retorno ao continente africano para reconstruir parte da história da própria família, presenciou um casamento realizado no interior do Senegal, em que um griot — figura guardiã das histórias e da oralidade em tradições da África Ocidental — contou uma história, “uma história que eu aprendi quando era criança com meu avô. Eu sabia o final antes do final da história”, relembrou. O episódio retrata, justamente, algo que, por muito tempo, permaneceu excluído da filosofia ocidental: o peso da oralidade.
O saber e a sabedoria
Renato Noguera e Eduardo Marinho se juntaram para celebrar o conhecimento daqueles que, inferiorizados pelo pensamento dominante, acabaram excluídos. Por isso, Noguera destaca a importância de “pensar um repertório filosófico mais amplo, e não só o repertório clássico ocidental”. Para ele, isso passa por “trazer filósofos e filósofas que trazem formulações que tornam possível outros mundos além do mundo que nós habitamos”.
Eduardo Marinho complementou, reforçando a necessidade de que o repertório das ruas também seja incorporado ao repertório acadêmico, destacando a importância da pluralidade de vozes para a formação do pensamento.
“A sabedoria está na superação de dificuldades, na resolução de problemas que, na periferia, são muito maiores e numerosos do que em qualquer outra classe. Então, ali se desenvolve uma sabedoria, intuição impressionante”, afirmou. Para Marinho, é indispensável superar essa divisão.
“Porque, no dia em que o saber se encontrar com a sabedoria, acabou. Não tem mais dinheiro mandando”, disse.
Por isso, para ele, quem ocupa uma vaga no ensino superior deve ter a consciência de que está tendo acesso a conhecimentos que são direito de todos, mas negados para muitos. “Você não está adquirindo uma superioridade social, está adquirindo uma responsabilidade social e sua obrigação moral é levar esse conhecimento para quem foi roubado”.

É preciso sonhar
Para Renato Noguera, ampliar o repertório filosófico também significa questionar a forma como o pensamento ocidental estabeleceu hierarquias entre culturas, saberes e até entre os seres humanos e a natureza. É uma disputa que passa pelo campo epistemológico: quem pode produzir conhecimento, quais formas de saber são legitimadas e que relações construímos com aquilo que está ao nosso redor.
Nesse debate, Noguera recorre a dois conceitos: o polidiálogo, presente na filosofia Ubuntu, e a florestania, ligada à cosmopolítica dos povos originários. O primeiro propõe uma escuta que não se limita ao diálogo entre seres humanos, mas incorpora também a natureza, os ancestrais e aqueles que ainda irão nascer. “Eu converso também com outros seres. Eu converso com a floresta, com o rio”, explicou.
Já a florestania amplia a própria ideia de cidadania ao retirar o ser humano do centro de todas as relações. Em vez de enxergar a natureza apenas como recurso, essa perspectiva reconhece rios, florestas e outros seres como partes de uma convivência que precisa ser considerada nas decisões do presente. Para Noguera, essa mudança também exige abandonar a ideia de que os seres humanos ocupam o topo de uma hierarquia natural e reconhecer que somos apenas mais um entre tantos outros.
Mas, para imaginar uma realidade diferente, é preciso primeiro conseguir enxergá-la. E é aí que entra o sonho. Em uma sociedade marcada pelo estado permanente de alerta, Noguera defende recuperar a capacidade de imaginar outros futuros possíveis e lembra que “o excesso de alerta não nos deixa relaxar. Quem relaxa não sonha”. Para ele, o fato é que:
“Se a gente conseguir sonhar, a gente vai ter outros futuros possíveis para fazer florestania, para dialogar e criar um mundo que caiba todo mundo.”
Sobre o Despertar
O Despertar 2026 continua neste domingo (20), no Vibra São Paulo. A terceira edição do evento reúne pesquisadores, jornalistas, artistas, educadores e ativistas em debates sobre educação, cultura, democracia, direitos humanos e participação social.
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Fonte: ICL Notícias




