‘Pérola Negra’: livro destaca a ascensão de Luiz Melodia, um canto livre que desafiou a indústria

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Por Augusto DinizCarta Capital

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Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

O álbum revelou e projetou, em 1973, um excelente cantor e compositor

Antes mesmo de gravar seu primeiro álbum, Luiz Melodia despontava como um compositor de talento. O clássico Pérola Negra já havia sido incluído por Waly Salomão no repertório do show Fa-Tal – Gal a Todo Vapor (1971), de Gal Costa, e, no mesmo ano, ganhou destaque no álbum ao vivo extraído do espetáculo da baiana.

Em 1972, foi a vez de Ângela Maria registrar a canção em seu disco Angela. No entanto, antes disso, ainda em 1972, a cantora Lena Rios havia lançado um compacto duplo com Garanto (parceria de Luiz Melodia e Célio José) — esta, de fato, a primeira música de Melodia gravada exclusivamente para um álbum.

No disco Drama (1972), Maria Bethânia lançou Estácio, Holly Estácio. Já no álbum de estreia de Jards Macalé, que levava o nome do artista, veio Farrapo Humano, composta por seu conterrâneo.

É esse panorama que antecedeu a estreia fonográfica de Melodia que o escritor Márcio Pinheiro resgata no livro Luiz Melodia: Pérola Negra (Cobogó, 104 páginas), que também detalha a concepção do álbum e seus desdobramentos.

O disco Pérola Negra eternizou grandes sucessos na voz de seu autor, como a faixa-título, Magrelinha, Farrapo Humano e Estácio, Holly Estácio. A obra consagrou a interpretação originalíssima de Luiz Melodia, e todas as canções trazem letra e melodia exclusivamente dele.

O álbum traduz o DNA musical que Melodia moldou no morro do Estácio, no Rio de Janeiro, unindo a força do samba tradicional à elegância de sua forma de cantar e compor.

Embora não tenha sido um sucesso comercial, Pérola Negra provou que o artista tinha passe livre na carreira musical. O grande dilema da época era saber se ele se consolidaria apenas como intérprete ou se emplacaria suas próprias composições — que, antes mesmo do primeiro álbum, já haviam provado sua potência nas vozes de cantoras consagradas.

A indústria, a princípio, tentou enquadrá-lo no nicho do samba, gênero em alta na época. Melodia, no entanto, sempre foi livre das amarras do mercado e fazia questão de defender um trabalho com a sua identidade, conforme relata o livro.

Em meio a esse cabo de guerra editorial, ele só voltaria a gravar três anos mais tarde, com o álbum Maravilhas Contemporâneas, composto inteiramente por músicas próprias. Foi justamente nesse intervalo que começou a carregar a pecha de avesso aos modismos, caminhando sempre em seu próprio ritmo e colecionando alguns atritos com a indústria .

No aspecto musical, a obra de Márcio Pinheiro destaca a intuição artística de Melodia, que nunca se preocupou em entregar letras lineares ou mensagens óbvias. Ao contrário: suas canções são fragmentadas, repletas de imagens e metáforas, marcadas por versos cortantes e uma sonoridade que mesclava o samba tradicional com influências da música negra americana.

Luiz Melodia imprimiu como poucos à MPB uma liberdade estética e criativa. Seu disco de estreia é o retrato desse artista sem amarras ou regras de composição. O livro relata, portanto, um verdadeiro manifesto de rebeldia em um Brasil soterrado pelo regime militar.


Augusto Diniz

Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Fonte: Carta Capital

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